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por C PATRÍCIA JESUS
Há escassez de centros especializados e falta de apoio para preparar crianças para o ensino regular, dizem profissionais da área. Associação particular está a preparar centro de formação e emprego
Mário Relvas e a mulher são obrigados a tirar sempre férias em Agosto para ficarem com o filho autista de 21 anos, porque o Centro de Actividades Ocupacionais que Bruno frequenta fecha durante esse mês. "Se quando são crianças faltam centros especializados para autistas e ATL que os aceitem, quando se tornam adultos então é que não encontramos solução nenhuma. Até temos medo de ficar doentes", diz Mário, que fica ainda mais preocupado quando fala no futuro. São estes problemas que o levam, no Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, a denunciar a falta de soluções do Governo para integrar profissionalmente e dar resposta à falta de autonomia dos autistas.
"A autonomia é extremamente difícil para os autistas, mesmo para os que estão empregados", diz Isabel Cottineli Telmo, presidente da Federação Portuguesa de Autismo (FPA). "Esse é o grande problema a que temos de dar resposta", concorda Piedade Monteiro, da Associação Portuguesa de Síndromes de Asperger, uma perturbação no espectro do autismo (ver caixa). Por isso, a associação está a preparar um centro de formação e emprego para mostrar que os doentes, "se bem integrados num contexto que eles gostam podem ser excelentes trabalhadores".
Mário Relvas, por seu lado, já se resignou com a possibilidade de o filho nunca ser autónomo e prefere aproveitar as pequenas vitórias: Bruno tinha 7 anos quando deixou de usar fraldas e durante muito tempo não falou. Por isso cada sorriso é uma vitória, explica ao DN.
No entanto, sabe que o filho vai precisar de ajuda e que os lares que existem no País estão longe de cobrir as necessidades. Nos centros da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo do Norte vivem cerca de 19 jovens, mas muitos mais estão em lista de espera. O mesmo acontece nos lares da FPA. "Às vezes um juiz manda internar a pessoa no lar sem imaginar a quantidade de pessoas que temos em lista de espera", explica Isabel Cottineli Telmo.
Mário Relvas lembra que há locais onde não existem associações e que "cabe ao Estado assegurar os direitos das pessoas diferentes". Foi isso que escreveu numa carta que enviou ao Presidente da República e ao primeiro- ministro, reclamando a necessidade de um "programa nacional integrado para o autismo: desde o diagnóstico até à velhice".
Estima-se que existam em Portugal 65 mil pessoas afectadas por alguma perturbação do espectro do Autismo (PEA), extrapolando números de estudos internacionais. Segundo um estudo nacional, uma em cada mil crianças portuguesas sofre de PEA - nem todas com o mesmo impacto.
Por outro lado, o aumento de casos diagnosticados é um facto - nos Estados Unidos chegou-se a usar a expressão surto - mas muitos especialistas acreditam que o crescimento se deve a um melhor diagnóstico e não a um aumento real. "Há uma melhor identificação dos casos de autismo, que se reflecte na diminuição de outras doenças mentais", explica o neuropediatra Nuno Lobo Antunes. "Não podemos afirmar com certezas absolutas, mas os investigadores nunca encontraram factores ambientais,. Por outro lado, existem provas que a doença tem origem genética", salienta o especialista ao DN.
Apesar do melhor diagnóstico, ainda há muitos casos por diagnosticar, sobretudo de formas mais subtis, como o Síndrome de Asperger. "Não é raro identificar uma criança e perceber que o pai também tem traços da doença", explica Nuno Lobo Antunes. "São pessoas que se adaptaram mas que sofreram bastante na infância", acrescenta. Há 21 anos, mesmo um caso de "autismo clássico" como o de Bruno, demorava a ser identificado - os pais, de Braga, correram o País e até médicos espanhóis consultaram até ter um diagnóstico.
Nuno Lobo Antunes salienta a importância do diagnóstico precoce mas ressalva que "não serve de nada identificar quando depois não há técnicos para tratar estas crianças". Apesar do autismo não ter cura, quanto mais precoce for a intervenção, melhores são os resultados, acrescenta.
É isso que Edgar Pereira, director pedagógico da APPDA de Lisboa, realça: "Há escassez de centros de recursos para dar resposta a estes jovens, há escassez de programas de intervenção para preparar os meninos para escolaridade normal e há escassez de escolas especializadas, com programas com base científica".
Tags: Portugal
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