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Baptista Bastos

Episódios da miséria humana

por Baptista Bastos  

Que sentido é este, para onde a História nos encaminha? Por todo o lado a corrupção alastra e substituiu-se aos ideais antigos e exaltantes de resolução das desigualdades, da exploração do homem pelo homem, da oposição entre o Norte e o Sul. Homens que respeitávamos pela lisura das suas vidas e pelo carácter exemplar das suas escolhas são, agora, acusados de suborno, fraude, perversão, e apontados à execração popular, por moralmente culpados de cupidez. A cupidez conduz a tudo, inclusive ao desprezo pelas regras sociais e pelas leis que as estruturam.

A "rede tentacular" descoberta, nestes dias, pela polícia, segue-se a outros escândalos tornados públicos e que o espectáculo mediático propende a simplificar, sem tentar analisar a raiz do mal. A nossa mórbida curiosidade exulta. Quando a Inquisição levava em fila os supliciados da intolerância, o povoléu, excitadíssimo, amontoava-se na Ribeira para assistir à queima. Como no século XVII, não conseguimos conciliar o respeito que nos devemos com a ideia de justiça que favorece a marca de uma identidade.

Somos, novamente, espectadores. Estamos, outra vez, regozijados com a miséria humana. Queremos sangue. Julgamos sem avaliar, acusamos sem saber, condenamos por inveja, por ódio, por oco ressentimento. Não nos envolvemos, o modo mais deplorável de recusa da cidadania. Mas apontamos, insinuamos, sugerimos, nomeamos. Situamo-nos no espaço público, mas sobrenadamos na sombra da infâmia e no aconchego da irresponsabilidade.

Haverá esperança numa sociedade em que tudo parece redundar em indiferença e conivências larvares? O Estado ausentou-se das suas funções fiscalizadoras. O Governo, mesmo perante a repetição destes enunciados, cumpliciou-se (pelos vistos) com os grandes interesses ligados à corrupção, ao suborno e à venalidade. O caso de João Cravinho é significativo. Propõe um projecto contra os corruptos e, numa compensação inquieta, é mandado para Londres, com um ordenado de luxo. Agora, nesta "Face Oculta", a porta não foi segura pela pessoa que ia à frente: só assim se justifica o facto de a imprensa ter sabido das investigações no tempo em que as devia saber.

As coisas irão ficar pela superfície? Na esfera pública, a dimensão a que as questões chegaram e o envolvimento, no esquema, de "gestores", políticos, advogados são de tal maneira graves que se torna difícil encobri-los ou dissimulá-los. A separação de poderes é um dos embustes sob os quais vivemos: tudo ocorre através de canais de informação, e os compromissos assumidos obedecem a pagamentos de favores. A "rede tentacular" não dispõe, somente, de um sucateiro do Norte. Foi apanhado. Mas há outros. Talvez os portugueses tenham um sobressalto de protesto e de indignação. Talvez.


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8 Comentários


Ermenio

11 Nov 2009, às 08:19 - Portugal - Coimbra

Talvez que o trabalhinho na junta falado faz muito tempo nunca lhe calhou, foi antes para o humberto...


joao americo oliveira ramos

04 Nov 2009, às 15:47 - Brazil

A pergunta básica do,"Haverá esperança....", tem resposta otimista. Haverá sim, desde que cada um de nós procure encontrar os erros em nós mesmos. Basta de chamar os políticos de eles e apontá-los como os responsáveis por tudo. Sejamos humildes e reconheçamos que eles têm a nossa cara. Se nos modificarmos tudo acontecerá naturalmente. Nos é que os escolhemos.


Henrique Coutinho

04 Nov 2009, às 14:59 - Portugal - Lisboa

Não se iludam. Vai ficar tudo na mesma. Para esta gente (polhíticos, famosos, banqueiros, etc) os tribunais só conhecem duas sentenças: prescrição ou pena suspensa. Nunca ninguém é punido. Um país que anda à vara larga ou desvairado só gera uma classe política completamente desprestigiada e desprezada pelo povo votante. Esta tropa fandanga só conhece um verbo: encher-se. O mais possível.


halmeida

04 Nov 2009, às 10:36 - Portugal - Aveiro

Isto é a podridão a que se chegou no mundo. Quando a moral deixou de existir, quando se deixou de respeitar os mais velhos, crianças e as mulheres quiseram ser superiores aos homens, quando os zés-ninguém, se tornaram políticos e quiseram enriquecer a qualquer preço, eis onde chegámos e não ficará por aqui. pois antigamente neste cantinho havia 3 efes, mas agora mais "efes". E mais não digo.


humbert

04 Nov 2009, às 08:39 - Portugal

Baptista Bastos adversário de ideias politicas o mundo não está só como diz tem descobertas extraordiárias não está mal como diz mas coisas que não se querem existem e existirão sempre. Espera-se que o povo não tenha nenhum sobresalto imagine o povoléu da Ribeira com um sobresalto.


vguerra

04 Nov 2009, às 08:30 - Portugal - Lisboa

Um partido de poder, enferrujado ,aliciado,por um quaquer labrego.Um país assucatado.Terá compradorr?..


vguerra

04 Nov 2009, às 08:28 - Portugal - Lisboa

Um partido enferrujado ,no poder,aliciado por um qualquer labrego.Um país assucatado .Terá comprador?..


CarlosMMRodrigues

04 Nov 2009, às 03:03 - Portugal - Setúbal

Quem passa ou se liga ao poder sabe muitas "coisas" e usa esse "conhecimento" não para denunciar "esquemas" mas para servir de "moeda de troca" para obter favores, influenciar decisões. Mas às vezes, há quem não se livre de inevitáveis "operações de limpeza" e seja bode expiatório. A "face oculta" revela-se um pouco, mas tudo volta ao seu refúgio secreto, silencioso e escuro de cumplicidades.


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