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Vasco Graça Moura

Melhor crer do que ler?

por Vasco Graça Moura  

Há um bom par de anos, escrevi num artigo intitulado "Contra Deus" (Egoísta, Outubro de 2001) que "o Jeová da Bíblia é um ser caprichoso e muitas vezes iniquamente absurdo. O Deus dos Católicos (já agora, e por razões óbvias, é-me mais difícil falar do austero Deus dos protestantes…) é um ser em que o princípio da crueldade é transferido para a paixão de Cristo e que, no que respeita ao sem sentido do sofrimento do mundo, transpõe para uma dimensão escatológica a correcção de todas as injustiças e a abolição desse sofrimento. Em minha opinião, é preciso realmente ter muita fé para se acreditar e para se esperar que seja assim. Sem contar que se trata, no ensinamento eclesial ao longo de séculos e séculos, de um ser castrador e profundamente misógino, obstinado contra o que em nome dele se estigmatizava como 'pecado da carne', e redutor da filosofia (e portanto do próprio pensamento) à condição de serva da teologia (philosophia ancilla theologiae). A cultura, que para os Gregos era antropocêntrica, tende a tornar-se teocêntrica e cristocêntrica a partir dos primórdios do Cristianismo.
A lógica passou a ser substituída pela aceitação passiva dos chamados mistérios da fé. Deus, e não o homem, passa a ser a medida dogmática de todas as coisas. O Cristianismo instaurou uma cultura do arrependimento, na expectativa da misericórdia de um Deus cujos desígnios são imprescrutáveis."
O Deus do Velho Testamento é um ser intolerante, insatisfeito e vingativo. A terribilità da voz dos profetas tem qualquer coisa de deriva totalitária, existindo para o anúncio reiterado da catástrofe, se à rigidez da norma divina não for sacrificado, sem dó nem piedade, tudo e mais alguma coisa. A Bíblia é um texto compósito, de múltipla autoria, com passagens que podem ser extremamente interessantes e outras que são uma maçada insuportável, e também só um crente muito crente é que pode pretender ver no texto uma unidade que a Bíblia não tem e dar tantas voltas ao torno da interpretação que acabe por ler nela o que ela não diz.
A esta minha opinião pode, evidentemente, ser contraposta qualquer outra. Por isso mesmo é que há liberdade de pensamento e de expressão. O que me espanta é que nenhum dos que saltaram a protestar indignados contra Saramago se sinta chocado com a adesão irreflectida e infundamentada da maioria dos crentes à sua própria crença, muito embora o credo quia absurdum não seja propriamente um paradigma idóneo de lógica formal ou comportamental.
De resto, a Igreja Católica, receosa das iniciativas heterodoxas de interpretação dos textos sagrados e cedo feroz repressora da tolerância erasmiana, procurou evitar que a generalidade dos crentes lesse a Bíblia. Para quem duvide, aqui fica este extracto do Catalogo dos livros que se prohibem nestes Regnos & Senhorios de Portugal, de 1581: "Quanto às trasladações do testamento velho, somente se poderão conceder aos varões doctos & pios, por parecer do Bispo, com condição de que se use delas como de declarações da trasladação Vulgata, & não como texto sagrado. Mas as trasladações do testamento novo, feitas por Autores de primeira classe deste catálogo [i. e., constantes do Index], a ninguém se concedam: porque sói da tal ligação resultar aos Lectores pouco proveito, & muito perigo."
É por isso que num Portugal de matriz católica há pouca tradição de leitura directa dos textos bíblicos, que não foram interiorizados pelas consciências como na Europa luterana. Os clérigos reservaram-se o exclusivo das quatro modalidades da interpretação dos textos sagrados, histórica, alegórica, tropológica e anagógica, de modo a que o sentido literal pudesse ser ultrapassado, ou mesmo escamoteado em sede figurada ou mística, sem dificuldades de maior. O comum dos mortais não precisava de se preocupar muito com os textos, apesar de, muito antes, Gregório Magno e depois Isidoro de Sevilha terem insistido na importância da lectio divina (sobre a qual, e no tocante à Alta Idade Média, José Mattoso escreveu páginas interessantíssimas). No entanto, para o autor das Etimologias: melius est orare quam legere… Será?


