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DN - Queria lançar aqui um outro tema que tem a ver com a fraqueza relativa do bloco central. Alcançou apenas 66% dos votos e para o comparativo mais próximo é preciso recuar a 1985, com o fenómeno do PRD. Voltamos a ter cinco partidos com expressão e aí também há uma semelhança com 1985. O que pode acontecer no actual sistema português, um bloco central fraco e um sistema de cinco partidos, dr. Paulo Teixeira Pinto?
Paulo Teixeira Pinto (PTP) - O bloco central é uma situação perversa para o sistema. A grande novidade que temos hoje é que tínhamos um sistema quase perfeitamente simétrico: dois partidos que se situavam no eixo central, PS e PSD, e dois partidos na margem, PC e CDS. Um equilíbrio de simetria que agora está desfeito, porque há dois partidos à esquerda daquele que está no poder. Portanto, neste momento, as coisas podem fazer-se de diversas maneiras, mas há uma maioria sociológica de esquerda.
Dr. José Miguel Júdice…
José Miguel Júdice (JMJ) - Eu vou longe. Por volta de 1978, escrevi um artigo em que defendia a ideia da bipolarização ao centro, isto é, a ideia de que o sistema que melhor criaria o equilíbrio era um sistema em que houvesse dois partidos, um de esquerda, outro de direita, moderados. Mas o sistema da bipolarização funcionou mal por uma razão simples. Porque ninguém no Partido Socialista foi capaz de dizer o que era o óbvio: o Partido Comunista deve integrar o bloco do Governo à esquerda. E a sociedade portuguesa habituar-se-ia a que assim fosse, e provavelmente a história portuguesa seria diferente. Seja como for, o sistema da bipolarização foi um enorme sucesso em termos sistémicos: permitiu que Portugal passasse por um conjunto de alterações profundíssimas em termos sociais e em termos económicos, etc., com enorme estabilidade. E permitiu um jogo político de alternância, poupou-nos ao apodrecimento a que se assistiu, por exemplo, em Itália.
PTP - Aí há fragmentação…
JMJ - Exactamente. Portanto, foi um sistema que funcionou bem e eu, anos a fio, o defendi. Mas eu penso que a bipolarização acabou, as condições da bipolarização desapareceram. É evidente que estas eleições mascararam um bocadinho, porque Manuela Ferreira Leite meteu medo à esquerda!
JAM- E isto teve como efeito que alguns eleitores significativos de esquerda acabaram por ir votar no mal menor, isto é, no Partido Socialista, em vez de irem engrossar o Bloco de Esquerda, como provavelmente teria acontecido. O PC e o Bloco de Esquerda não chegaram aos 20%, como eu previ há quatro anos, mas chegaram aí por volta dos 18% e vieram para ficar. Não é possível reinventar a bipolarização a não ser de uma forma…
PTP - O CDS e o Bloco de Esquerda têm 20%.
JMJ - A única forma de refazer a bipolarização é a criação de um grande partido de direita que não é a fusão entre o PSD e o CDS, não, é a criação de um novo partido, em que, evidentemente, o PSD e o CDS sejam a base essencial que o vai criar.
Algo semelhante ao Bloco de Esquerda?
JMJ - ... Trazendo para a política um conjunto de pessoas com vontade política, que o sistema partidário não deixa entrar.
Um partido liberal parecido com o alemão?
JMJ -Não, um partido de direita! Como o do Sarkozy! Esse partido não existe em Portugal. Exactamente porque o PSD tem uma esquizofrenia mansa, não tem linha de rumo! Portanto, eu acho que o que vai acontecer é que vamos ficar numa situação de tripolarização. Uma situação em que temos, à esquerda do Partido Socialista, várias forças políticas com as quais é difícil que, mais do que pontualmente, façam acordos, que valem 20% e que eu acho que tenderão a valer 25%. À direita, temos as forças políticas que nunca baixarão muito dos 35%.
A soma das duas?
JMJ -A soma dos dois. E ao centro um partido que tem 40%. O PSD vai transformar-se no bloco central ele próprio, porque vai abrir para a esquerda e para a direita e vai transformar [o PS] naquilo que o Soares queria em 1976, o partido natural do Governo. Não pode haver governo sem o PS, como em Itália não podia haver governo sem democracia cristã. E depois faz as alianças, pontuais ou não, consoante as conjunturas, e governa em permanência. Eu digo assim: "É disto que eu gosto, é isto que eu quero?" Não. Mas eu penso que é isso que vamos ter.
