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por JOANA DE BELÉM
De uma tese de mestrado nasceu um projecto que se transformou num 'site' e, mais tarde, também num blogue. Uma "missão social" que regista espaços sem identidade e mostra uma cidade abandonada a si própria.
O Porto "é cada vez mais uma cidade de extremos" . Por um lado, não param de nascer espaços fictícios, 'disneyficados' ["parece que todos os anos nasce um novo shopping], por outro, proliferam as casas abandonadas". "Antigamente, as pessoas saíam à rua, iam às lojas, aos cafés, agora refugiam-se dentro dos centros comerciais porque têm lá tudo", diz Vítor Tavares, um designer de 33 anos que se debruçou sobre os "cascos vazios urbanos e humanos" do Porto, os seus não lugares, que deram o mote para uma tese de mestrado, um projecto-site online interactivo e, mais tarde, um blogue (links à direita).
A fase de trabalho de campo 'oficial' decorreu entre Março de 2006 e Maio de 2007 e resultou em 1850 registos fotográficos desses mesmos não lugares (uma definição que foi buscar a Marc Augé e se refere a espaços que criam uma espécie contratualizada de solidão, não criam sociabilidade orgânica), mas ainda hoje Vítor Tavares não abandona a inestimável máquina fotográfica, com a qual vai registando o objecto do seu trabalho, a cidade, para mostrar aquilo que está para além das próprias imagens
É um projecto que "propõe uma espécie de missão social e pretende despertar a consciência das pessoas para o estado em que a cidade se encontra", explica o designer, que nas suas incontáveis deambulações urbanas foi registando um centro histórico tão rico como abandonado, que convida a (re)visitar.
O ponto-chave, o cerne do projecto, pode ser visto online (imagens/palavras), onde qualquer um pode manipular as imagens já existentes, atribuindo-lhes conceitos, ou inserir os seus próprios registos fotográficos dos imensos vazios urbanos que existem no Porto. Cada um pode olhar a cidade através da sua câmara e, no futuro, constar na grelha do projecto.
Garante que não é o seu objectivo discutir a reabilitação urbana ["há pessoas mais habilitadas do que eu para falar sobre isso"], apesar de constatar que ainda muito pouco foi feito. "Tem-se reabilitado, mas é muito pouco para o problema que a cidade sofre", diz o mentor do projecto de investigação, que procura calcorrear os mesmos caminhos para se inteirar de possíveis evoluções. "É apenas uma noção pessoal mas 80 a 90 por cento não mudaram desde que comecei o projecto em 2006", lamenta, ressalvando que não aponta apenas culpas ao município e a quem faz a gestão da reabilitação urbana mas também àqueles que fazem a vida da própria cidade. "Noto uma ausência cada vez maior das pessoas que vivem ou trabalham na cidade. Deviam interessar e envolver-se mais, mas preferem refugiar-se nos centros comerciais".
Tem notado ser "um tema que cria susceptibilidade junto de alguns organismos", mas, garante, o não lugares não tem como objectivo " dizer que a cidade está velha, que está podre, mas fazer alguma coisa por ela apontando esses mesmos problemas.
"O Porto é e sempre será a cidade do meu coração", apesar de ter nascido em Cinfães do Douro e morar actualmente na Póvoa de Varzim. Mas os 15 anos que passou na Invicta deixaram marcas: "Não preciso de viver no Porto para sentir a cidade como se fosse minha", diz, acrescentado que foram muitas as más surpresas que encontrou durante o período de captação das imagens que deram início ao projecto. Houve dias em que correu o perigo de ser assaltado e perder um dia inteiro de investigação fotográfica, houve sítios onde nem sequer entrou. Pior foi deparar-se com falsos não lugares, demonstrativos da degradação urbana e humana da cidade. "Aqui não vive gente, é impossível", pensou várias vezes antes de perceber: "De facto este não é um não lugar, há aqui gente."
A cidade, conclui, está cada vez mais sozinha e abandonada, cheia de vazios urbanos e humanos.
Tags: Portugal, Norte
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