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por JOÃO PEDRO HENRIQUES
Invocando o próprio programa eleitoral do BE, José Sócrates conseguiu colocar Francisco Louçã à defesa. Em causa, uma proposta para se acabar com as deduções fiscais.
Francisco Louçã tinha vários "casos" na manga. José Sócrates só tinha um. Mas o que tinha era de peso e o líder do Bloco de Esquerda teve dificuldades em explicar-se. Os líderes do PS e do Bloco de Esquerda confrontaram-se ontem na RTP1, com moderação de Judite Sousa. Louçã passou grande parte do frente- -a-frente de ontem à defesa e isso ainda não lhe tinha acontecido.
O "caso" que Sócrates levou ao debate foi o programa eleitoral do Bloco de Esquerda. Segundo disse, este propõe não só a eliminação dos benefícios fiscais para os PPR (Planos de Poupança-Reforma) como também a eliminação de todas as deduções fiscais sobre gastos na educação ou na saúde. "Isto conduziria a um aumento brutal da carga fiscal sobre a classe média", disse o líder socialista. "Isto não é [Américo] Amorim nenhum, é a classe média!", acrescentou, dizendo que as medidas bloquistas obrigariam a mais mil milhões de euros em impostos.
Louçã, aparentemente, não esperava que o secretário-geral do PS tivesse lido o programa do Bloco tão em pormenor. Argumentou que os PPR já não dão rendimento nenhum porque "a bolsa caiu 80%". E acrescentou, quanto às deduções fiscais, que o programa do BE também propõe um Serviço Nacional de Saúde inteiramente gratuito ("as taxas moderadoras são um ataque aos pobres") e ainda, na educação, que os manuais escolares sejam oferecidos. Dito de outra forma: segundo o líder do BE, não haverá lugar a deduções fiscais porque os contribuintes deixarão de ter despesas na educação e na saúde.
Mas Sócrates voltou à carga pelos menos mais duas vezes. Acusou Louçã de "radicalismo" e denunciou-lhe uma "recaída ideológica". "Sei que no movimento revolucionário a classe média sempre foi vista como uma classe que estava a mais, entre as vanguardas da classe operária e a burguesia."
Nesta altura, Louçã esteve quase a perder a cabeça - aconteceu-lhe uma vez num debate difícil com Paulo Portas em 2005 - e recordou implicitamente ao líder socialista o seu passado de ex-militante da JSD. "Sempre pertenci à família do socialismo democrático", respondeu Sócrates.
O debate começou com Louçã dizendo que "o PS e o PSD não são iguais" - e recordando aqui a unidade da esquerda na luta pela despenalização do aborto. Mas logo a seguir tirou um "caso" da manga dizendo que "a Mota-Engil de Jorge Coelho" tinha ganho um concurso para uma auto-estrada (Coimbra-Oliveira de Azeméis) por 535 milhões de euros, aumentando logo a seguir o custo para 1174. "Está equivocado", repetiu Sócrates inúmeras vezes, dizendo que não há adjudicação. Jorge Coelho "voltou" ao debate pela voz de Louçã por causa do negócio do terminal de Alcântara e aqui Sócrates invocou o "interesse nacional".
Veja o VIDEO:
Tags: Portugal
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