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João Miguel Tavares

Carta aberta ao primeiro-ministro José Sócrates

por João Miguel Tavares  

Excelentíssimo senhor primeiro-ministro: Sensibilizado com o que tudo indica ser mais uma triste confusão envolvendo o senhor e o seu grande amigo Armando Vara, venho desde já solidarizar-me com a sua pessoa, vítima de uma nova e terrível injustiça. Quererem agora pô-lo numa telemovela - perdoe-me o neologismo - digna do horário nobre da TVI é mais um sintoma do atraso a que chegámos e da falta de atenção das pessoas para as palavras que tão sabiamente proferiu aquando do último congresso do PS: "Em democracia, quem governa é quem o povo escolhe, e não um qualquer director de jornal ou uma qualquer estação de televisão." O senhor acabou de ser reeleito, o tal director de jornal já se foi embora, a referida estação de televisão mudou de gerência, e mesmo assim continuam a importuná-lo. Que vergonha.

Embora no momento em que escrevo estas linhas não sejam ainda claros todos os contornos das suas amigáveis conversas, parece-me desde já evidente que este caso só pode estar baseado num enorme mal-entendido, provocado pelo facto de o senhor ter a infelicidade de estar para as trapalhadas como o pólen para as abelhas - há aí uma química azarada que não se explica. Os meses passam, as legislaturas sucedem-se, os primos revezam-se e o senhor engenheiro continua a ser alvo de campanhas negras, cabalas, urdiduras e toda a espécie de maldades que podem ser orquestradas contra um primeiro-ministro. Nem um mineiro de carvão tem tanto negrume à sua volta. Depois da licenciatura na Independente, depois dos projectos de engenharia da Guarda, depois do apartamento da Rua Braamcamp, depois do processo Cova da Beira, depois do caso Freeport, eis que a "Face Oculta", essa investigação com nome de bar de alterne, tinha de vir incomodar uma pessoa tão ocupada. Jesus Cristo nas mãos dos romanos foi mais poupado do que o senhor engenheiro tem sido pela joint venture investigação criminal/comunicação social. Uma infâmia.

Mas eu não tenho a menor dúvida, senhor engenheiro, de que vossa excelência é uma pessoa tão impoluta como as águas do Tejo, tirando aquela parte onde desagua o Trancão. E não duvido por um momento que aquilo que mais deseja é o bem do País. É isso que Portugal teima em não perceber: quando uma pessoa quer o melhor para o País e está simultaneamente convencida de que ela própria é a melhor coisa que o País tem, é natural que haja um certo entusiasmo na resolução de problemas, incluindo um ou outro que possa sair fora da sua alçada. Desde quando o excesso de voluntarismo é pecado? Mas eu estou consigo, caro senhor engenheiro. E, com alguma sorte, o procurador-geral da República também. Atentamente, JMT.


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22 Comentários


Maria Almeida

13 Nov 2009, às 23:16 - Portugal - Lisboa

Como jornalista o Sr. é uma lástima. Lamento que o Sr. possa dizer o que diz no seu artigo e o meu comentário sobre o Sr. não tenha passado. É a democracia que temos.


Maria Almeida

13 Nov 2009, às 23:13 - Portugal - Lisboa

Lamento que a minha opinião sobre este sr. jornalista não tenha passado. Mas não desisto de lhe dizer que são pessoas da sua qualidade que fazem a má qualidade do jornalismo. O seu artigo é uma lástima. Deveria voltar a tirar o curso. Volto a dizer-lhe que o carácter não vem incluído no curso que tirou. Pertence a outro pacote.


Ricas

11 Nov 2009, às 17:58 - Portugal - Setúbal

Excelente, os meus parabéns por mais esta tirada. Sempre que vejo um artigo deste homem, começo-me a babar, qual iguaria gourmet. Ainda bem que ainda existe alguém capaz de dizer o que sente. Bravo!!! PS: Se lançar em livro os seus artigos dedicados ao impoluto, tem aqui comprador certo.


Ricas

11 Nov 2009, às 17:52 - Portugal - Setúbal

Excelente, os meus parabéns por mais esta tirada. Sempre que vejo um artigo deste homem, começo-me a babar, qual iguaria gourmet. Ainda bem que ainda existe alguém capaz de dizer o que sente. Bravo!!! PS: Se lançar em livro os seus artigos dedicados ao impoluto, tem aqui comprador certo.


APRNS

11 Nov 2009, às 14:09 - Portugal - Lisboa

Mas eu não tenho a menor dúvida, senhor jornalista, comentador ou o que diz ser, de que vossa excelência é intelectualmente uma pessoa tão impoluta como as águas do Tejo, tirando aquela parte onde desagua o Trancão. E não duvido por um momento que aquilo que mais deseja é o bem do País. E esta?


