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por Mário Bettencourt Resendes
Albert Camus considerava que "era um dos mais belos ofícios que conhecera". Mas nem por isso se eximia à queixa das "servidões" do jornalismo, das relações ambíguas com os poderosos do dinheiro e da política, da falta de tempo para "rever o pensamento". Muito antes, no século XIX, os intelectuais ingleses encaravam com enorme desconfiança o comportamento das "gazetas". E, para acrescentar um exemplo vindo do outro lado do Atlântico, reveja-se a polémica à volta da forma como os jornais de Hearst acompanharam a guerra hispano-americana em Cuba.
Serve esta introdução para enquadrar e reduzir às devidas proporções a multiplicação de profecias catastróficas sobre a qualidade do jornalismo contemporâneo, como se, subitamente, uma legião de anjos celestiais se tivesse transformado numa horda de bárbaros destruidores dos valores essenciais da civilização. Sejamos claros: o jornalismo enfrenta problemas novos, mas que reportam muito mais ao desenvolvimento das tecnologias de comunicação e a outros modelos de negócio do que a uma epidemia de violações de códigos éticos e deontológicos. Praticamente desde as suas origens, jornais e jornalistas debatem-se com decisões de fronteira sobre "matéria de interesse público", sobre "verificação de fontes", sobre a seriedade dos processos de trabalho, quase sempre em cenários de concorrência.
Traz-nos esta reflexão até ao tema da coluna, que, como não podia deixar de ser, tem a ver com publicação no DN, na edição de sexta-feira, 18 de Setembro, de uma mensagem trocada entre dois jornalistas do diário Público, em que se dá conta de um contacto estabelecido por um assessor do Presidente da República em que, a dar como boa a veracidade do texto, se pretendia aquilo que na gíria jornalística se chama "plantar uma notícia", com a particularidade de se requerer uma manobra de diversão que permitisse disfarçar a origem da fonte em causa.
Os factos são conhecidos da generalidade da opinião pública e, portanto, o provedor dispensa-se de os repetir. Recorda, ainda, que lhe cabe, entre outras funções, a defesa dos interesses legítimos dos leitores do DN e não dos do Público. Esse diário tem o seu provedor, que já se pronunciou de forma clara, inequívoca e particularmente corajosa. Estranha-se, no entanto, que nem um, entre os muitos milhares de leitores do DN, tenha sentido necessidade de interpelar o seu provedor a propósito de matéria tão sensível. Não é um sintoma estimulante por parte de uma audiência de quem se espera muito mais do que reparos sobre gralhas ou rectificações de importância secundária.
Sublinhe-se, também, que neste espaço não se faz análise política, embora esteja em causa um episódio que vai muito além da deontologia jornalística e que teve - provavelmente, terá mais... - consequências a nível das divergências entre órgãos de soberania. Nesta dialéctica multipolar, o jornalismo tem um papel a cumprir e fá-lo-á tanto melhor quanto for capaz de se conter no seu espaço de intervenção de defesa do interesse público.
Para formular um juízo sobre o comportamento do DN, o provedor dirigiu três questões ao director do jornal.
A primeira ("O DN obteve o documento publicado por meios legais?") teve uma resposta lacónica e elucidativa: "Sim."
A segunda pergunta ("O jornal contactou os visados antes da publicação?") mereceu elaboração pormenorizada: "Sim. Falámos, em primeiro lugar com o jornalista Luciano Alvarez, do Público. Como consta da nossa reportagem, ele desmentiu-nos a autenticidade do e--mail. Disse-nos que conhecia o texto em questão, porque lhe teria sido lido por um jornalista de outro jornal, e que era 'forjado'. Contactámos também o jornalista Tolentino da Nóbrega, o destinatário do e- -mail de Luciano Alvarez a 23 de Abril de 2008, que não quis fazer comentários. Tentámos chegar à fala com José Manuel Fernandes, director do Público, directamente para o seu telefone móvel. Na falta de atendimento, contactámos um dos directores adjuntos, Paulo Ferreira. Ele insistiu em que o e-mail, que viríamos a publicar, era 'forjado'. O contacto com a direcção editorial do Público aconteceu porque sabíamos que todos eles faziam parte do grupo de (pelo menos) oito pessoas do jornal (temos os nomes) que estavam na posse de toda a informação relativa ao caso. Por outro lado, fizemos sucessivas chamadas para Fernando Lima, que não atendeu nunca. Para além disso, por duas vezes falámos com o Secretariado da Presidência da República. Disseram-nos que Fernando Lima estava em reunião mas que iam transmitir-lhe a urgência do nosso contacto que explicitamente foi referido como sendo do interesse dele e sobre um assunto que o envolvia pessoalmente. Como o contacto não foi conseguido de nenhuma forma, enviámos ainda um sms igual para os seus dois números móveis que constam da nossa agenda. Esse sms informou-o claramente das linhas gerais daquilo que iríamos publicar no dia seguinte. As nossas tentativas de chegar à fala com o Gabinete de Comunicação do Presidente da República nem sequer conseguiram o atendimento de José Carlos Vieira, o outro assessor para as relações com a Imprensa."