O PSD tem de ponderar também a liderança?
PTP - Parece-me evidente. É claro que Manuela Ferreira Leite perdeu, mas é preciso recordar que não perdeu sozinha. O que esteve em causa não foi só uma pessoa, foi toda a estratégia política do partido, que começou com auto-exclusões. Por isso, é de uma grande injustiça atirar todas as responsabilidades da derrota para a líder. Neste momento, há muitos protocandidatos, muitas pessoas que gostariam de ser líderes do partido, mas eu agrupo-os basicamente em duas naturezas: aqueles que o podem fazer por sua própria vontade, independentemente dos outros, e aqueles que só o serão se não for um terceiro. Por exemplo, neste grupo todo que está alinhado com a direcção actual do PSD, haverá vários candidatos possíveis. Mas nenhum o será se Marcelo Rebelo de Sousa for.
JMJ - Se for depressa!
PTP - Mas, se ele for candidato, nenhum dos outros o será.
JMJ - Se alguém avançar, o Marcelo recua.
Nuno Rogeiro (NR) - A questão é saber, caso o Marcelo recue, se alguém avança.
E se Marcelo Rebelo de Sousa preferir ser candidato presidencial do PSD?
PTP - Eu preferia que ele fosse candidato dentro do PSD e que houvesse alguém que o defrontasse.
BB - Mas acredita que o Marcelo alguma vez avançará?
PTP - Não acho provável. O que estou a dizer é que há um conjunto de candidatos que só o será se ele não for. O que já representa, em si mesmo, uma subordinação, um reconhecimento de secundarização perante ele.
JMJ - Eu desejaria que fosse Marcelo Rebelo de Sousa, tenho-o dito há muito tempo. E acho que Marcelo Rebelo de Sousa, se for líder do PSD, pode ser candidato presidencial se Cavaco não avançar- muito mais naturalmente do que se não o for. É um notável líder da oposição, já o demonstrou. A sensação que eu tenho é que, de facto, Marcelo Rebelo de Sousa é o melhor líder que o PSD pode arranjar para esta altura, mas eu estou convencido de que não vai ser. Eu estou convencido que vai haver uma guerra entre Passos Coelho e alguém que saia do bloco actual, e o mais bem colocado é Paulo Rangel. E o Marcelo só avança se tiver a certeza, está com 62 anos, 61, não está para transformar a sua vida num inferno, é respeitado, admirado, tem sempre a hipótese de poder ser o candidato presidencial se ficar de fora. Portanto, eu acho que o Marcelo só avançará se houver um movimento no dia 11, ou no dia 12, dos presidentes de câmara, que é quem manda no partido, a dizer "é o Marcelo". E nessa altura, se toda a gente disser, ele avança, com a vitória garantida. Ir candidatar-se contra o Passos Coelho e perder? Ir candidatar-se numa triangular e perder? Isso ele não faz. Portanto, o mais provável é que seja ou Paulo Rangel ou Passos Coelho, um deles, a ganhar. Eu, com franqueza, gosto mais do Paulo Rangel. Conheço-o há muitos anos e acho que é mais adequado ao perfil do PSD à antiga.
NR - Se Marcelo Rebelo de Sousa não avançar como líder natural (à falta de um D. Sebastião, ele é o mais próximo do D. Sebastião que o PSD neste momento tem), Passos Coelho e todos os outros correm o risco de ser canibalizados por Paulo Portas, que já sentiu o sangue fresco no PSD. Portas pode ter muitos defeitos, mas sente quando um animal está ferido. E neste momento sentiu isso, e sabe que vai crescer se o PSD não arranjar rapidamente uma solução de liderança. E essa solução de liderança não é Passos Coelho, não é Rangel, todos excelentes pessoas, mas são lideranças fracas. Tem de ser uma liderança muito forte, e a única liderança forte que, ao mesmo tempo, pode combater Paulo Portas no campo das ideias e ter ideias alternativas, é a liderança do Marcelo Rebelo de Sousa. É preciso saber se o Marcelo Rebelo de Sousa, como o José Miguel disse, aos 61 anos, quer meter-se neste trabalho, isso é outro problema.
E poderá ser o regresso da vichyssoise?
NR - Eu não sei, tenho impressão de que hoje as pessoas preferem as refeições rápidas, o engano nas ementas é menos provável.
Tags: Portugal
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