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por João Marcelino
"Numa Presidência da República nunca há 'fontes'. Há factos, comentários ou opiniões, que um Presidente, em certas alturas, quer tornar do domínio público sem se comprometer por via oficial, nem sequer com uma nota. E há colaboradores para executarem a vontade e a estratégia do Presidente. Quando não o fazem, obviamente passam imediatamente a ex-colaboradores. É por isso que o silêncio de Cavaco Silva pesa sobre a actual suspeita de pseudovigilância ilegal às comunicações dos seus assessores por parte de 'alguém' do gabinete de José Sócrates" ("Um silêncio suspeito", escrito a 22 de Agosto) "É absolutamente condenável a estratégia da Presidência da República nesta questão. Ou a notícia é falsa e já deveria ter sido desmentida; ou a notícia corresponde ao que o Presidente pensa e só poderia ter duas consequências: queixa na Procuradoria e demissão do Governo" (Idem)
1. As críticas que aqui fiz ao comportamento político do Presidente da República (PR) no caso das alegadas escutas de São Bento a Belém mantêm-se não só actuais como até ganharam uma outra dimensão e gravidade com a notícia publicada ontem pelo Diário de Notícias.
A reacção de Cavaco Silva é preocupante para a democracia portuguesa.
O PR, mais uma vez, não se demarcou da tarefa de que terá incumbido o seu assessor (que se tivesse exorbitado deveria estar já sumariamente despedido). Antes pelo contrário, afirmou, de forma clara, que vai "averiguar questões de segurança" depois das eleições.
Estas palavras são contraditórias com a afirmação de que não pretende influenciar o período eleitoral. Além do mais, escondem uma outra hipocrisia: se o PR não queria influenciar, porque utilizou o assessor para dar uma "notícia" em vésperas das eleições?
Um PR não se pode prestar a estes papéis. Ou tem certezas e age, com coragem; ou não tem certezas, e averigua calado. Ora Cavaco Silva não apresentou nenhuma queixa na Procuradoria, não pediu esclarecimentos ao SIS, não demitiu o Governo. De forma irresponsável, permitiu mesmo que se acendesse a fogueira da dúvida.
2. Enquanto não negar responsabilidades pessoais no comportamento do seu colaborador de 20 anos, o PR é suspeito de acusar sem provas, de lançar a instabilidade no País.
Acresce um outro aspecto: depois de 27 de Setembro, data em que começará a "averiguar", já estará eleito um outro primeiro-ministro, que pode ser o mesmo, legitimado pelo voto popular apesar das suspeitas presidenciais sobre ele. Esta não é uma questão de pormenor. Vai com certeza introduzir ainda mais instabilidade num quadro partidário que pode não vir a ter uma solução estável para quatro anos.
Pessoalmente, confesso-me surpreendido. Reconheci sempre em Cavaco Silva uma autoridade moral que me parecia um importante resguardo para o Estado português - e agora não sei que pensar. Eu e, com certeza, muitos cidadãos.
3. Não tenhamos qualquer dúvida. Estamos a viver uma crise sem precedentes. O PR desconfia do primeiro-ministro. Este não consegue, apesar das frases politicamente correctas, esconder que a relação pessoal de ambos é péssima - e teria necessariamente de o ser.
Podemos considerar que a situação não tem um culpado e um inocente. Ambos terão responsabilidades pessoais na escalada de embirração que conduziu a esta triste realidade, até porque estamos perante dois políticos experientes. Mas, acredito, essa experiência não chega para, de 15 em 15 dias, quando estão um diante do outro, trabalharem como se nada fosse. Não pode chegar.
É evidente para quem queira olhar directo para os factos concretos deste caso que foi Cavaco Silva quem abriu as hostilidades (como foi Sócrates quem afrontou sem necessidade o PR no caso do Estatuto dos Açores).
A atitude do PR, a cada dia que passa, debilita a qualidade da nossa democracia e já está a pagar o preço dessa incrível realidade na forma crispada como a sociedade se vai acantonando num e no outro campo de uma guerra que não terá vencedores e tem um perdedor certo: Portugal.
