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Entrevista D. José Saraiva Martins

"Médicos que avaliam milagres são na maioria ateus"

por Manuela Paixão, Vaticano  

O cardeal D. José Saraiva Martins falou ao DN,  na sua residência pessoal, na Via della Conciliazione, mesmo nas portas do Vaticano. Tinha acabado de tomar o pequeno-almoço e rezar  a missa diária na pequena capela  que tem em sua casa.

Como se sente nas vésperas da canonização de um santo português,  símbolo de Portugal?

Muito, mesmo muito satisfeito, porque não queria deixar a prefeitura sem que o Beato Nuno conseguisse ser santo.

Mas quando o senhor cardeal  foi nomeado prefeito da Congregação dos Santos, o processo encontrava-se há muito parado. Porquê?

De facto, quando cheguei à Congregação da Causa dos Santos, como prefeito, entre várias causas encontrava-se a do Beato Nuno. Estava parada há muito. Achei que seria um bem para a Igreja Universal retomar a causa e levá-la até à canonização, meta de todos os processos.

Mas o que causou a paragem do processo?

Houve vários motivos. Em 1940, Portugal obteve de Pio XII o início da Causa de canonização de Beato Nuno. E a 28 de Maio de 1941 foi instituída uma comissão histórica e uma vez apresentado o parecer desta comissão, o decreto de readmissão da Causa foi assinado em 4 de Julho de 1941. Mas as vicissitudes da Segunda Guerra Mundial impediram a evolução do processo. E a 20 de Dezembro de 1946, a Congregação dos Ritos concedeu ao cardeal-patriarca de Lisboa a missão de designar um vice-postulador. Por causas desconhecidas, também esta diligência não foi bem-sucedida. Além disso, em 1941, Pio XII teria dito ao embaixador de Portugal junto da Santa Sé que estava disposto a canonizar D. Nuno de Santa Maria, por decreto, isto é, sem aquela cerimónia litúrgica, solene, que se fazem para todas as canonizações.

Mas porque Pio XII teria sugerido essa forma?

A Igreja, ao longo dos  séculos, por vezes, e sobretudo nos tempos antigos, canonizou por decreto. Tem o mesmo valor do ponto de vista da canonização, só não é caracterizada por aquele cerimonial de liturgia. Mas o então embaixador não estava nada de acordo, queria uma canonização solene.
 
Como a cerimónia que vai ser realizada no sábado, na Praça de São Pedro?

Certamente. Mas o que é de facto importante é que depois de tantas peripécias, chegou finalmente o dia da canonização do Beato.

E para isso foi essencial a confirmação de um milagre.
 
Sim. O milagre consistiu na cura milagrosa de uma úlcera córnea na vista esquerda da senhora Guilhermina de Jesus.

Como foi comprovada a cura?

A cura foi meticulosa, escrupulosa e cuidadosamente examinada pelos médicos da Congregação, para ver se se tratava de um milagre. Uma praxe necessária, já que, muitas das que chegam à Congregação dos Santos, como milagrosas, nem sempre o são. Os médicos da Congregação têm de nos dizer se aquela cura específica tem alguma explicação científica à luz da ciência médica actual.

Como se determina que uma cura não tem explicação científica?

Os médicos não têm de nos dizer se foi ou não milagre, mas se não é explicável cientificamente. Aliás, os médicos que avaliam os casos de milagre são na maioria das vezes  ateus e agnósticos. À Igreja não interessa senão que eles comprovem o facto científico.

Depois de os médicos confirmarem a impossibilidade científica da cura, qual foi o passo seguinte?

Entraram em jogo os teólogos.

Como é exactamente a função dos teólogos?

O papel dos teólogos é o de ver se há um nexo causal entre a invocação ao Beato Nuno e a cura. Os teólogos concluíram que, de facto, a úlcera da córnea tinha sido curada graças a intercessão do nosso Beato Condestável. Estas conclusões foram examinadas pelos 30 cardeais e bispos, ou seja, o pequeno parlamento da Congregação dos Santos.

Esse pequeno parlamento foi presidido por si?

Sim. A competência deste "parlamento" é aprovar ou não, rectificar ou não, as conclusões dos médicos e dos teólogos. Depois de os médicos,  teólogos e cardeais concordarem  todos que a cura foi milagrosa, a 3 de Julho do ano passado, levei toda a documentação deste processo ao Papa Bento XVI, que então aprovou não só as virtudes heróicas como o milagre atribuído ao Beato Nuno, feito há cerca de 10 anos.

Foi assim que chegámos à parte conclusiva deste processo?

Sim. A Congregação dos Santos emanou o decreto "Super-Miro" sobre o milagre e "Super-Virtudibus" sobre as virtudes, e, assim, chegou à conclusão do processo de canonização. Mas o Beato Nuno fez ainda um último milagre: em apenas três meses, conseguiu que fosse feito, o que, normalmente, não se consegue fazer sequer em muitos anos. Ou seja, em Abril, os médicos estudaram cientificamente o milagre, em Maio estudaram os teólogos, em  Junho os cardeais, e a 3 de Julho foi aprovado pelo Papa.

Guilhermina de Jesus, a senhora a quem Nuno Álvares fez o milagre, vem ao Vaticano à cerimónia de canonização?

Creio que sim. Na maior parte das canonizações, se são vivas as pessoas miraculadas, estão presentes nas cerimónias.

Na história de Portugal, D. Nuno foi um grande herói militar, com ele vencemos a mais célebre das batalhas. Mas em guerras há sempre muitos mortos. Esta situação atrasou o processo?

De modo nenhum. Todos podem chegar à santidade, militares ou não.  Na história da Igreja há vários santos militares, guerreiros, o Santo Condestável não será o primeiro. É preciso distinguir: o Beato Nuno não  foi um militar santo, mas um cristão santo. Antes de qualquer batalha, ajoelhava-se sempre e pedia o auxílio da Virgem Maria.

Qual o momento na vida de Nuno Álvares que o impressionou mais?

Era nobre e um chefe militar que trouxe glória e independência a Portugal. Mas, diante de tudo isso, Nuno Álvares não quis glórias e vaidades e fez uma escolha santa: no fim da vida fez-se carmelita; pé descalço, pedia esmola para dar aos pobres, percorrendo as ruas de Lisboa. A sua vida, as suas escolhas são de enorme actualidade. Só um santo teria tanta coragem.

Tags: Portugal


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