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por JÚLIO ALMEIDA
Socióloga que trabalha com famílias ciganas aponta que a comunidade nega sempre a existência de casamentos de crianças à força. Por isso, torna-se complicado encontrar casos como o da menina de 11 anos que foi raptada para casar.
O casamento "forçado" entre ciganos "é muito difícil de detectar", diz Carla Fernandes, uma socióloga que trabalhou, durante vários anos, com famílias daquela etnia no programa de apoio social e educativo "Novas Sendas" , dinamizado pela Cáritas Diocesana de Aveiro.
No âmbito do diagnóstico, a intervenção permitiu fazer inquéritos a mais de 200 membros de 58 famílias dos nove acampamentos do concelho de Aveiro.
Era sempre negado pelos ciganos a prática de casamentos forçados. "Agora se existem, não sabemos", refere a técnica assumindo "a dificuldade" em detectar situações daquela natureza, até porque "nunca foi abordado em profundidade".
Apesar das dúvidas, Carla Fernandes considera, como "extremo" o caso de Santa Maria da Feira, em que uma menina de 11 anos foi raptada dos pais adoptivos pelo pretenso noivo e familiares deste e depois obrigada a casar-se em Montemor-o-Velho, tendo sido submetida ao teste da virgindade, um ritual cigano em que a noiva é colocada sobre um lençol e uma matriarca rasga-lhe o hímen.
As uniões de facto pela tradição cigana envolvem, regra geral, noivas "precoces", mas, habitualmente a partir dos 13 anos e não tão cedo como a criança raptada da família de acolhimentos em Santa Maria da Feira, refere a especialista.
Pelos dados que recolheu ao longo dos últimos anos, a colaboradora da Cáritas detectou, contudo, mudanças de mentalidade. "Cada comunidade tem regras diferentes, mas começa a notar-se maior abertura", diz. É o que sucede, normalmente, nas famílias que deixaram de ser nómadas há mais tempo, integrando-se na vida local e a deixarem as raparigas frequentar a escola até mais tarde. No fundo, "vão acatando regras".
O casamento cigano é uma forma de manter a reprodução e coesão do grupo, funcionamento como "mecanismo de defesa em relação a estranhos". As raparigas nem sempre são escolhidas de famílias mais distantes, com as implicações genéticas e de saúde que isso pode gerar.
À altura do "Novas Sendas", 26% da população cigana do concelho de Aveiro estava em idade escolar. O índice de envelhecimento não ultrapassava os 3,74 %. A taxa de analfabetismo rondava os 36% e 85% das crianças em idade escolar frequentam o ensino, mas o abandono é precoce, entre os 10 e 15 anos. O rendimento social de inserção era a principal fonte de receitas para 34 famílias.
Tags: Portugal
Pais não perdoam rapto por tio da menina cigana
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