À terceira questão ("O DN certificou-se previamente da veracidade do documento?", João Marcelino respondeu também sem poupar palavras: " Sim. Para além da 'fonte' junto da qual obtivemos os documentos, confirmámos, posteriormente, a sua autenticidade por uma outra 'fonte' que conhecia toda a documentação. Perguntámos explicitamente se confirmava todo o teor do e-mail que tanto o jornalista Luciano Alvarez como a direcção do Público diziam ter sido 'forjados'. Mostrámo-lo a essa outra 'fonte', conhecedora do processo, e que nada tinha a ver com a primeira. Ela leu-o e recebemos a garantia total de que o documento era, é, verdadeiro. Acrescento, igualmente, que o DN tem na sua posse desde esse dia vários outros documentos relativos ao mesmo processo. Também eles são elucidativos, mas não os publicámos porque nos parecem irrelevantes para a questão central da nossa notícia: a prova de que o Fernando Lima, na altura um dos principais colaboradores do Presidente da República, tomara parte activa na notícia sobre as alegadas escutas do gabinete do primeiro-ministro ao gabinete do Presidente da República - o que nos remetia para o plano das desconfianças institucionais ao mais alto nível do Estado português. Foi isso que pesou na nossa decisão de publicarmos o que publicámos,"
Vale a pena, neste ponto, tecer algumas considerações sobre críticas que vieram a público sobre o que teria sido a divulgação de "correspondência privada entre jornalistas, para mais procedendo à divulgação de uma fonte". Para o provedor, é uma crítica que não faz sentido e só se entende se se defender que os jornalistas se arrogam um estatuto de excepção que não reconhecem - e bem - a todas as outras classes profissionais cujo comportamento é seu dever escrutinar. Ao longo da história do jornalismo de investigação, quantos documentos, supostamente privados, não foram - e bem - divulgados, porque configuravam matéria de interesse público evidente? Se assim não fosse, quantos abusos de poder ou práticas indevidas não teriam ficado no desconhecimento da opinião pública?
O provedor tem, neste domínio, a opinião consolidada, mas não deixa de encontrar conforto nas teses concordantes que foram expressas, em entrevistas, pelo juiz Eurico Reis e pelo jurista José Miguel Júdice, bem como em trocas informais de impressões com nomes respeitados da área das ciências de comunicação e da deontologia jornalística. Portanto, e a concluir este capítulo, considera-se que não cabe, aqui, a invocação do artigo 5 do Código Deontológico da profissão.
Os desenvolvimentos que se seguiram no plano político, o juízo expresso pelo provedor de leitores do Público e a sequência de declarações de responsáveis daquele diário vieram dar substância e sentido de oportunidade à iniciativa do DN. Conclui-se, pois, que o jornal fez o que tinha a fazer.
A terminar, deixa-se, no entanto, uma reflexão que tem a ver com ingenuidade (um "estado de alma" agora em moda...) e com o binómio, de inspiração maurrasiana, parecer/ser em política. O provedor não é ingénuo e o director do DN também não. João Marcelino não ignora que o "furo" do DN, em pleno período eleitoral, teve consequências na campanha. Alguns leitores mais cépticos poderão interrogar-se sobre se o DN teria procedido de forma idêntica se trocássemos as cores partidárias em causa. O jornal só tem uma forma de responder a essas dúvidas: continuamos em período eleitoral - vêm aí as autárquicas - e, para mais, tudo indica que as relações entre Belém e São Bento vão ainda alimentar muitos noticiários. Será com acções concretas, muito mais do que com bonitas declarações de intenção, que o DN solidificará um posicionamento de seriedade e equidistância, persistindo num jornalismo de investigação que não privilegie "alvos".
Começou-se com Camus, acaba-se com Camus (a não perder o livro de Jean Daniel agora editado pela Temas e Debates/Círculo de Leitores: Com Camus - como aprender a resistir): "Não existe mérito particular em desencadear um 'caso': recolhem-se as iras dos poderosos, mas também o reconhecimento dos leitores; existe mérito é em continuar no momento em que se sabe que os leitores já estão cansados - é aí que se prova que se procura mais a reparação do que o sensacionalismo." C
jose magalhaes
O meu mais vivo protesto ao provedor ...
há 117 dias, 19 horas e 55 minutos
SeverinoSenior37
É lamentável que um Semanário ...
há 119 dias, 18 horas e 6 minutos
Havia uma "gravidez",na "Barriga" ...
há 119 dias, 18 horas e 22 minutos
EUZINHO
Mário Bettencourt Resendes é um ...
há 131 dias, 17 horas e 32 minutos
joao americo oliveira ramos
Alienação total ao facto concreto. ...
há 136 dias, 20 horas e 30 minutos
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BAPTISTA-BASTOS
A questão é esta: há liberdade de imprensa em Portugal? É ociosa, a pergunta, para quem, como eu, vem do tempo em que se escrevia baixinho, tão baixinho que perdêramos muitas das palavras, por mudez e...
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Notas soltas
por MÁRIO BETTENCOURT RESENDES
I.Leonel Gonçalves é, há décadas, um leitor interessado e exigente do DN. A mensagem que dirigiu ao provedor merece particular atenção: "Como jornal de referência, pelo seu prestígio e história, o DN deveria...
MÁRIO BETTENCOURT RESENDES
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