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por AMADEU ARAÚJO,
A rede de corrupção a partir da empresa O2 chega às autarquias. A Câmara de Gouveia é referida na investigação, com factos de Abril deste ano, e, apurou o DN, as suspeitas passam pelo desmantelamento de fábricas no concelho. O autarca do PSD, Álvaro Amaro, nega irregularidades. No dia seguinte às buscas da PJ, o edifício da câmara foi assaltado
A investigação "Face Oculta" tem na mira os negócios efectuados por câmaras municipais e a O2, a empresa de Manuel Godinho que está na base da "rede tentacular" desmantelada esta semana pela Polícia Judiciária e Ministério Público. O DN sabe que a Câmara de Gouveia é uma das que está a ser investigada. A autarquia, presidida pelo social-democrata Álvaro Amaro, desmentiu ontem que haja irregularidades nos contratos que tem com a O2.
Em comunicado da câmara e no próprio discurso, ontem, de tomada de posse de Álvaro Amaro, é referida uma adjudicação em Janeiro de 2009 de um contrato para a recolha de veículos em fim da vida, no valor de 400 euros. No entanto, no despacho judicial da "Face Oculta" é relatada uma conversa telefónica ocorrida em Abril de 2009 entre um intermediário de Manuel Godinho e uma mulher de nome "Paula", em que falavam de uma consulta para a realização de trabalhos na área da selecção, recolha, transporte, armazenagem, triagem, tratamento, valorização e eliminação de resíduos, cuja adjudicação à O2 já estaria garantida.
Ao que apurou o DN, este negócio envolverá a venda de sucata, resultante de demolição de fábricas no concelho de Gouveia, cuja ligação entre a câmara e a O2 pode não ser directa. Várias fontes ligadas ao processo ouvidas pelo DN asseguraram que em causa estão "a recolha e tratamento de desperdícios resultantes de algumas demolições, feitas no concelho e em que a câmara foi parte interessada".
O contrato de demolição da fábrica "Bellino & Bellino" envolve uma área de 25 000 metros quadrados, que engloba quatro antigos pavilhões da antiga estrutura fabril. No interior, há muita sucata e, para além do ferro da estrutura metálica do pavilhão, há ainda caldeiras e tubagens. Em Agosto, o projecto foi apresentado através de uma Parceria Público Privada (PPP) entre a autarquia de Gouveia e a construtora Manuel Rodrigues Gouveia. Na altura, Álvaro Amaro anunciou a aprovação de uma candidatura, no âmbito da "regeneração urbana", que assegura uma verba de um milhão de euros, destinada a demolir a parte da ex-Bellino & Bellino que irá ser totalmente intervencionada. As obras ainda arrancaram em Agosto, mas pararam pouco depois.
Na autarquia de Gouveia, as candidaturas aos fundos comunitários são elaboradas sobretudo por Paula Camelo, a técnica da autarquia que "faz assessoria" a Álvaro Amaro. Pertence ainda à concelhia do PSD de Gouveia e é tida como "da confiança restrita" do autarca, disse ao DN fonte da câmara.
Segundo estas fontes, "desde Julho que a câmara está, também, a ser alvo de uma inspecção por parte da Inspecção-Geral das Autarquias Locais.
As suspeitas sobre ligações menos claras entre a autarquia de Gouveia e as empresas de Manuel Godinho são repudiadas por Álvaro Amaro. Em comunicado emitido ontem à tarde, a autarquia confirmou apenas "uma adjudicação, em Janeiro de 2009" e assegurou que "cumpriu, de forma escrupulosa, os trâmites legais neste único processo relativamente à empresa referida". Neste negócio, a autarquia alienou à O2 oito veículos que estavam abandonados na cidade.
Contactado pelo DN, o autarca do PSD apenas disse: "Fizemos um único negócio com a O2 que decorreu com total transparência."
Tags: Portugal, Centro
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