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25 Comentários


Utente

29 Out 2009, às 17:55 - Portugal

( cont ) 2. Os mistérios de um mundo sem criador são bem mais misteriosos que os mistérios da fé. Tudo resta então absurdo ( v. o ateu Albert Camus, “O mito de Sísifo”. Escreveu Chesterton que o mal de muitos é quererem meter o céu na cabeça em lugar de meterem a cabeça no céu, e a cabeça acaba por rebentar. E, agora eu: - Não cabe ao homem julgar os métodos de Deus. Deus é que julga o Homem


Utente

29 Out 2009, às 17:52 - Portugal

(cont) Alexis Carrel, por sua vez, rendeu-se à verificação de uma cura em Lourdes, cientificamente inexplicável; André Frossard, da Academia Francesa, notável jornalista, por uma rara visão, à maneira de Paulo de Tarso… Menos clarividentes, pois, do que os ditos crentes de “fé cega”… ( cont)


Utente

29 Out 2009, às 17:51 - Portugal

(cont) Foi pelos caminhos da biologia e da física que aí cheguei e estou persuadido ser impossível a qualquer homem de ciência, que reflecte, não chegar aí, a não ser que haja cegueira ou má-fé.” ( O Futuro do Espírito, pág 234 ). Refere-se ainda à necessidade de um Criador; mas daí à fé cristã, foi, como é quase sempre, um lógico pequeno passo.(cont)


Utente

29 Out 2009, às 17:46 - Portugal

( cont) Do convertido Lecomte du Nouy, biólogo, evolucionista, companheiro de Alexis Carrel: “(…) parti para a vida com o cepticismo destrutor que estava, então, na moda. Foram-me precisos trinta anos de laboratório para me convencer de que (…) me tinham deliberadamente enganado. A minha convicção de hoje é racional. ( cont)


Utente

29 Out 2009, às 17:46 - Portugal

( cont) Do convertido Lecomte du Nouy, biólogo, evolucionista, companheiro de Alexis Carrel: “(…) parti para a vida com o cepticismo destrutor que estava, então, na moda. Foram-me precisos trinta anos de laboratório para me convencer de que (…) me tinham deliberadamente enganado. A minha convicção de hoje é racional. ( cont) .


Utente

29 Out 2009, às 17:41 - Portugal

Cara Marcela: 1. As razões que levam à fé de cada um são inúmeras. Só quis dizer que, se muitos chegam à fé intuitivamente, mais facilmente do que outros através de especulações lógicas, históricas, filosóficas, científicas ou outras, essa imediata percepção não significa irracionalidade ou cegueira ( à parte: julgo que os testes de ADN não podem garantir que A é pai de B, mas tão somente que provavelmente o será ).( cont)


Macela

29 Out 2009, às 08:29 - Portugal - Porto

(cont.) Pois,os tais desígnios ocultos...Assim tudo é válido,não interessa quão absurdo seja! Sim,a maior parte das vezes não se põe em causa a nossa paternidade,mas se se puser, o que não é nenhuma originalidade, podemos tirar tudo a limpo o que, no caso de Deus, temos que lançar mão da tal clarividência e,quem não veio dotado com ela não "vê" nada, e ainda há-de ser eternamente castigado!


Macela

29 Out 2009, às 08:09 - Portugal - Porto

caro Utente,a questão não é só acreditar, na existência de um autor da natureza, a questão é ser como a Bíblia o pinta e,ainda por cima, de forma contraditória: ora é cruel e vingativo,ora infinitamente misericordioso derramando amor sem limites sobre este mundo.Em que ficamos? ´Se a fé é clarividêcia,então porque não cloro para todos?Começa logo aí a injustiça,uma espécie de ratoeira


Nuno Gomes

29 Out 2009, às 00:25 - Portugal - Castelo Branco

Um concelho para o meu amigo Vasco Moura: torne-se mais humilde e mais aberto de espírito,porque o sr. poderá ser muito douto, mas tem um coração fechado de mais para ler o Livro dos livros. Meu caro amigo,na Bíblia (Novo Testamento),aparece um Deus em forma de criança,nascida num lugar para animais,e isto diz tudo sobre o Deus,que o sr.critica.


Indigitado

28 Out 2009, às 22:00 - Portugal - Braga

Aplaudo o VGM desta vez. E aplaudo por total concordância com o que escreve.


Utente

28 Out 2009, às 20:44 - Portugal

(cont.) …as revelaste aos pequeninos.”2. Claro que Deus é mistério. E não só Deus: toda a Natureza é mistério. E é mistério que VGM não veja no Antigo Testamento uma unidade precursora do Novo. Se, não tendo isso em conta, conclui que o Deus do Antigo Testamento (o mesmo, afinal, que o do Novo…) é arbitrário e mau, tal não demonstra a sua inexistência. Melhor acatá-lo


Utente

28 Out 2009, às 20:28 - Portugal

( cont.) Assim essa “fé cega” se nutre da imediata percepção de que a natureza há-de ter um Autor, e de que a personalidade , as acções e as palavras de Cristo - conhecidas na família, na catequese e nas homilias – não podem ser de um simples homem. “Todo aquele que é da Verdade, escuta a Minha voz. “ “Eu te bendigo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e (cont.)


