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por João Marcelino
1 Uma parte da elite portuguesa tem tudo a ver com o lixo de Ovar. Viciou-se no negócio. Não consegue conceber a vida para além do dinheiro e do poder, do conforto mais hedonista e da traficância de influência. Não se lhe fale em felicidade, em cidadania ou em projectos sociais, esses conceitos desnecessários, infantis, próprios de quem não sabe nada da vida. Conversa inútil!
O importante é discutir o negócio, criar uma rede de amigos, ter os números de telefones certos. Em certos círculos, Portugal é uma pequena sociedade muito podre, consequência má de uma coisa boa: a integração europeia que nos inundou de subsídios, de auto-estradas, de cursos de formação, de rotundas, de abates nas pescas e na agricultura, de explorações virtuais e muita construção de primeiríssima qualidade. O caldo ideal para se desenvolver algo de intrínseco às pessoas que habitam a Europa do Sul: a tendência para a corrupção. É assim em Itália, na Grécia, também em Espanha, como se vê. Porque é que deveríamos, ingenuamente, esperar que Portugal fosse diferente?
2 Não falo de casos concretos, mas faço uma viagem no tempo. Há dez anos, a justiça portuguesa, saloia e reverencial, made in Estado Novo, ainda não investigava os ricos e poderosos.
Algo começou a mudar com o chamado "processo Casa Pia" e o aparecimento de uma nova geração de juízes e procuradores.
A partir daí, apesar das fragilidades, as elites passaram a ser incomodadas com regularidade. Os casos Portucale, submarinos, "Operação Furacão", CTT, Freeport, "Apito Dourado", os processos ligados ao poder local, BCP, BPN e BPP e agora a "Face Oculta", que inaugura a visita às empresas do sector Estado, mudaram o panorama de forma radical. Provavelmente, quem saiba ler os sinais do tempo, será até tentado a acreditar que muitas outras surpresas irão aparecer nos próximos meses, talvez mais fortes do que aquelas que nos foram servidas nos últimos dias.
A questão está em que muitas destas investigações, por motivos vários, produziram resultados escassos. Ou seja, um bom princípio (tratar todos os cidadãos por igual) nem sempre é tudo.
3 De uma justiça com medo passámos a uma justiça que, a muitos cidadãos, parece agora ter agenda.
Não tenho a certeza disso, e até gostava de estar enganado, mas há muitas coincidências. Por exemplo, os submarinos emergiram logo a seguir às últimas eleições. A "Face Oculta" também pareceu respeitar o calendário eleitoral. Mas a verdade - reconheço - é que diríamos o mesmo (sobre a agenda), ou até pior, se qualquer desses casos tivesse vindo conspurcar o período em que, de voto na mão, ciclicamente somos tentados a acreditar que Portugal vai ficar melhor.
Sou, portanto, modesto nas aspirações. Gostava de ter a certeza de que não há um PS-PSD dentro da PJ e do Ministério Público. Que a Maçonaria não arbitra. Que outros lobbies não fiscalizam. Que investigadores e procuradores não aspiram apenas ao simples protagonismo à custa do bom-nome de alguns cidadãos. Que a justiça não pensa, corporativamente, em devolver ao poder político pretensas afrontas.
Se não for esse o caso, se apenas se estiver a construir uma verdadeira democracia, um verdadeiro Estado de direito, com profissionalismo e devoção à causa pública, por uma sociedade mais justa e menos corrupta, então que se avance com todos os processos. E que estes, sem sombra de prepotência, com respeito pelos direitos individuais e pelo bom-- nome dos envolvidos, se tornem mais rápidos, os factos sejam provados e as sentenças, enfim, passem a ser exem- plares. Portugal está a precisar disto, porque estas coisas que vamos sabendo, a conta-gotas, metem nojo e dão-nos a ideia de que vivemos numa lixeira demasiado pestilenta.
Mais do mesmo no PSD. De um lado continua Pedro Passos Coelho. Do outro, as tropas de Manuela Ferreira Leite querem agora manter-se no poder com Marcelo Rebelo de Sousa. O elitista eixo Lisboa-Porto quer evitar a todo o custo o regresso do "populismo" (já interpretado por Santana Lopes). As duas metades da laranja definitivamente não colam - nem que Cristo descesse à Terra...
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