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por João Miguel Tavares
E cá vamos nós outra vez. Uma dúzia de arguidos. Uma investigação que atinge o coração do sistema político e económico. As notícias a pingarem nos jornais em cadência pré-estabelecida. Um processo já com oito mil páginas. O cuidado posto pelos investigadores no timing da acção (pós-eleições, pós-tomada de posse), revelador do equilíbrio cada vez mais frágil entre o poder executivo e judicial. Os envolvidos a garantirem a confiança na justiça enquanto vão desmentindo o que a justiça apurou até ao momento. Políticos importantes a explicarem que não comentam casos judiciais. Um caso judicial que dia-a-dia se aproxima de políticos cada vez mais importantes. A alternância na trafulhice: um megacaso envolvendo gente do PSD para ti, um megacaso envolvendo gente do PS para mim. O país atravessado pela velha sensação do "eles são todos iguais". A evidência dos milhares de negócios feitos à sombra do Estado onde a corrupção campeia.
Pode dizer-se que nada disto é novo. Que já vimos tudo isto muitas vezes. Que esta Face Oculta é apenas mais uma das mil faces de um Portugal centralizador e, por isso, estruturalmente corrupto. Mas, na verdade, há aqui alguma coisa de novo: a dimensão. Não a dimensão no sentido "vejam tantos milhões e tantas pessoas importantes envolvidas". Isso é o caso BPN. Aqui a dimensão é outra, e é essa outra dimensão que espanta: a forma como uma sucateira de Ovar consegue alegadamente corromper quadros de topo das maiores empresas nacionais. Um pequeno selfmade man com muitas notas e capacidade para oferecer Mercedes topo de gama chega à EDP, à Galp, à Refer, à REN, à PT, com a maior das facilidades influenciando concursos a seu favor. Um chico-esperto com os bolsos cheios consegue enfiar no bolso dezenas de pessoas poderosas. Mais do que isso: tem a pretensão de poder afastar presidentes de empresas estatais que lhe dificultam a marosca. Eu já vi coisas destas, sim. Mas era um episódio de Os Sopranos.
Esta facilidade com que um muito pequeno influencia os muito grandes é a coisa que mais se aproxima em Portugal de um procedimento mafioso. Mas não há corpos atirados para o rio: à boa maneira lusitana, é uma cosa nostrinha. Portugal é um país livre da mmfia porque não é preciso ameaçar ninguém com uma pistola. Basta abanar com um maço de notas. Um Mercedes com jantes de liga leve? Ó meu amigo, leve lá a sucata para casa. Dez mil euros? Está bem, eu faço dois ou três telefonemas. Golpes de colarinho banco com os quais se compram ilhas em paraísos tropicais eu ainda posso perceber. Mas esta corrupção dos pobrezinhos nas maiores empresas portuguesas é verdadeiramente deprimente. Até a roubar temos de ser rascas?
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11 Comentários
10 Nov 2009, às 11:17 - Portugal - Setúbal
Portugal está podre da raíz à copa. A classe política é corrupta e ninguém pode negá-lo. O mais preocupante é que a sociedade portuguesa vive da corrupção, mesmo nas coisas mais pequenas. Desde o pequeno negócio com o vizinho lá na aldeia, passando pelas obras em casa que precisam de aprovação camarária, até às empresas (das micro às mega). Os portugueses têm e querem ter as mãos untadas.
06 Nov 2009, às 12:55 - Portugal - Lisboa
Os que detêm o poder e os que corrompem, são da mesma qualidade que se vem destacando na sociedade portuguesa ao longo destes trinta e tal anos de democracia, concordo consigo"até a roubar somos rascas". O nivel do poder baixou, gente gananciosa, sem principios sem cultura, é o val tudo, e as excepções afastaram-se, estão no ensino, no estangeiro, ou em empresas privadas, o resto é...sucata!
04 Nov 2009, às 19:34 - Portugal - Lisboa
Esta nova classe, a dos "chicos espertos", saltou para ribalta com o 25 e Abril. Democratizou-se a falcatrua e a impunidade e, como isto é uma terra de cegos, quem tem olho é rei. Como já sabemos o resultado que vai dar (nenhum!), é melhor começarmos já a rir (para não chorar).
03 Nov 2009, às 18:10 - Portugal - Lisboa
Não nos iludamos. Não vai dar em nada. Porque o Código Penal na versão PS só tem duas sentenças. Para o pobre que roubar um tostão: cadeia, pois então. Para os políticos da cor e os espertalhões da confraria: pena suspensa ou prescrição. Não temos nem Mafia nem Cosa Nostra. Apenas um Manel Gordinho que foi engordando com umas vigaricezitas conseguidas olimpicamente com alguns saltos à vara.
03 Nov 2009, às 15:53 - Portugal
Havia, até há poucos dias, uma comentadora com o nome de Maria Conceição Brasil que escrevia dos Açores a defender a candidatura da Manuela Ferreira Leite; agora surgiu outra comentadora, com o mesmo nome, mas que considera o PSD "gentalha corrupta, incompetente e malandra". Que casualidade: duas pessoas com o mesmo nome e com opiniões tão diferentes!!!!
LFBT
03 Nov 2009, às 15:16 - Portugal - Setúbal
É uma tristeza assistir no nosso país, sistematicamente, a este espectáculo degradante de jornalistas comentarem na praça pública processos que deveriam estar em completo segredo de justiça para bem das investigações! Depois não apenas comentam mas avançam com suposiçóes, enunciam factos não provados, incriminam pessoas, insinuam-se com um sentido ético mais apurado que os outros!
Catia_Farias
03 Nov 2009, às 13:54 - Portugal - Porto
Bem... cada um fala por si! Quanto à corrupção não é preciso cismar muito para se ter consciência que se trata de um fenómeno demasiado complexo para se colocar de forma aceitável em meia dúzia de interjeições mais ou menos idiossincráticas como despudoramente faz o articulista. O efeito prático é, na melhor das hipóteses, a distorção da realidade social em causa...
Maria Conceicao Brasil
03 Nov 2009, às 11:50 - Portugal
Tem toda a razão, João Miguel. Quando será que nos conseguimos livrar desta gentalha corrupta, incompetente e malandra? Primeiro eram os PSDs. Agora são os PSs...e nunca mais acaba? Já chamo pelo Medina Carreira e pelo Hernâni Lopes para formarem um governo a dois de SALVAÇÃO NACIONAL.
Bruder
03 Nov 2009, às 09:40 - Portugal - Leiria
Rapazinho, você tomou o gosto dos textos a rasar ! :) Parabéns !
03 Nov 2009, às 09:03 - Portugal
(cont.) de voto; quando o sistema eleitoral defender a representatividade minoritária; quando o ensino fôr estritamente laico; quando fôr aprovada legislação eficaz contra a corrupção; quando a opus dei deixar de colocar os alunos da universidade católica nas administrações dos bancos; quando se escreverem mais "Cains". "A culpa, meu caro Brutus, não é das estrelas, é nossa" (Shakespeare).
03 Nov 2009, às 08:56 - Portugal
Como é que isto muda? Quando as faculdades de Direito investigarem a sério e elaborarem estudos que permitam soluções legislativas que tornem os processos rápidos em vez de se limitarem a traduzir códigos alemães; quando a magistratura fôr seleccionada e recompensada de acordo com o mérito; quando os deputados deixarem de assinar uma renúncia antecipada ao mandato para evitar a desobedência (cont.
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