4. Termino com uma reflexão de carácter jornalístico e deontológico..
Notícias são notícias. O dever de um jornalista é saber avaliar em todos os momentos qual o interesse público - e não há nenhum interesse particular, nem mesmo o de pertencer à corporação jornalística, que esteja acima do interesse geral. Para a Direcção do Diário de Notícias, isso é muito claro.
Neste caso, procurámos saber se a matéria que tínhamos, e temos, em mão era ou não relevante. Era, é.
E, subsequentemente, se era ou não indiscutivelmente verdadeira. Era, é.
Obtivemos essa informação da boca de uma "fonte" digna de todo o crédito, que defenderemos de forma profissional e séria. Cada um se preocupará com as suas "fontes" e será responsável pela protecção que lhes assegurar.
Nesta fase, procurámos, porque nada nos move contra o Público e os seus jornalistas, nossos camaradas que respeitamos, apenas divulgar o que era absolutamente essencial. Queremos ficar por aqui, e ficaremos de facto se a questão, fora uma ou duas reacções que consideramos ainda normais de defesa corporativa, se mantiver limitada àquilo que verdadeiramente importa: às relações institucionais entre Presidente e primeiro-ministro, às suspeitas que o mais alto magistrado da Nação ainda parece manter quanto a eventuais escutas e, sobretudo, ao papel do Presidente numa notícia que é relevante.
Não é este o momento para desfocar a questão de fundo, política e institucional, entre dois órgãos de soberania, com a discussão sobre uma outra questão que deve estar sobre a mesa mais tarde: a qualidade do jornalismo português. Nela participarei de forma activa, com todo o gosto, mas apenas quando tiver a certeza de que nem eu nem o DN seremos arrastados para lançar fumo sobre a questão que importa. Outros que o façam se, entretanto, disso precisarem.
"A comunicação social deve pôr a nu estes métodos de fazer jornalismo"
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30 Comentários
03 Out 2009, às 20:51 - Portugal - Braga
Está provado que Belém não tem um inquilino apropriado! Há que começar a pensar num outro que,logo que acabe o seu "contrato",seja substituido por alguem que saiba ocupar e dignificar essa cúpula do poder político neste País, como muito bem fizeram os três predecessores!...
22 Set 2009, às 11:05 - Portugal - Lisboa
Se isto se passasse com o Sócrates, estava toda a gente a dizer, apropriadamente, DEMITA-SE! Acho que o Presidente da República deve convocar eleições presidenciais porque não tem condição para continuar no cargo!
21 Set 2009, às 18:14 - Portugal - Porto
Professor Martelo Obviamente demito-o. O caso não pode morrer assim. O PSD e os Jornalistas tentaram fazer a “cama” a Sócrates como fizeram a Ferro Rodrigues. Ferreira Leite o que chama a isto? Asfixia Democrática ou Crime?
20 Set 2009, às 22:03 - Portugal - Porto
Parabéns João Marcelino! Soberana oportunidade para dar um grande "colher de chá" ao Cavaco!... Brincou com o fogo e queimou-se... Avança Manuel Alegre! Agora sim, podes vencê-lo!
20 Set 2009, às 02:55 - Portugal - Lisboa
Como que o Parece é, o PR deixou já este estatuto para entrar atrevidamente na luta política partidária. E com uma inventona que não fica nada atrás das inventonas que surgiram durante o PREC. E não hesitou em lançar suspeitas sobre o idoneidade dos nossos Serviços de Segurança! Ele não é seguramente o presidente de todos os portugueses! Não há memória de um PR assim desde o 25 de Ab
orim2
20 Set 2009, às 00:19 - Portugal - Porto
Não merecemos ter um p.r. destes.
Paulo1962
19 Set 2009, às 20:13 - Portugal - Santarém
Há 1 mês atrás a questão que se punha era: ou as escutas eram verdade e então Cavaco tinha de demitir Sócrates ou eram uma invenção do staff do presidente e este tinha de se demitir. Desde ontem que ficámos sem quaisquer dúvidas. Assim, quem põe Cavaco na rua?
ribeirinho
19 Set 2009, às 17:45 - Portugal - Viana do Castelo
Um artigo que reflete a verdade das coisas. Cavaco perdeu o norte e faz jogo sujo para lixar o Socrates.Depois desta asneira concebida e arquitetada em Belem, O presidente deixou de o ser.
