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Fernanda Câncio

Saramago levado à letra

por Fernanda Câncio  

H oje é lançado, em Lisboa, o livro Caim. É o que diz o convite, aliás bonito, que a Caminho enviou aos media. "A sessão terá presença do autor e a entrada é livre", esclarece. Bom, confesso que julgava que o livro já tinha sido mais que lançado, tanto que tenho ouvido falar dele. Apesar da tomada de posse de um novo Governo, do início da vacinação da gripe A e daquelas coisas todas (desemprego, dívida externa, crise económica, défice) que são sempre alegadas como os únicos assuntos aceitáveis quando alguém fala por exemplo de casamento das pessoas do mesmo sexo - embora, por acaso, sejam exactamente os que passam a vida a dizer que esse assunto não devia "consumir energias" aqueles que mais energia gastam, da deles e da dos outros, a clamar contra ele -, Saramago parece ter sido o grande tema da última semana e meia.

Chego, pois, atrasada à discussão e sem grande vontade de me meter nela. Porque é recorrente, porque é repetida (já tinha sucedido até com Saramago) e porque é desinteressante. Saramago leu a Bíblia ou partes dela e caracterizou-a como horrível, disparatada e perigosa. E escreveu-o. E publicou-o. E chamou uns nomes ao deus da Bíblia. E depois? Depois apareceu uma série de gente ofendidíssima, como é costume de cada vez que alguém faz críticas aos chamados "livros sagrados", às divindades (ou melhor, à ideia da sua existência ou à representação das mesmas nos livros e nos discursos, já que só quem acredita em divindades as critica) ou aos "profetas". Até aqui tudo normal - milagre será o dia em que "autoridades religiosas" assistam com serenidade a opiniões diferentes das suas e que crentes mais tresloucados não apelem à guerra santa, seja sob a forma de pena de morte, como sucedeu com Rushdie, ou de "desnacionalização", como ocorreu a um eurodeputado de nome David.

Mas desta vez apareceu também gente que, não sendo religiosa, verberou Saramago pela sua "leitura literal" , por "defender a censura" e até, pasme-se, pela sua parca escolaridade. Se calhar é altura de dizer que não sou admiradora nem da personalidade nem da obra de Saramago e que ser ateia não me coloca sempre em concordância com outros ateus, tal como ser católico ou islâmico não implica concordar com todos os católicos ou islâmicos (óbvio, não?). Mas não vejo o problema. A Bíblia é um conjunto de textos escritos ao longo de mil anos? É. Não é para ser lida literalmente? Por amor de deus, não. Se calhar é mesmo isso que Saramago está a dizer quando a ridiculariza - só pode estar a dizer isso, porque, é sabido, Saramago não crê.

É que das duas uma: ou vemos aquilo como "a palavra de Deus" e portanto pode ser interpretado e decomposto por Saramago como lhe aprouver (só o tal deus sabe o que queria dizer) ou vemos aquilo como um conjunto de textos escritos por gentes diversas e Saramago pode interpretar e decompor como lhe apetecer (só quem escreveu sabe o que queria dizer e já cá não está para explicar). Alegar autoridade, eclesiástica ou académica, a propósito das opiniões de um escritor sobre textos escritos por pastores, pedreiros e soldados que têm sido apresentados durante séculos como ventríloquos de divindade é que é uma coisa um bocadinho disparatada. Ou não?


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14 Comentários


Facius_Cardan

06 Nov 2009, às 11:19 - Portugal - Setúbal

Há mais de dois milénios, aquilo que alguns pastores, pedreiros e soldados escreveram teve uma reverberação social e temporal profunda (sou agnóstico, mas isso não me impede de reconhecer a qualidade intrínseca de muitos dos textos da bíblia). Actualmente, o pastor, o pedreiro e o soldado ou não sabem escrever ou não têm ninguém que os publique ou sequer os ouça. Dá que pensar...


Victor de Sousa

06 Nov 2009, às 04:13 - Portugal - Setúbal

Saramago tem uma idade avançada e um prémio nobel e não se preocupa com o politicamente correcto. Daí a passar um atestado de estupidez a todos os crentes, católicos, cristão, islamistas etc., vai alguma distância. Não digo isto por razões religiosas mas os nossos direitos não podem colidir com os dos outros. Esta é a polémica. Esta é que é a polémica.


