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Baptista Bastos

As luzes e a mariposa

por Baptista Bastos  

Obom Governo é aquele cuja acção se não sente. O axioma é bom; mas é um equívoco. Todos os Governos têm a mão pesada; logo, não há Governos bons. Sobretudo para a arraia-miúda. E é esta miuçalha que ainda gosta dos que com ela se preocupam. Acredito que a função da escrita reside nesta modesta epítome. Levo tantos anos de batucar prosa que se desenvolveu fortemente em mim algumas induções rudimentares. Por exemplo: os Governos são todos iguais, com as ligeiras diferenças nascidas dos voos dos seus hábitos. Pragmáticos, dizem. A definição mais acabada de indiferença para com os laços sociais.

Este, agora, é uma mariposa encandeada pelas luzes das câmaras de televisão. Viu-se a esfuziante alegria dos "novos" ministros, limpos e asseados, na passarela da Ajuda, e os grupinhos dos excluídos, ligeiramente acabrunhados, a fazer contraste. José Sócrates, com o encanto secreto e frio que o distingue, apenas mudou de pele. Lá dentro, é o mesmo. E o discurso que proferiu no-lo reafirmou.

É estranho, ou não o será, o facto de os comentadores do óbvio terem passado, rápidos, sobre a aspereza das palavras do engenheiro. A debilidade do dr. Cavaco, depois do melancólico fiasco das falsas escutas, e da sua triste fuga às responsabilidades, foi sobrepujada pelo que Sócrates disse. E disse, muito naturalmente, ser ele quem manda, com os seus obedientes discípulos e com os áulicos que o incensam. Como "autoridade moral", o dr. Cavaco acabou. Desapareceu no funil por ele próprio construído. Aliás, o que disse foi pouco mais do que uma banalidade assustada. O dr. Cavaco está sempre mal neste tipo de cerimónias. Na Ajuda esteve pessimamente: ele era o indivíduo convidado a contragosto, o parente indesejado numa festa de arlequins.

José Sócrates tem as coisas na mão e a seu bel-prazer. Tudo vai gravitar à sua volta: a moral como ele a entende, e a ideologia da classe dominante, a que finalmente ascendeu. O PSD é um saco de lacraus, um ringue [Marcelo dixit] onde as questões se resolvem a murro, um concentrado de medíocres ambições. Não conta para nada, a não ser para a implícita conspiração permanente em que se enreda. Com os outros três do Parlamento pode ele muito bem. Aqui e ali estabelecerá relações de "civilidade", outra palavra no circuito de quem claudica ante todas as vergonhas. Ali e acolá inventará práticas e conivências que lhe permitirão sobrenadar numa sociedade sem debates, num país sem pudor, sem respeito e sem dimensão colectiva.

As coisas são o que são. E parece impossível escapar a estas tensões e às implacáveis exigências de um tempo que perdeu de vista o reconhecimento da solidariedade e da igualdade. O horizonte da democracia avançada está cada vez mais distante. Mas há quem não desista.


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8 Comentários


renatopereira50

28 Out 2009, às 22:30 - Portugal - Aveiro

Raramente se escrevem tantas verdades como as que aqui relata o Ilustre Baptista Bastos.Estou inteiramente de acordo consigo.


Indigitado

28 Out 2009, às 21:30 - Portugal - Braga

Nem Salazar, Staline, Fidel ou outros aguentaram o equilíbrio supliciante sobre o estrado. Onde buscar o modelo para pintar umas asas perfeitas à mariposa? Aqueles apagaram as luzes do jogo de sombras mas ante disso mataram as mariposas com Shell Tox. Depois… um silêncio só quebrado pelo voejar de besouros incomodativos. Acendamos as luzes e sejamos borboletas singelas e dignas da Primavera.


CarlosMMRodrigues

28 Out 2009, às 16:52 - Portugal - Setúbal

Partilho esse desânimo e desesperança BB, mas também desse final "Mas há quem não desista". Até ao presente nunca existiram governos que atendam às conveniências da arraia-miúda. Talvez uns esboços que não romperam o véu coberto da utopia. Continua a haver muita gente "formatada" aos poderes dominantes: políticos, jornalistas, intelectuais, "fabricantes de opinião". Respira-se a falso, a hipocria.


Maria Conceicao Brasil

28 Out 2009, às 13:40 - Portugal

Mais uma vez, respondo ao BB. Sem subscrever o que diz de Cavaco, considero que em relação ao eng.(?) Sócrates ele tem toda a razão. Dali nunca vem boa coisa, como diz o povo. Quanto aos novos Ministros, parecem-me um bando de aves desalinhadas do seu regular circuito, abrindo e fechando as asas a cada sílaba pronunciada pelo seu novo chefe...Não espero nenhuma medida real deste executivo.


Great Gatsby

28 Out 2009, às 11:15 - Portugal

Caro BB, creio que exagera! Desgostou-o ver esta tomada de posse? Compare-a com uma do tempo de Salazar. Não vê diferenças? E não vai assim tanto tempo. A esta velocidade, suponho que não poderá estar distante o horizonte da democracia avançada, por mais avançada que seja e qualquer que seja o significado que lhe queira dar. Desde que seja um significado que todos entendam.


joao americo oliveira ramos

28 Out 2009, às 11:02 - Brazil

Há dias que parecem noite. Então o desânimo e a desesperança se apossa de nós. O cronista está atravessando um desses terríveis momentos. Mas vai passar rápido. Ele tem história, fibra, caráter e coragem. Como bem concluiu em seu artigo - "há quem não desista -". E temos certeza que ele é um deles. Estamos solidários com ele . Avante!


Basto_eu

28 Out 2009, às 11:02 - Portugal - Porto

Em avançadas, clic, este governo está aí apenas para cumprir calendário. No campeonato dos deficientes, sem muletas, não vai conseguir chegar à meta, vai cair, por falta de viabilidade prática...que não tem, porque o PM, não quer, não pode ou não sabe... das três, inclino-me mais pela última. O jogo que o PM ministro tem na mão é... um "bluf". Só isso.


Numapilla

28 Out 2009, às 09:38 - Portugal - Porto

Pois, o "tem que ser tem muita força", não é? Ia para lá a Manela? Foge!...


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por Baptista-Bastos

 

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