Utente

28 Out 2009, às 20:18 - Portugal

( cont.) Assim essa “fé cega” se nutre da imediata percepção de que a natureza há-de ter um Autor, e de que a personalidade , as acções e as palavras de Cristo - conhecidas na família, na catequese e nas homilias dominicais – não podem ser de um simples homem. “Todo aquele que é da Verdade, escuta a Minha voz. “ “Eu te bendigo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes"(cont.)


Utente

28 Out 2009, às 20:16 - Portugal

Mostrar a sem-razão do seu texto daria um livro. Só duas notas de rodapé: 1. O que costuma classificar-se de “fé cega” é antes clarividência. Para o meu amigo ter a certeza de que seu pai é efectivamente o seu pai, não basta o conhecimento que dele tem? Acaso carece de demonstrações lógicas ou científicas? (cont.)


Macela

28 Out 2009, às 19:56 - Portugal - Porto

Homessa, Great Gatsby! Se não tem outro argumento para defender o seu ponto de vista perde o seu tempo.VGM,de quem de resto,discordo muitas vezes,agora disse o que muito boa gente sente e não assume.Se um texto diz que A é branco,mas eu acho que significa preto,é comigo,mas nem por isso A deixa de ser branco.MACELA


joao americo oliveira ramos

28 Out 2009, às 18:17 - Brazil

Interessante o texto. A verdade de toda sua opinião é expressada, quando diz "que é preciso ter muita fé para se acreditar...". A cultura, a lógica, a soberba e a pretensão, são valores humanos que não conseguem explicar Deus. Deus é amor . O resto é invenção do homem. Só se chega a Deus pela fé. Quanto a Saramago, ele é apenas um escritor de romances, e dos bons.


Armando Tavares Pereira Alves

28 Out 2009, às 14:34 - Portugal - Castelo Branco

Caro amigo, felizmente podemos evoluir. Eu hoje diria que "melius est orare quid legimus". E porque felizmente podemos ler e a Igreja Católica nos incita a isso, aproxima-se o tempo de uma fé mais esclarecida e promotora do homem no seu todo. "Jeová, como diz, é uma leitura incorrecta de Javeh, o verdadeiro nome de Deus do A. T. para os judeus. Só Jesus mostra o seu verdadeiro rosto.


Francisco Brotas

28 Out 2009, às 12:44 - Portugal - Setúbal

Diz muito bem ! É preferível crer do que ler.A Bíblia não é um livro qualquer,e embora todos o possam ler,nem todos têm competência para o interpretar,como aliás acontece com as ciências humanas.Daí ter de haver especialistas que, esses sim,poderão e deverão ser questionados. A Bíblia foi escrita para ser entendida pelo coração do homem.Não admira pois as contradições com a razão.


Great Gatsby

28 Out 2009, às 11:04 - Portugal

(cont.) Compreendi, finalmente, a sanha de VGM contra Sócrates e o PS. Não é por ele ser do PSD, nem por querer ser ministro da cultura ou administrador da imprensa nacional. Vejo agora que, afinal, as suas simpatias vão para Saramago e o PC. Aguardo, com irreprimível interesse, uma previsível tradução de "O Capital" de Karl Marx.


Great Gatsby

28 Out 2009, às 10:59 - Portugal

"É por isso que num Portugal de matriz católica há pouca tradição de leitura directa dos textos bíblicos que não foram interiorizados pelas consciências como na Europa luterana." A Europa luterana fazia mais do que interiorizar os textos: lia-os, na tradução do latim para o alemão feita por Lutero. Àparte este pormenor, o artigo desvendou-me um mistério sobre o seu autor (cont.)


Numapilla

28 Out 2009, às 09:59 - Portugal - Porto

Obrigado VGM; assim aprende-se consigo! E eu gosto muito de aprender. Agora um conselho amigo: Não gaste mais cera com o seu "defunto" PSD!...


Numapilla

28 Out 2009, às 09:55 - Portugal - Porto

Obrigado VGM; assim aprende-se! E eu gosto de aprender com quem sabe... Nota: Não "gaste mais cera com o seu defunto PSD"...


Numapilla

28 Out 2009, às 09:47 - Portugal - Porto

Obrigado VGM; assim aprende-se! E eu gosto de aprender! PS.: Não "gaste mais cera" com o seu "defunto" PSD!!!


santric

28 Out 2009, às 09:22 - Portugal - Lisboa

Por consideração pelos leitores o autor deveria ter indicado entre parêntese a seguir a cada expressão latina o seu significado em português. Era também uma questão de bom-senso. Para quem escreve V. G. Moura? J. Maia Alves, Cacém.


GeorgeRupp

28 Out 2009, às 08:33 - Portugal - Lisboa

E' um excelente texto, que mostra mais uma vez que VGM devia manter-se muito afastado da politica.



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