Jorge Manuel Vera de Carvalho

31 Out 2009, às 08:34 - Netherlands

Isso sim é que é ser jornalista.Este seu artigo é uma grande lição e exaltação dos principios de Politzer.


Utente

30 Out 2009, às 18:24 - Portugal

(cont) tornaram-se depois filósofos e andam agora, tolamente, a discutir, com outras porções de matéria, se serão, ou não, apenas matéria. Perfeitamente científico, o que justifica que olhem sobranceiramente os crentes como papalvos. PS : O pedreiro que consultei diz-me que, na Bíblia, apreendeu algumas ideiazitas; mas que, do texto de F. Câncio não colhe inspiração alguma.


Utente

30 Out 2009, às 18:21 - Portugal

Dogma em que forçosamente acredita qualquer ateu como GG e a articulista: - Porções de matéria inanimada – e, portanto, absolutamente obtusa – de que o universo foi exclusivamente formado durante milhões de anos, tomaram espontaneamente, em dado momento, consciência do seu meio ambiente,(cont)


Nuno Gomes

30 Out 2009, às 18:12 - Portugal - Castelo Branco

A conversão de Saramago,faria reflectir muita gente. Deus está presente no seu espírito,pelo menos como "questão"e como"interrogação".


tinderstick

30 Out 2009, às 17:23 - Portugal - Coimbra

Sem dúvida, uma questão comercial, como excelentemente refere Great Gatsby....as convicções vendidas por milhões, não podem desvalorizar em Bolsa...


Agridoce

30 Out 2009, às 17:03 - Portugal - Lisboa

Brilhante! Os dois últimos parágrafos resumem a questão e sentenciam-na! Toca a virar a página!


Great Gatsby

30 Out 2009, às 13:18 - Portugal

(cont.) Sabem, têem que saber, ou pelo menos que suspeitar, que tudo aquilo em que dizem acreditar não pode ser demonstrado (ninguém viu deus) nem explicado (a teoria do conhecimento demonstra o absurdo da ideia de um deus); que mais hão-de fazer então senão insultar e perseguir? Discutir? Com que argumentos? São apenas feirantes enraivecidos por lhes tirarem o lugar de venda.


Great Gatsby

30 Out 2009, às 13:14 - Portugal

(cont.) deficiências do produto. Aí é que não pode ser porque lhes dá cabo do negóco! É ver então as almas caridosas que se ajoelham aos Domingos na missa, a insultar, a difamar e a perseguir (agora já não podem queimar) com uma raiva insuspeitada nas mentes doces dos devotos! Não suportam a crítica, não a podem suportar, não a podem refutar...(cont.)


Great Gatsby

30 Out 2009, às 13:08 - Portugal

O problema é comercial. Os autores da biblia são os ventríluquos da divindade e os padres os ventríluquos dos ventríluquos. O negócio baseia-se na exclusividade dos ventríluquos(como nas marcas comerciais). Se ninguém se meter com eles, o negócio vai correndo (a religião é o melhor negócio do mundo);o problema é quando aparece um defensor do consumidor que chama a atenção para as (cont.)


Utente

30 Out 2009, às 11:28 - Portugal

Anda um pedreiro a trabalhar em minha casa. Vou perguntar-lhe se percebeu alguma coisa e depois comento.


joao americo oliveira ramos

30 Out 2009, às 11:20 - Brazil

Há, outro aspecto que ninguém aborda. Não importa se a pessoa gosta ou não de Saramago, (eu gosto muito), a verdade é que ele é um escritor e quer e tem o direito de abordar o tema que escolher. Ele não se diz teólogo, filósofo ou outra coisa que não escritor. Não se é obrigado a ler o livro. Quem lê, gosta ou não e pronto. A mania de armar guerra por religião tem de acabar.


antonioparente

30 Out 2009, às 09:54 - Portugal - Lisboa

Disparatado é o texto da Fernanda Câncio mas defendo que o direito à asneira deveria ser consagrado na declaração universal dos direitos humanos. Por isso, nada a criticar no que foi escrito.


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