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por TIAGO GUILHERME
Marília Gabriela, jornalista e actriz brasileira da TV Globo, está em Portugal para rever amigos e negociar um espaço para trazer a peça Aquela Mulher, de José Eduardo Agualusa para Lisboa. O DN conversou com a entrevistadora num hotel do Chiado.
Que diferenças encontra entre o jornalismo que se faz no Brasil e o que se faz em Portugal?
Vocês têm um enfoque sobre a economia muito maior, estão mais preocupados com isso, ocupam mais espaços do que no Brasil. Na televisão temos mais recursos, o que tem a ver com o tamanho do país. Só São Paulo tem 18 milhões de habitantes. É cruel comparar o jornalismo de TV aqui com o de lá. Mas no conteúdo Portugal tem belíssimos jornalistas.
Que portugueses já entrevistou?
José Saramago, Mário Soares, Cavaco Silva, vários actores. Já foram muitos...
A entrevista é mesmo o seu género favorito?
Fui repórter durante muitos anos e um dia senti-me no direito de me sentar e estender a conversa. Dar cinco minutos a alguém é impossível que sai algo com mais profundidade ou verdadeira.
Qual é o segredo para se fazer uma boa entrevista?
É, acima de tudo, fazer perguntas sem um julgamento prévio. É fundamental.
Mas, de vez em quando, precisa de ser dura com os entrevistados?
Já fui mais. Sou da geração que se achava que informação era arrancar algo das pessoas. Ninguém arranca nada, nós conquistamos informação das pessoas.
Entre ser dura e mole, a Marília está no meio?
Eu não sou mole. Eu faço perguntas difíceis de uma maneira delicada. A pessoa tem de se sentir bem tratada para responder alguma coisa. Há uns anos vi uma entrevista aqui em Portugal com um primeiro-ministro, que se fosse eu tinha mandado quem entrevistou à puta que pariu. E não respondia mais nada. Não vou dizer quem foi que fez a entrevista. O entrevistado não conseguia responder a uma pergunta inteira, havia um atropelo agressivo. O primeiro-ministro devia ter-se levantado e ido embora.
Deve ser-se delicado?
Quando eu convido alguém para uma entrevista devo-lhe respeito, mesmo que não concorde com o pensamento da pessoa. Não faço juízos de valor. É fácil emitir as nossas opiniões, mas isso é uma "cafagestada". Eu acredito que a televisão forma opinião, por isso não acho justo concluir pelos telespectadores. Isso não me impede de colocar perguntas difíceis, mas quem vai tirar conclusões é quem me vê e não eu. Não é esse o meu papel.
Quantas vezes veio a Portugal?
Perdi a conta. Eu venho para cá desde uma excursão com colegas. Eu devia ter 17 anos. Ultimamente tenho vindo todos os anos.
Que diferenças encontra, desde essa época?
Quando venho a Portugal tudo me parece semelhante ao que conheci. Evidentemente, hoje, conheço jovens aqui, que são muito diferentes dos que conheci nessa altura. Eu acho os jovens portugueses bastante inteligentes e interessantes. E têm uma coisa que não reconheço nos brasileiros. Que é uma facilidade em partir para ir buscar coisas... Talvez porque estão muito perto de outras culturas. Eu vou contar uma história muito louca... A primeira vez que aqui vim, fui levada a um restaurante ou bar. E apareceu um rapagão que meteu conversa comigo, a fazer charme. Ele era da minha faixa etária e depois começou a escrever-me cartas para o Brasil. Num dia escrevia que ia servir em Timor, noutro mandava uma foto do aniversário, vestido de smoking no Ritz, noutro dizia que tinha estado na Venezuela. E depois outra foto dele num campeonato de tiro aos pombos... E esse rapaz chamava-se Manuel Champalimaud [filho de António Champalimaud]. Eu nem tinha ideia de quem era, até que um dia alguém me contou (risos).
Tags: TV & Media, media
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