Analou

11 Nov 2009, às 13:09 - Portugal - Lisboa

Felizmente que ainda existe gente de qualidade que sabe analisar com lucidez, inteligência, educação e fino humor. Parabéns JMTavares


c.castanho

11 Nov 2009, às 12:53 - Portugal

JMT nós sabemos que o Sócrates o irrita até á medula.É uma paixão"negra" que o Sr JMT tem pelo Engenheiro...Mas olhe: tenha calma, não perca a racionalidade(se a tem?) e acredite em Deus...Deus salva-o desse tormento que o baralha.É uma questão de fé.Faça uma visita ao confessionário para libertar os pecados.Fáz bem....


heldertavares

11 Nov 2009, às 11:55 - Portugal - Lisboa

O Presidente do STJ já demonstrou toda a sua solidariedade.E foi rápido, não fosse o diabo tecê-las e as escutas fossem parar á comunicação social.Alguma comunicação, porque no que respeita ao DN o PM pode dormir descansado!


francisco jesus moreira goncalves

10 Nov 2009, às 23:38 - Portugal - Braga

Após leitura atenta da carta aberta ao PM, do João Miguel Tavares, homem de bem, impoluto, sem sombra de macula, prepara-se para fundar um novo partido político, tendo a seu lado, José Manuel Fernandes. O tema central da sua 1ª convenção será obviamente: - Técnicas de Lavagem de Roupa Suja. Quando os jornalistas (?) chegam aqui...


francisco jesus moreira goncalves

10 Nov 2009, às 23:24 - Portugal - Braga

O Sr. João Miguel Tavares, está para José Sócrates, como o José Manuel Fernandes. Tudo que possa escalpelizar em desabono, Zás! Sabe, o Sr. Jornalista sabe, que, esta forma de estar, em opinião, é incorrecta, mas, persiste. Jornalisticamente, concluo por burrice. Continue, as coordenadas estão OK.


LFBT

10 Nov 2009, às 23:21 - Portugal - Setúbal

Aposto que quando JMT foi notificado pelo tribunal que tinha que responder em tribunal pelas injúrias que proferiu contra o 1º Ministro, foram vários os amigos que lhe telefonaram a dar-lhe apoio. O que escreveu neste artigo constitui uma verdadeira manifestação de desprezo e insensibilidade pelo apoio e solidariedade que os seus amigos lhe prestaram naquele momento!


EUZINHO

10 Nov 2009, às 23:12 - Portugal - Lisboa

Omeu comentário foi censurado.


Numapilla

10 Nov 2009, às 21:43 - Portugal - Porto

Um conselho: Vire-se para o Cavaco que é muito melhor filão jornalístico!... Vai ver que consegue.... VC precisa é de mais calma!


Henrique Coutinho

10 Nov 2009, às 18:37 - Portugal - Lisboa

Esta fina ironia queima mais do que um ferro em brasa para marcar o gado. O Supremo Tribunal de Justiça já veio declarar nulas as conversas entre Sócrates e o Vara gravadas pela PJ. Tá bem: conversas entre nulidades têm forçosamente que ser nulas. Bem andou o Supremo ao inviabilizá-las aos investigadores. Já consta que o Papa quando chegar a Fátima vai santificar o Sócrates. O rapaz merece.


Jose Salazar

10 Nov 2009, às 17:21 - Portugal - Lisboa

A nulidade da certidão: pronto! - “aparecer” numa conversa é crime? Incriminar por aparecer é desonestidade; o jornalismo honesto noticia factos realmente ocorridos; (há assuntos que o primeiro ministro não pode conversar com os seus conhecidos?) Conclusão: a tão-só suspeita nunca conduzirá à paz! (Quantos “criminosos” suspeitaram da existência de ADMno Iraque!)


Nick Bolas

10 Nov 2009, às 17:08 - Portugal - Lisboa

Tem graça, não há dúvida. E também tem coragem.


Catia_Farias

10 Nov 2009, às 16:21 - Portugal - Porto

Independentemente do posicionamento político e social de cada um, penso que ninguém poderá negar a assinalável qualidade, coragem e estilo do texto que aqui se apresenta.


Great Gatsby

10 Nov 2009, às 15:38 - Portugal

(cont.) por ter confundido velocidade com precipitação? Ou a lançar suspeitas sobre a isenção do presidente do supremo?


Great Gatsby

10 Nov 2009, às 15:36 - Portugal

Vê? Após o meu primeiro comentário saíu a noticia de que o presidente do supremo tribunal de justiça declarou as escutas ilegais (por não terem sido autorizadas por si) e, além disso, considerou que elas "não têem relevância criminal". Ou seja, entendeu que nas escutas não há indícios de qualquer crime. Que vai fazer agora? Escrever um artigo a pedir desculpas (cont.)


Great Gatsby

10 Nov 2009, às 12:57 - Portugal

Um pouco prematuro, não? O que é que se sabe das escutas? Que Sócrates falou com Vara. É tudo. Chega para suspeitar de envolvimento? Não chega. E se não chega, porquê falar do assunto como se chegasse? Não teria sido mais razoável esperar até que se soubesse um mínimo sobre o conteúdo da conversa? Ou a presunção de inocência não tem nenhuma importância?


vguerra

10 Nov 2009, às 11:14 - Portugal - Lisboa

Concordo.Até o DN duvida,caramba...?


JCSC

10 Nov 2009, às 09:38 - Portugal - Lisboa

Magnífico.



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