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Alberto Gonçalves
Segunda-feira, 26 de Outubro

Os casamenteiros

por Alberto Gonçalves  

Numa altura em que o défice orçamental dispara, o endividamento público e privado progride com segurança, as falências sucedem-se, o desemprego continua a crescer, os beneficiários do rendimento mínimo se aproximam dos 400 mil e a crise, a caseira e a nossa, não promete sumir, o que faz o Governo? O indispensável: declara a aprovação do casamento entre homossexuais uma prioridade urgentíssima.

Estranhamente, nem toda a gente concorda. Certas associações ligadas à família, "família" em sentido abstracto, presumo, não se conformam com a possibilidade e tencionam levá-la a referendo. Do lado oposto (as matérias "fracturantes" são justamente as que têm dois lados, ambos aos saltos e aos gritinhos), a esquerda quer seguir a via parlamentar e recusar a referendária. O argumento da "família" é o de que isto é uma pouca-vergonha. O da esquerda é o de que não se submetem os direitos das pessoas a referendo.

Dito assim, não há dúvidas sobre qual dos argumentos soa melhor. Seria absurdo que alguém pudesse condicionar a "felicidade" de sujeitos "que se amam" e aspiram a consagrar esse "amor" na instituição matrimonial. Além de absurdo, é também uma maçada recorrente no mundo real. Ainda que os direitos dos cidadãos sejam estabelecidos pela lei, a lei não anda, ou não deveria andar, longe de um relativo "consenso" acerca do seu objecto. É por isso que, independentemente dos respectivos sexos, três (ou quatro, ou quinze) criaturas adultas e livres não conseguem casar mutuamente: porque a sociedade condena a poligamia e a lei determina em conformidade. A censura social, ou os "costumes", fundamenta igualmente a interdição penal do incesto, bem como obsta à pedofilia, aos pactos de suicídio e a inúmeras actividades que inúmeros indivíduos apreciam exercer e, por culpa de terceiros, legalmente não podem.

Sei que as comparações não são inéditas e que os activistas gay se indignam imenso com elas. De acordo com o cliché, não é sério equiparar a homossexualidade ao incesto. Pergunto: porquê? No máximo, compete-me jurar que convivo bem com a existência da primeira prática e mal com a existência da segunda. Mas trata-se apenas da minha opinião, que não vale mais nem menos do que a opinião do próximo. Acima de tudo, nenhuma das opiniões tem qualquer legitimação "científica" ou racional: a regra que sobra e conta, por incómodo que pareça, é a da quantidade.

Goste-se ou não, a felicidade das pessoas encontra-se permanentemente condicionada por juízos alheios. E mesmo quando a lei avança à frente da maioria desses juízos, o que de facto aconteceu em determinados lugares e em determinados episódios das conquistas cívicas, convém observar duas ligeiras condições: é preciso que a conquista em questão valha o confronto e é recomendável que o confronto (ou, no jargão actual, a "fractura") não seja demasiado profundo. Por acaso, duvido que um mero papel a decretar o matrimónio de dois homossexuais represente um grande avanço civilizacional. Em compensação, não me parece que, hoje, a generalidade dos portugueses se escandalizasse com o papel, embora o medo que o referendo inspira aos simpatizantes da "causa" sugira o contrário. Eles lá sabem, e não é muito democrático serem só eles a saber.

Quarta-feira,  28 de Outubro

Menores e vacinados

Por não perceber do assunto, não entro na polémica sobre os perigos da vacina da gripe A administrada em Portugal e que os EUA ou parcialmente a Suíça, por exemplo, rejeitaram. Porque me apetece, entro na polémica sobre os "grupos prioritários" a usufruírem da vacina, que em Portugal incluem os políticos e nos EUA e no Reino Unido, por exemplo, não.

A decisão coube ao Governo e, segundo li, visa "impedir o colapso do funcionamento da sociedade em caso de pandemia". Em teoria, concordo que, na medida em que foram eleitos e representam a população, o Presidente da República, o primeiro-ministro e os 334 deputados nacionais e regionais mereçam a prioridade na vacina, embora discorde que os ministros, que ninguém elegeu para coisa nenhuma, partilhem o benefício.

