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por LUÍS FILIPE RODRIGUES
Durante mais de 40 anos, o radialista António Sérgio foi um dos maiores divulgadores de música nova em Portugal. Estava desde 2007 na Rádio Radar, onde apresentava os programas 'S.O.S. Radar' e 'Viriato 25'. Morreu durante a madrugada de ontem, aos 59 anos
António Sérgio costumava dizer que "falar sobre música nunca era tempo perdido". Isso notava-se nos seus programas. Era antes de mais um melómano, apaixonado pela mesma música que nos anos 70 começou a mostrar a sucessivas gerações de portugueses. Sim, era um realizador de rádio e um dos últimos autores no éter português, mas era, principalmente, um fã e um divulgador de música. Morreu durante a madrugada de ontem, na sua casa em Lisboa, vítima de um problema cardíaco. Tinha 59 anos.
Apesar de ser lembrado como um dos mais importantes locutores nacionais, o que lhe valeu o redutor (mas elogioso) epíteto de "John Peel português", a importância de António Sérgio ia muito para além da rádio. Foi ele quem produziu o primeiro disco dos Xutos & Pontapés, tendo ainda trabalhado com o Corpo Diplomático. Foi também editor discográfico, lançando uma infame colectânea punk que acabou por ser retirada do mercado por problemas relacionados com o licenciamento das canções.
Curiosamente, o radialista nunca tentou passar para o outro lado, nunca se tornou um músico. Não saltou da fila da frente, onde viu centenas de concertos, para cima dos palcos. Ou de trás das cabines onde deu a conhecer milhares de discos e canções, para os estúdios onde estas composições nasciam. "Cheguei a ouvir música original dentro da cabeça", contara há uns anos ao DN. "Mas nunca consegui aprisionar essas ideias. Tive guitarras e teclados nas mãos, mas nunca me dediquei". Tal como não se dedicara anos antes, quando em criança preferia jogar à bola que tocar o Fur Elise e o Eine Klein Nachtmuzik nas aulas de piano.
António Sérgio Correia Ferrão tomou pela primeira vez contacto com uma mesa de mistura com apenas sete anos. Na altura, os seus pais faziam rádio em Angola. Viriam depois para Portugal, e para a Rádio Renascença, onde o 'Lobo', como viria a ser conhecido, começou a trabalhar em 1968. Foi nessa estação que começou a dar nas vistas, no programa Rotações. No final dos anos 70, o seu nome era já uma referência, mas com o salto para a Rádio Comercial, onde em 1980 estreou o Rolls Rock, que consolidou a sua popularidade.
Na Comercial começa a mostrar aos portugueses sonoridades emergentes, no Som da Frente, e mais pesadas, no Lança Chamas. Em 1993, porém, trocou aquela emissora pela XFM, que se dirigia a um público mais alternativo. Criou então O Grande Delta, um espaço dedicado aos blues.
Todavia, em 1997 regressou à Comercial, e entre a uma e as três da manhã voltou a ser companhia regular de muitos ouvintes n' A Hora do Lobo. Isto até 2007, quando o locutor foi dispensado e o seu programa cancelado. Os protestos dos seus fãs não tardaram, sem grande efeito. Meses depois, retrataria este afastamento como "o ponto mais baixo" da sua carreira.
Mesmo assim, António Sérgio não ficou muito tempo afastado das rádios. "Quando foi dispensado pela Media Capital, agarrei-o logo", lembrava ontem Luís Montez, o dono da Radar. Nos últimos tempos, António Sérgio era a voz daquela estação, além de apresentar a rubrica S.O.S. Radar e o programa de autor Viriato 25. Sábado, o realizador tinha passado pela rádio, onde gravou o S.O.S. Radar e o Viriato 25 de hoje. E durante a semana, os últimos uivos do Lobo serão emitidos no horário habitual.
Tags: TV & Media, media
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