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por ELISABETE SILVA*,
O novo Governo, liderado por José Sócrates, cujos ministros tomam hoje posse, tem como primeiras prioridades a alteração ao modelo de avaliação dos professores e também a questão fracturante do casamento homossexual. O DN foi ouvir o que os padres dizem nas suas homilias e o que pensam os crentes sobre o polémico assunto. Mas o Executivo terá de se preocupar mais com o pacote de medidas para conter o desemprego e o encerramento das empresas. E saber se neste processo de combate à crise cabem os grandes projectos como o TGV e o novo aeroporto
O casamento homossexual deverá ser uma das prioridades do novo Governo liderado por José Sócrates. O DN foi ontem ouvir o que se dizia nas homilias sobre o assunto, em Lisboa, no Funchal, em Setúbal e em Viseu. Houve sítios em que o tema era menos abordado do que o novo livro de José Saramago, "Caim". Isto num dia em que o líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, também avisou que não se justifica que o casamento homossexual seja referendado.
Juntar casamento e homossexuais na mesma frase é algo que imediatamente provocou uma reacção negativa inicial em alguns dos fiéis que estiveram ontem presentes na Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, onde na homilia não houve referência ao tema. Por norma, a justificação pelo desacordo por uma das primeiras prioridades do Governo de José Sócrates é directa: "é contranatura." Porém, há flexibilidade nas opiniões.
Luísa Godinho é um bom exemplo. Questionada pelo DN se era a favor ou não dos casamentos homossexuais, começou por considerar que "é contranatura". Admitiu que a Igreja "não deve condenar os sentimentos" e que "este assunto não deve ser prioritário" nem para a Igreja nem para o Governo. "A nível católico não concordo. Casamento civil, união de facto, regalias no IRS, tudo bem. É uma assunto complexo e, quem sabe, até mudo de opinião um dia", explicou ao DN a Educadora de 56 anos.
Com um estado de espírito calmo, mas atento, Maria Helena Amaral disse: "Deus não criou para ser assim." Esta antiga doméstica, de 76 anos, demonstra desânimo com a prioridade. "Deviam é preocupar-se com a fome e com a saúde", diz.
A seu lado estava Maria Adelaide Marques que, ao aperceber-se da conversa, não hesitou em intervir. Aos 83 anos segura-se com dificuldade numa muleta, mas tem a voz segura na revolta por a prioridade de Sócrates ser este assunto: "Estou cega, há anos que espero por uma operação. Com este problema ou outros idênticos não se preocupam eles. Eu não sou contra nem a favor de que eles [homossexuais] casem. Isso é a vida deles."
Os padres na Madeira estão mais preocupados com o livro "Caim" de José Saramago do que com a iniciativa do Governo PS sobre os casamentos dos homossexuais e que irá marcar nos próximos tempos a agenda política do governo que hoje toma posse. Das missas assistidas ontem de manhã, no centro do Funchal, ficou claro que a controvérsia em torno das várias leituras da Bíblia e as polémicas afirmações do escritor levam os clérigos a transformar as homilias em autênticas sessões de esclarecimento para um público que, provavelmente, nunca leu os Textos Sagrados. Mas uma coisa constatámos.
Os padres mais novos são mais fundamentalistas do que os padres com longa carreira de vida e de sacerdócio. Na Igreja de Santa Maria Maior, o padre Rafael mostrou-se mais tolerante, admitindo, inclusive, que havia passagens da Bíblia de "difícil compreensão" dai a necessidade de as pessoas entenderem que se trata, muitas vezes, de parábolas, reiterando a importância da sua análise e lembrando, por exemplo, que este é o livro mais vendido no mundo. Um best-seller de traduções que ao longo de décadas e décadas levantou questões de vária ordem, considerando, a páginas tantas, benéfica a sua discussão. Posição contrária e radical teve o padre Marcos, da Igreja do Colégio dos Jesuítas.
Numa igreja radicada entre os bairros mais problemáticos de Setúbal, paredes-meias com a Bela Vista, o tema "casamento entre pessoas do mesmo sexo" ainda passa ao lado dos fiéis. Numa zona onde o desemprego se aproxima dos 30% e metade da população vive no limite da pobreza, encontrando na criminalidade uma forma de vida, as prioridades são outras, como reconhece o padre Constantino Alves. Foi por isso que na homília de ontem preferiu falar do "respeito pelos outros". O mote foi o novo livro de Saramago.
