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por DIANA MENDES
Para responder à falta de profissionais, e numa altura em que há muitos a aposentarem-se, as regiões de saúde estão a contratar clínicos sem a formação adequada, o que eleva os riscos para o utente
Os centros de saúde estão a colocar dentistas, cirurgiões e urologistas no lugar dos médicos de família, ou seja, sem a formação necessária e aumentando o risco de cometer erros com os utentes. A falta de profissionais está mesmo a levar as unidades a contratar clínicos reformados, a maioria através de empresas.
No Centro de Saúde de Sacavém, por exemplo, foram contratados três clínicos gerais e um estomatologista (dentista). "O médico da Clínica Médico-Dentária David Sousa está neste momento com um horário de 35 horas e a seguir uma lista de 1750 utentes", contou ao DN fonte da unidade. Neste centro existiam mais de 24 mil doentes sem médico e por isso foram contratados novos à da empresa Sucesso 24.
Também o director da empresa Biotipo Medic, que coloca vários médicos nos centros de saúde nortenhos, admite que há vários que não são médicos de clínica geral ou de família: "Temos alguns médicos de cirurgia geral ou ginecologia", exemplifica. Apesar de a maioria serem portugueses, há médicos espanhóis, holandeses e até da Ucrânia ao serviço.
Este tipo de contratação é mais frequente nas Administrações Regionais de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e Norte, mas também há casos no Centro.
A operar no Norte, a Clínica Pardelhas, 'fornece' aos hospitais médicos reformados. "30% a 40% dos nossos médicos estão reformados do SNS ou, pelo menos, já com reduções de horário e a querer fazer mais algumas horas", explica Horácio Bastos, sócio da Clínica Pardelhas. A utilizar estes recursos estão os centros de saúde de Pedrógão Grande, Santa Maria da Feira, Oliveira do Bairro ou Estarreja. O responsável diz que esta é uma solução rentável para o Estado, que paga entre 30 a 35 euros por hora.
Outras empresas de prestação de serviços, como a Select ou a Gente Saudável, admitem ter vários médicos reformados do SNS a exercer. Em Lisboa, segundo os últimos dados, foram contratados mais de 60 médicos para cerca de 20 centros de saúde. Grande parte não eram médicos de família e alguns médicos reformados.
Na ARS de Lisboa, por exemplo, há dois médicos reformados contratados ao abrigo de uma portaria que define uma autorização específica do Ministério da Saúde. Mas há muitos médicos reformados que voltam aos serviços de saúde através de empresas e com remunerações superiores. Em alternativa, regiões como o Alentejo e Algarve têm contratado médicos uruguaios e cubanos.
A empresa Gente Saudável, que recentemente colocou um anúncio a pedir médicos de qualquer especialidade, tem actividade em Lisboa, embora esteja a estender-se para outras regiões. No centro de Saúde de Torres vedras, esta empresa colocou mais de sete médicos de diversas áreas: clínica geral, medicina geral e familiar, cirurgia, otorrino, medicina interna, estomatotologia ou urologia. Mas, segundo Miguel Cruz, o director clínico da empresa, os profissionais que não são clínicos de família não apenas "fazem consultas a quem não tem médico" . A empresa admite ter a trabalhar médicos reformados, dois deles no centro de saúde.
Hugo Silva. médico de família da USF Amato Lusitano, refere que o recurso a médicos de outras especialidades, sem a formação adequada, "incrementa o risco de se cometerem erros. Sem a especialidade, não sabem tratar convenientemente uma hipertensão ou a diebetes, nem fazem devidamente programas de vigilância. São médicos que não sabem fazer uma rastreio a um cancro", alerta.
O secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, admite existirem casos pontuais de médicos de outras áreas em centros de saúde "sobretudo na região Norte e de Lisboa". No entanto, o governante diz que perante a falta de recursos, "é melhor ter um médico do que não ter". Já o presidente da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral, João Sequeira Carlos, teme que "Portugal regrida, numa altura em o mundo está a enveredar pela especialização dos seus profissionais".
Tags: Portugal
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