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por Anselmo Borges
A profecia repetida do fim da religião não se confirma. De facto, quando se olha para o planeta e não apenas para a Europa, constata-se que Deus não morreu nem está em vias de desaparecer da consciência da imensa maioria da Humanidade. É o que mostra um estudo independente elaborado pelo grupo La Vie e o diário Le Monde, agora acessível também em espanhol: El Atlas de las religiones.
Como escreve Rémy Michel, na apresentação, "é inegável que as religiões estão profundamente ancoradas no espaço geográfico que marcaram com as suas pegadas e que ordenam segundo as representações próprias de cada credo", mas acrescenta que "as religiões não são estáticas, evoluem, conquistam territórios, deslocam-se". Daí a importância de uma visão geopolítica da sua dinâmica para a compreensão das sociedades.
Assim, a socióloga R. Azria sublinha que o judaísmo "figura entre as grandes religiões do planeta menos pelo número, insignificante, de judeus no mundo do que por ter legado a mensagem bíblica ao Ocidente e desempenhado um papel importante no surgimento das outras duas grandes religiões monoteístas: cristianismo e islão".
Segundo as projecções para 2050, precisamente estas duas religiões continuarão a crescer. Segundo o Atlas, o cristianismo continuará a ser a primeira religião, passando dos 1.747 milhões em 1990 (hoje os cristãos são uns 2.000 milhões) para 3.052 milhões. Mas será o número dos muçulmanos, que eram 962 milhões (hoje são 1.200 milhões), que mais aumentará, alcançando os 2.229 milhões.
O crescimento do hinduísmo e do budismo será mais moderado: os hindus passarão de 900 milhões para 1.175 milhões, e os budistas, de 323 milhões para 425 milhões. Os judeus, de 13 para 17 milhões.
O cristianismo atravessa uma mudança geográfica: caminha para o Sul. A Europa, que durante séculos foi o seu centro, não tem hoje mais do que uns 25% dos seus fiéis, e os católicos europeus - à volta de 25% do catolicismo mundial - não serão mais de 16% em 2050. A imensa maioria dos cristãos situa-se na América: uns 275 milhões na América do Norte e 530 milhões na América Latina. O catolicismo tem na América metade dos seus fiéis. É no continente africano que o cristianismo cresce mais rapidamente: uns 300 milhões de fiéis numa população de 800 milhões. Embora muito minoritário, crescerá na Índia e na China, mas tende a desaparecer lá onde nasceu: a Terra Santa. Na América e na Ásia, o protestantismo evangélico vive "um crescimento espectacular".
A razão fundamental para o islão ser a religião que, proporcionalmente, mais se expande está no crescimento demográfico. Ao contrário da ideia corrente, a maioria dos muçulmanos não vive no Médio Oriente, mas na Ásia. Metade da comunidade islâmica vive em 4 países: Indonésia (o país com mais muçulmanos), Paquistão, Índia e Bangladesh. Na África, tem um terço da população. Na Europa, vivem 16 milhões e, nos Estados Unidos, 4 milhões. Importante é a observação de Olivier Roy, do CNRS, ao fazer notar que se operou uma mudança geopolítica no mundo muçulmano, pois "já não é percebido como um território cujas fronteiras é preciso defender, mas como uma comunidade mundial".
O hinduísmo é a religião da sexta parte da Humanidade, sendo amplamente maioritário na Índia, com 83% da população. Também maioritário no Nepal, tem minorias importantes no Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka.
O budismo não ganhou fiéis na proporção do espaço que algumas das suas práticas alcançaram no mundo. Como escreve F. Midal, "a violência do niilismo" levou a que "em certo sentido, o Ocidente se torne em grande parte budista, sem o saber e sem que isso se exprima em conversões".
Dominique Borne, presidente do Instituto Europeu de Ciências das Religiões, sublinha que o fim do socialismo real e do ateísmo militante revelou que "o religioso, que se pensava desaparecido, sempre esteve presente". Exemplos demonstrativos: a Rússia e o Vietname.
Espera-se que o diálogo interreligioso contribua decisivamente para a paz no mundo.
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8 Comentários
29 Set 2009, às 21:38 - Portugal - Coimbra
O que é lamentável, é que este senhor, que não é crente ( eu próprio o ouvi dizer :" nós morremos e ardeu!"), venha para aqui falar de deus e religiões... há tempos, alguém da I. Católica, falava que no futuro se pode levar a religião até outros planetas, uma afirmação claro do clássico colonialismo espiritual destes "pregadores da morte",( Nietzsche). Pergunto: Com que direito???
29 Set 2009, às 00:24 - Portugal
Great Gatsby: Certo que se limitou a afirmar que a maioria das religiões promove a guerra. Por isso comecei por lembrar o próprio ateísmo como fautor de conflitos. O resto veio por acréscimo, para notar que tudo serve de pretexto guerreiro. A faca que corta o pão também é utilizada para cortar gargantas
28 Set 2009, às 11:54 - Portugal - Lisboa
Pois se não acabarm, deviam ter acabado!
27 Set 2009, às 08:41 - Portugal - Setúbal
Este homem é sacerdote católico ou sociólogo/antropológo???
27 Set 2009, às 02:05 - Portugal
Utente: suponho que não leu o meu comentário com atenção. Eu não disse que todas as guerras foram provocadas pelas religiões; disse que a maioria das religiões promove a guerra.
Nuno Gomes
27 Set 2009, às 00:33 - Portugal - Castelo Branco
O cronista está de parabéns.As três grandes religiões tendem a mudar efectivamente de geografia,especialmente o cristianismo,que abraça todos os povos e culturas da terra.A Igreja está agora de olhos postos para o gigante asiático,a China.Bento xvI já confessou:seria o maior feito do seu pontificado, visitar este grande país.Aguarda-se este grande acontecimento para a Igreja.Assim seja.
26 Set 2009, às 23:40 - Portugal
O que quer GG ? Que se acabe com as religiões? O marxismo ateu da URSS promoveu a paz? Desde que o homem é homem tudo pode ser causa de guerras. Não vê GG que os interesses económicos e de domínio territorial são delas a causa primeira? As guerras púnicas, a dos cem anos, as campanhas de Alexandre ou napoleónicas, os dois últimos conflitos mundiais, foram originados por divergências religiosas? Valha-o Deus
26 Set 2009, às 14:56 - Portugal
"Espera-se que o diálogo interreligioso contribua decisivamente para a paz no mundo." Será isto uma piada? As cruzadas, a inquisição, Israel, Bin Laden, provam exactamente o contrário. Com excepção do amável budismo, as religiões não só não contribuiram nunca para a paz, como sempre promoveram a guerra.
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