"Há realidades que precisam de ser iluminadas", alertou Constantino Alves, uma voz com eco entre a acentuada presença multicultural sadina, que há nove anos exerce na paróquia da Senhora da Conceição, tendo dado a caro nos momentos mais críticos. "A Bíblia é um valor sagrada para os cristãos. Há o direito das pessoas discordarem, mas também há a obrigação do respeito para com as outras pessoas, independentemente das suas convicções pessoais", disse o sacerdote, para quem o livro é mais um exemplo do "significado da tolerância com os outros."
Constantino Alves não leu o livro, nem o deverá fazer nos próximos tempos, mas conseguiu lançar o debate mesmo entre os fiéis assumidamente mais à esquerda, que não aceitam "insultos à Bíblia", segundo Carlos Pernas, "eterno" votante do PS, mas que ainda não tem opinião formada sobre os casamentos homossexuais. "Somos cristãos, mas preferimos dar o direito de opção. Neste caso, olhe que não é fácil", resumiu Florbela Esteves à porta da igreja, cujo pároco apresenta um discurso ponderado, assumindo que o assunto "é delicado e complexo", pelo que só lá mais para a frente deverá ser abordado nas celebrações religiosas.
"Cego mas não surdo." Um excerto da parábola do cego foi o tema de grande parte dos sermões nas missas dominicais na região de Viseu. Nem Saramago nem casamentos de homossexuais foram tema, directo, nas prédicas, mas os católicos receberam o sermão e perceberam a mensagem: "Seguir Deus e não ficar parado."
Na primeira missa na Sé, a maior igreja de Viseu, o cónego Leitão, uma das vozes mais radicais na igreja viseense, usou a parábola para lembrar que "aqueles que estão na Igreja e não querem ver o que é direito, só vêem o mal. Devemos seguir Deus e agir". No final da prédica os católicos mostraram ter percebido o "recado". "Devemos incitar aos valores cristãos e proceder na vida como na Igreja", diz Teresa Ramos para quem "as palavras do padre serviram para nos unirmos na defesa dos valores e não noutras polémicas, como o casamento dos homossexuais, que vai contra a doutrina da Igreja".
No Colégio da Imaculada Conceição o cónego Sílvio, alertou para a necessidade de "ler e perceber bem a Bíblia para que não nos desviemos do nosso caminho de cristãos". No exterior, os católicos acusaram o toque. "Alertou para não ouvirmos quem desafia Deus com actos de ódio e de obscurantismo", contou Manuel Lopes, de 76 anos.
Tags: Portugal
Jorge Silva Marques
Trata-se não do casamento "gay" ...
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Antolin Santos
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5 Comentários
27 Out 2009, às 09:28 - Portugal - Lisboa
Trata-se não do casamento "gay", mas do acesso de pessoas do mesmo sexo ao MESMO casamento CIVIL que os outros cidadãos. O matrimónio canónico pertence à Igreja, o casamento civil ao Estado. A Igreja que se ocupe dos seus fiéis!!!!
26 Out 2009, às 18:03 - Portugal - Lisboa
Os gays são uma realidade de sempre. Se fosse uma doença específica tudo era mais fácil. Já o Hitler tinha resolvido o problema, mas não é. Que cada um de nós seja acima de tudo um bom caracter e um bom cidadão com tudo o que isso implica de deveres e atitudes correctas. Deixem as pessoas estarem como quizerem estar na sua intimidade e a desenvolverem afectos. O resto é moralismo barato.
26 Out 2009, às 17:59 - Portugal - Lisboa
O problema que opôs a Igreja a Saramago não é religioso.É político e de PODER. A Igreja lida com as outras religiões e com o ateísmo desde sempre. Só que as vocações sacerdotais atravessam uma grande crise e o pior será ter que "levar" com um "peso-pesado" intelectual como o Saramago a dizer mal dela ( via Biblia) nas televisões com milhões de audiências.Este é que é o problema.
26 Out 2009, às 11:39 - Portugal - Lisboa
Há sempre alguns crentes que ficam muito chocados com as opiniões que sejam contrárias ás suas, e fazem logo "soar os sinos" a rebate ! No entanto calam-se a todos os crimes cometidos pela Igreja. Bispos pedófilos, desvios de dinheiro, arsenais de armas, já para não falar na coroa de glória, a "Santa Inquisição" ! Mas que raio de humanismo e de crenças "cobre" esta gente !!!
26 Out 2009, às 10:10 - Portugal - Porto
Curioso é que quem ler CAIM, atento às suas metáforas, fica com a ideia que é condenável a intolerância para com a homossexualidade (que existe como fenómeno natural) mas também que à homossexualidade podem estar associadas perversões de carácter e que, de todo, é inconveniente que haja "CRIANÇAS DE SODOMA" , isto e, que a homossexualidade seja confundida com "família"! "Morrem" por causa dela!
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