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por LINA SANTOS
Jeffrey Cole lidera um projecto mundial que estuda o consumo de Internet e telemóvel. Garante que as notícias estão mais importantes, mas vaticina o fim do papel em dez, doze anos em Portugal
Jeffrey Cole tem passado os últimos dez anos a estudar o comportamento de utilizadores de internet e telemóvel, e tem boas e más notícias para o mundo dos media. Segundo o estudo mundial que tem levado a cabo anualmente em 30 países, com 60 mil pessoas (duas mil das quais em Portugal), a televisão e os conteúdos para televisão vão continuar a crescer, os jornais têm os dias contados. "Na América, têm cinco anos. E em Portugal, embora não seja um especialista[a coordenação é de Gustavo Cardoso, do ISCTE], diria que em 10, 12 anos vão desaparecer aqui também. Sobreviverão uns cinco ou seis nos Estados Unidos, dois ou três em Portugal", afirma o investigador americano do Center for The Digital Future (CDF) da University of Southern California Annenberg School , orador convidado para abrir a III Conferência Anual da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que começa hoje. Tema sobre a mesa: 'O Futuro da Mediasfera. O Impacto da Regulação'.
Banda larga e móvel são o futuro, responde Jeffrey Cole, vaticinando o fim da maioria das publicações em papel. Nesse ponto, as realidades americana e portuguesa tocam-se. "Eu acredito que as notícias vão sobreviver, mas vamos ver o fim dos jornais. Há 30 anos os adolescentes não liam jornais. Começaram quando tinham 20 e 30 anos. Hoje os adolescentes não lêem jornais e não vão ler. A má notícia é que sempre que um leitor morre, não é substituído", comenta. As razões para o fim? "É uma combinação de falta de publicidade - e a recessão fez danos consideráveis na publicidade, de facto - e sustentabilidade".
Cole acredita que a 'sustentabilidade' e o 'verde' jogarão um papel fundamental num futuro próximo. "As pessoas vão olhar para jornais e dizer que são poluidores. O que nem é verdade". O que nem é verdade, acrescenta: "Os jornais são feitos em papel reciclado. Sentar-se em frente a computador parece totalmente 'verde', mas um dos maiores poluidores da América é a Google, porque tem quintas de servidores, com centenas de milhares de servidores a gastarem electricidade", observa. Acresce ainda, diz Jeffrey Cole, que "as pessoas estão a sentir-se mais confortáveis a ler digitalmente". E nota: "Hoje [ontem], o Kindle ficou disponível".
Como viabilizar o negócio na Internet e no telefone é, porém,a grande questão. "Não temos respostas perfeitas para isso. Rupert Murdoch decidiu que está cansado que as pessoas vejam os conteúdos à borla e vai tentar cobrar por eles Vamos ver quanto é que as pessoas estão dispostas a pagar. Sabemos que nos grandes jornais, 70 por cento do orçamento vai para o sector da distribuição, só 30% vai para os redactores e editores. Quando os jornais desaparecerem, 70% dos gastos desaparece também. Significa que um jornal que tinha de ter um lucro de um milhão de dólares, para ficar no mesmo nível deverá ter 300 mil. Mas tem de os ter a mesma e não vou minimizar este 'fardo', porque, por enquanto, os dólares da publicidade são cêntimos digitais", analisa.
Apesar do movimento de "grande consolidação", e apesar de os blogues e o YouTube serem "fascinantes", Cole acredita que "a maior parte das vezes não sabemos se podemos confiar e as pessoas estão a descobrir que os jornalistas são valiosos". A publicidade dirigida é a outra chave do mistério, diz. "Num mundo perfeito, teremos publicidade que não é intrusiva, mas totalmente dirigida para nós".
Cole admite que nos dez anos que leva deste estudo, nascido porque o investigador se convenceu, no final dos anos 90, que "a internet e os telemóveis iam ser ainda mais poderosos do que a televisão" tem mudado bastante de opinião. Espera errar algumas previsões e remata, parafraseando Andy Warhol: "As pessoas não querem 15 minutos de fama, querem 15 mega bytes de fama".
Tags: TV & Media, media
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