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como criar uma tecnopólis: Portugal foi ver ao texas

por SUSETE FRANCISCO,  

David Gibson tem pendurado na parede do gabinete um mapa-mundo onde pioneses coloridos marcam os sítios por onde passou em trabalho. O que marca Lisboa é mais um entre três dezenas, mas olhando à volta não restam dúvidas de que este ponto é o que concentra actualmente as atenções deste professor norte-americano. Na parede ao lado está pendurado um mapa de Portugal e uma enorme Bandeira das Quinas: "Foi um amigo português que me deu, era do Euro 2004."

A bandeira acabou em Austin, a capital do Texas. Estamos na universidade local, um gigantesco complexo universitário que acolhe cerca de 50 mil estudantes. São 16 faculdades e escolas, um serviço de transportes próprio, a maior biblioteca pública de acesso gratuito dos Estados Unidos, o maior computador do mundo usado para fins de investigação. Uma universidade que abre agora as portas aos estudantes e investigadores portugueses através do programa UT Austin-Portugal, uma parceria que envolve 15 universidades nacionais, vários laboratórios e parques de ciência.

Lançado pelo Governo, coordenado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), e com um custo avaliado em 17 milhões de euros, o programa completou dois anos em Março. Um tempo que serviu sobretudo "para construir relações, para pôr equipas em contacto", diz David Gibson, director associado do programa em Austin. Que acrescenta ter tido uma "agradável surpresa" na fase inicial: "Fui aos melhores elementos da UT Austin, na matemática, em digital media, na comunicação. E todos concordaram fazer uma visita a Portugal."

Em sentido inverso, a Austin começam agora a chegar os primeiros estudantes portugueses ao abrigo do programa, que se concentra precisamente nas áreas de media e conteúdos digitais, formas de computação avançada e matemática. Mas se a nível académico David Gibson só tem elogios, não deixa de apontar obstáculos burocráticos. Em Portugal, o financiamento para os projectos tarda a chegar: "Isto é um grande esforço, uma grande aposta do Governo português e deve ser dado crédito a isso. Mas um dos desafios é conseguir o apoio para as pessoas em Portugal, pôr as coisas a andar mais depressa. Em termos de fundos, do OK para a vinda de estudantes..."

Projectos de investigação com equipas mistas, dos dois lados do Atlântico (foram, até agora, aprovados 18), visitas de intercâmbio, seminários, workshops - esta é até agora a face mais visível do programa, designado por CoLab (International Collaboratory for Emerging Technologies). A criação de graus conjuntos de doutoramentos está em marcha. Os primeiros estágios também. E o que ganham os estudantes, académicos e investigadores nacionais com esta colaboração?

André Almeida está em Austin ao abrigo do programa, mas não sabe se fica. Está "em prospecção". "A minha área de investigação cruza multimedia e vídeo. Tem muitas possibilidades, documentário interactivo, audiovisual interactivo... A minha intenção é encontrar interlocutores que me possam ajudar, em Portugal tenho dificuldades em encontrá-los, é uma área nova, não há muita gente". Para André, a dificuldade está no know-how - "não me consigo confinar só a Portugal". A nível de equipamentos "chega perfeitamente".

O mesmo não dirão os investigadores noutra das áreas do programa - se há algo que salta à vista em Austin são as infra-estruturas. Exemplo: Jay Boisseau, director do Cen-tro de Computação Avançada do Texas, abre, com um evidente orgulho, uma das portas do Centro: lá dentro está o Ranger, ou dito por outras palavras estão 600 metros quadrados de computador, qualquer coisa como 50 mil PC a funcionar ao mesmo tempo. É o maior computador usado para fins civis nos Estados Unidos.

Em Austin parece não haver nada que não acabe na pergunta "como se faz dinheiro com uma ideia" e esta parceria não é excepção. Um dos componentes do programa é a UTEN (University Technology Enterprise Network), um projecto que pretende criar condições às empresas nacionais de tecnologia para se lançarem nos EUA.

Entre os vários professores que participam na parceria com as universidades portuguesas, a opinião repete-se - Portugal tem todas as condições para seguir os passos de Austin e transformar-se num pólo de inovação tecnológica. Fórmula de David Gibson: investigação que faça a diferença, capacidade de comercialização. É esse o objectivo do IC2, uma "incubadora" de empresas, que participa na parceria. A YDreams de António Câmara foi a primeira afiliada industrial do programa, estando já instalada em Austin. A Bioalvo (biotecnologia) e a Fluidinova (engenharia de alta tecnologia) estão também a trabalhar com os norte-americanos.


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