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João César das Neves

A busca de Descartes

por João César das Neves  

Dedicar-me apenas à busca da verdade" (Discurso do Método, parte 4). Esta é a tarefa mais sublime do universo. Que há de maior, mais be-lo e necessário que a busca da verdade?

O caminho do grande Descartes é duro, mas claro: "Rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida (...). Porque os nossos sentidos nos enganam às vezes, quis supor que não existia nada que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, por haver homens que se desviam ao raciocinar, mesmo nas mais simples noções de geometria, e cometem paralogismos, rejeitei como falsas todas as razões que tomara antes por demonstrações. E, enfim, considerando que quaisquer pensamentos que nos ocorrem quando estamos acordados nos podem também ocorrer enquanto dormimos, sem que nesse caso exista algum que seja verdadeiro, decidi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras do que as ilusões de meus sonhos" (ibidem). Esta é a célebre dúvida metódica.

A conclusão ficou famosa: "Mas logo depois percebi que, enquanto queria assim pensar que tudo era falso, era necessário que eu, que assim pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: penso, logo existo, era tão sólida e tão segura que as mais extravagantes suposições dos cépticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei poder tomá-la, sem escrúpulo, como primeiro princípio da filosofia que procurava" (ib.).

A busca é boa mas não o resultado. Se Descartes recusou todos os pensamentos, porque aceitou este último? Se duvida de todas as coisas, também duvidaria de si, do raciocínio e até das palavras em que o exprimia. O esforço de negar de tudo ou é impossível ou conduz ao vazio.

Embora o método do discurso seja deficiente, o fim é meritório. Só começo a viver depois de encontrar o sentido da vida, a verdade primordial, "a afirmação tão sólida e tão segura que a tome sem escrúpulo como primeiro princípio". Em que verdade baseio a minha vida? Qual o princípio do que sou? Esta é a única busca que vale a pena.

Uma resposta pareceu-me tão evidente como ao filósofo: "Deus ama-me, logo existo." Esta é muito mais realista que a meditação do francês. Afinal, desde que me conheço me sei dependente. Dependi dos pais para nascer e dos próximos para crescer. Dependo do sol para a comida e energia e da sociedade para mas trazerem. Quando mais avanço, mais claro é que dependo a cada instante de um Amor maior que eu. A única coisa de que não dependo é do que eu penso. Pensar que só existo porque penso é arrogância ingénua. O inverso é verdade: existo, logo penso. E só existo porque Alguém me amou e me ama.

Esta é a única verdade que me torna livre. Se a minha existência depende do meu pensamento, fico preso no labirinto da subjectividade. Como o mundo perdido de hoje. Se a minha vida brota do Amor sublime e omnipotente, "tudo concorre para o bem dos que amam a Deus" (Rm 8, 28).

Alguns dizem que este axioma é rejeitado pela existência do mal. Como pode Deus amar--me se há tanta dor e injustiça na minha vida? Quem pergunta isso não entende a lógica de um axioma. Um facto real não nega um postulado, porque tal facto só ganha sentido a partir dele. Também Descartes não duvidou do seu princípio só porque nem sempre conseguia pensar. A pergunta que faz sentido é: dado que Deus me ama, o que significa este sofrimento? É o amor de Deus que dá sentido a tudo. Até ao mal. Como explicou S. Agostinho, "o Deus sumamente bom, de nenhum modo permitiria existir algum mal nas suas obras, se não fosse tão omnipotente e bom para até do mal tirar o bem" (Enchiridion xi).

Só esta verdade me torna livre até do mal, dor e pecado. Se a minha existência depende do Amor supremo, vivo mergulhado na mais pura misericórdia. Ninguém compreende melhor o sofrimento da minha dor e a fraqueza do meu mal que o Amor que me trouxe à vida. Assim, a minha existência ganha sentido e até a cruz se torna salvadora. A minha história é: Deus existe, eu sou pecador, mas Cristo ressuscitou.


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9 Comentários


Utente

04 Nov 2009, às 00:42 - Portugal

(cont) Chesterton advertia, com razão, que muitos pretendem meter o céu na cabeça em vez de meterem a cabeça no céu, de modo que a cabeça acaba por rebentar.


Utente

04 Nov 2009, às 00:40 - Portugal

"crianças morrem". Não se percebe se daí tira a conclusão de que não há Deus, ou se quer significar que Deus não é bom. De qualquer maneira: - Que alguém não seja bom não é razão para que inexista, evidentemente; e, se Deus existe, é aburdo sobrepôr aos d´Êle o nosso critério."Deixai vir a mim os pequeninos,porque é deles o Reino de Deus", Conhece certamente o passo. (cont)


pedro.f.antunes

03 Nov 2009, às 15:43 - Portugal

Hmm, mas falou c/ Deus? E ele disse isso? E ama-o como? Ama-o como católico? E ama os outros? Como é que essa resposta é evidente? Evidências são incontestáveis e Deus é claramente contestável! Tudo se pode explicar sem recorrer a unicórnios e fadas! A minha história é: Deus não existe, pecar é cultural, como Cristo houve muitos.


vitor fortes

02 Nov 2009, às 17:09 - Portugal - Lisboa

Deus ama-me... deve ser por isso que deixa 100 mil crianças por dia morrer, mas ama-te a ti e à tua demagogia... o maior problema deste tipo de fé, é que nos transforma em máquinas. "deve existir algum motivo" para tantas crianças morrerem enquanto os nossos dirigentes se enchem de titulos e honrarias e dinheiro, enquanto nós aplaudimos e compreendemos...


vitor fortes

02 Nov 2009, às 17:07 - Portugal - Lisboa

Deus ama-me... aiai presunção e água benta cada um toma a que quer. Leia "A idade da Razão" de Thomas Paine. Thomas Paine não queria vender livros, apenas trazer um pouco de luz à estupidez da generalidade do povo do seu séc. 200 anos depois o seu livro faz cada vez mais sentido, num mundo onde "a procura da verdade" é vendida ao marketing da fé (o seu caso) ou da venda de livros (Saramago).


Great Gatsby

02 Nov 2009, às 15:09 - Portugal

Um artigo onde se prova que a lógica é mesmo uma batata!


andre rafael correia

02 Nov 2009, às 14:20 - Portugal - Évora

Julgo que não há outros deuses. O que há são homens diferentes a segurerm caminhos diveros no fim dos quais julgam estar o Deus deles.Seja o caminhante judeu ou islamita, indu ou budista. Por mais que tente pensar lógicamente só encontro uma resposta: Deus existe, mas não sei "quem é". Só pode ser um e uno, as conclusões e os nomes é que são diferentes. E talvez nem tanto. André Correia


N Marques

02 Nov 2009, às 10:01 - Portugal - Leiria

Desta vez, o sr. prof. equivocou-se, não fazendo justiça ao pensador francês: interrompe o percurso da dúvida metódica onde, precisamente, Descartes achou que ela não poderia parar. De facto, o que o impede, então, o mesmo de duvidar da evidência do "penso logo existo"? É a dúvida hiperbólica e matafísica apenas resolvida pela prova da existência de um Deus perfeito, portanto, veraz.


Henrique Coutinho

02 Nov 2009, às 08:27 - Portugal - Lisboa

Homens inteligentíssimos, como este autor, tentam provar que Deus existe. Outros homens tão inteligentes que este Prof tentam provar que Deus não existe. De certeza, para o homem comum, só existe a morte. E a necessidade de ter trabalho, comida na mesa, casa para morar. Gosto muito dos artigos deste Prof. Mas mais gostaria se não descambasse para o proselitismo católico. Há outros Deuses.



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