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por PATRÍCIA JESUS
Seis meses depois de ter sido descoberto um novo vírus da gripe, o mundo já tem uma vacina, que em Portugal começa a ser distribuída na segunda-feira. Este é um dos sucessos no combate à primeira pandemia do século XXI, que tem corrido melhor do que o esperado
Se um doente recusar a vacina contra a gripe A a decisão vai ficar registada na sua ficha clínica. A orientação é dada pela Direcção-Geral de Saúde (DGS) na circular sobre a campanha de vacinação, que começa na segunda-feira. Assim, todos os doentes que cumpram os critérios e recusem receber a nova vacina vão ficar com essa referência na sua ficha clínica.
A subdirectora-geral da Saúde explica que se trata de um "acto de boa prática médica", porque é uma informação relevante. Para o obstetra Luís Graça, o mais importante é que os médicos façam um esforço para transmitir a importância da imunização aos doentes, sobretudo às grávidas, que muitas vezes receiam ser vacinadas. "Cabe aos médicos tomar a iniciativa de propor de maneira veemente e explicar os benefícios da vacina", argumenta.
As primeiras 54 mil doses começaram ontem a ser distribuídas pelos centros de saúde. No entanto, nem todos vão ter a vacina: a DGS aconselha que a vacinação seja concentrada na sede dos Agrupamentos de Centros de Saúde, para evitar a repartição das doses, já que cada frasco contem dez. As Administrações Regionais de Saúde vão ainda enviar parte das vacinas para hospitais, não só para os doentes internados com indicação para receber a vacina, como para os profissionais de saúde que podem ser imunizados nas unidades onde traba-lham.
Nas próximas duas semanas o Ministério espera vacinar 10 mil grávidas com doenças, 15 mil profissionais de saúde e 30 mil trabalhadores imprescindíveis ao País.
Seis meses com medo
O facto de a vacina ter chegado semanas antes do previsto inicialmente, quando a Organização Mundial de Saúde declarou a primeira pandemia do século XXI, é um dos pontos positivos dos últimos seis meses de combate à gripe A, realça Graça Freitas. E resulta directamente do esforço humano para combater e conter o vírus.
Por outro lado, podemos agradecer à natureza o facto de o vírus se manter estável e não se ter tornado mais perigoso, acrescenta a médica. Para o virologista Jaime Nina, apesar do alarme inicial - quando se chegou a comparar a situação à gripe espanhola de 1918 - , o vírus tem uma gravidade próxima, ou mesmo inferior, à da gripe sazonal. Por isso, os cenários desenhados há alguns meses têm estado ser revistos. No Reino Unido, por exemplo, os responsáveis pela saúde admitiram, em Julho, a possibilidade de a gripe A matar 65 mil pessoas. Entretanto, este número baixou para 19 mil vítimas. Isto sem contar com os efeito da vacinação.
Em Portugal, onde já morreram quatro pessoas (e onde a gripe sazonal mata todos os anos cerca de 1 700), as autoridades alertam que a fase mais grave ainda está por chegar. E há desafios importantes. Por um lado, a maior parte da população ainda não tem defesas contra este vírus. Assim, mesmo que a percentagem de vítimas seja pequena, o número total de pessoas afectadas pode ter grande impacto. Depois, esta gripe afecta sobretudo jovens, adultos e crianças, ao contrário da sazonal, que atinge mais os idosos. Por último, apesar de causar menos pneumonias, estas são graves e obrigam mais ao uso de ventilação. A falta de ventiladores é, aliás, um dos problemas temidos pelos especialistas. E ontem, o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares alertou que algumas unidades ainda não estão preparadas para substituir profissionais doentes e "vão ter problemas". Nos hospitais de Coimbra são já sete os profissionais de saúde infectados.
Tags: Portugal
Fotografia © Leonardo Negrão-DN
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