O problema é a prática. Até que ponto a incapacidade temporária de vinte, cinquenta ou setenta por cento do Parlamento e do Governo se sentiria cá fora? Na pior das hipóteses, não se notaria a diferença. Na melhor, daríamos por um alívio na produção de disparates materialmente destinados a extorquir o nosso dinheiro e espiritualmente destinados a infernizar a nossa existência. Nenhuma das possibilidades augura catástrofes. Aliás, será por isso que aqui se valoriza tanto a "estabilidade", para que o seu reverso nunca se imponha e nunca revele uma trivialidade familiar a países prósperos (como a Bélgica ou a Itália) e por nós desconhecida: a governação é relativamente dispensável. A classe política receia faltar-nos porque não quer que constatemos a pouca falta que nos faz. Donde a necessidade de insistir no pressuposto de que eles, os políticos, são a única alternativa ao caos.

Por acaso, se o Infarmed estiver errado e as autoridades americanas correctas, teremos uma excelente oportunidade para testar o dito caos. E, eventualmente, descobrir que é um sossego.

Quinta-feira,  29 de Outubro

Por Toutatis e por mais alguma coisa

As minhas personagens preferidas de "Astérix" são os piratas que costumam afundar o próprio barco na presunção, frequentemente errada, de que os gauleses o afundariam de qualquer maneira. Esses saqueadores falhados aparecem em apenas algumas histórias e sempre brevemente, mas a sua recorrência e o seu pessimismo constituem uma amostra justa do génio cómico de René Goscinny.

Goscinny, francês filho de judeus polacos, criou "Astérix" há cinquenta anos e morreu há trinta e dois, deixando para trás os álbuns que valem a pena e para a frente, através do colaborador Uderzo, os que não valem. A partir do legado do parceiro, Uderzo desenvolveu uma marca comercial. A partir da "Guerra das Gálias" e da observação prosaica dos seus compatriotas, Goscinny inventou, desculpem a palavra, um "imaginário" intemporal, patético aqui, redentor ali e, sobretudo, dotado de uma capacidade única para converter almas distantes do seu meio de expressão: "Astérix" é a banda desenhada para quem não gosta de banda desenhada. Acontece comigo e, ao que vi e vejo, acontece com muitos, adultos letrados que guardam religiosamente cada livrinho da série e passam ao lado da infantilidade de Walt Disney e da presunção oca de Hugo Pratt ou das graphic novels. Goscinny não era um empresário astuto nem um artista frustrado: era, nas suas orgulhosas palavras, um humorista, ofício afinal raro na forma criativa que escolheu e na qual, talvez por isso, foi dos pouquíssimos grandes.

Sexta-feira, 30 de Outubro

Ferro-velho

Os cépticos da ingerência estatal deviam pôr os olhinhos no "caso" da sucata, que envolve, entre diversas sumidades, Armando Vara, a fascinante família Penedos e outro sucateiro menos célebre. O elo comum ao arranjo? As empresas relativamente públicas, as quais não só fomentam emprego como permitem que, mediante as "lembranças" da praxe, se ganhe algum por fora.

O engraçado é que quando uma crise financeira destapa os desonestos que se movem no sistema financeiro, não faltam profetas a decretar o colapso do capitalismo. Já quando se revelam os cidadãos pouco sérios que cirandam na órbita (ou no interior) do poder político, ninguém reclama a queda de um sistema intervencionista que tudo vigia e tutela, com a agravante de que a aposta na banca é voluntária e o "investimento" no Estado compulsivo.

No máximo, levanta-se (desta vez, curiosamente sem grande empenho) a habitual meia dúzia de vozes contra o "bloco central de interesses", na convicção de que as clientelas do PS e do PSD é que desvirtuam a natureza essencialmente benigna do Estado. Porém, se não estou em erro, sucede o inverso: preferências ideológicas à parte, mexer em dinheiro alheio e fácil termina fatalmente nas "influências" que aqui, sob uma economia seminacionalizada e paternal que partido nenhum e raros empresários contestam, se ergueu a modo de vida.

Podíamos viver sem um Estado extenso e a corrupção inerente? Podíamos, mas não era a mesma coisa. E a aparição da senhora procuradora Cândida Almeida, que logo irrompeu pela imprensa a debitar palpites acerca da "Operação Face Oculta", é quase uma garantia de que, dissipado o ruído indignado do costume, a coisa continuará a ser a mesma.


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