JHG
19 Set 2009, às 16:56 - Portugal - Funchal
"Insinuações!?"Porém,se é essa a ideia no ar,a falta de "autoridade moral",não será coisa recorrente,não terá o anterior Presidente feito "trinta por uma linha"para chegar a "brasa à sua sardinha"?E serviu isso de alguma coisa?"Oportunidade soberana" a este Portugal da mediania e embuste,da pobreza moral e material que o masoquismo,a burrice e a estupidez,de novo,se preparam para validar a 27?
agb
19 Set 2009, às 16:46 - Portugal - Porto
Uma análise perfeita. Pena é que tenhamos uma justiça que colabora com este tipo de situações. Infelizmente a nossa justiça, no campo político, está com o sistema, como se confirma pelos imensos casos duvidosos, que são do domínio público, e que estão por esclarecer. Com uma justiça actuante, eficaz e isenta, os nossos políticos seriam mais respeitados e respeitadores. É urgente uma boa justiça
EUZINHO
19 Set 2009, às 16:39 - Portugal - Lisboa
A minha saudação de respeito a João Marcelino. Mostra ser um director de jornal digno, responsável e profissional.
Francisco Santos
19 Set 2009, às 15:42 - Portugal - Lisboa
Parabéns Sr. Marcelino! a lucidez e a seriedade no meio do pântano. Enquanto o meu amigo estiver no DN não deixarei nunca de preferir o seu jornal
19 Set 2009, às 15:36 - Portugal - Lisboa
É lamentável e mau demais para o País, mas há coisas que têm de ser ditas, a bem da liberdade e da democracia: Cavaco já mostrou como escolhe as "pessoas de toda a confiança" que o rodeiam, a começar por Dias Loureiro e agora com o dedicadíssimo Fernando, mostrando-se sempre muito lento a tomar uma decisão quando envolve os seus apaniguados. Quando 1º ministro também andou muito por aí ...
c.castanho
19 Set 2009, às 15:26 - Portugal
Lamentavelmente tenho que dizer isto:O PR Cavaco Silva já não é o Presidente de todos os Portugueses!Já não tem condições para o exercício do cargo- supra apartidário!.Cavaco fez propositadamente a opção por um dos lados! Perdeu a dignidade politica e pessoal para o mais alto cargo da Nação....
LES
19 Set 2009, às 15:16 - Portugal - Lisboa
se assim foi deveria já nessa altura ter o PR tomado uma atitude institucional sobre o assunto e não ter encomendado uma notícia num qualquer jornal. 17 meses depois temos a notícia como grande escândalo. Presumo que o PR não se deixou ficar a ser escutado todo este tempo, o PR deixou foi a notícia produzir os efeitos desejados de início. O PR premeditou a influência na eleições actuais.
19 Set 2009, às 15:07 - Portugal - Lisboa
Não pode haver escutas nenhumas, há sim uma agenda escondida do Presidente, que não é legitima. Parece que toda a gente se está a esquecer de um promenor que é letal para o comportamento perfeitamente inaceitável do PR, o Lima foi foi com um dossier na mão à Av. de Roma falar com o Jornalista em Abril de 2008, portanto se houvesse escutas elas estariam a ser efectuadas desde antes desse mês (Cont)
Great Gatsby
19 Set 2009, às 14:46 - Portugal
(cont.) numa matéria que põe a independência à prova. Diz-se que é nas ocasiões que se conhecem os amigos. O ditado vale também para os amigos da verdade... Parabéns!
19 Set 2009, às 14:45 - Portugal
(cont.) Chega a ser patético e quando as coisas chegam a esse ponto - é natural a resistência a vê-las, tal e qual. Infelizmente, já não há outro modo possível de as ver. Não acredito que Cavaco venha dizer agora que o seu assessor agiu sem seu consentimento. Ninguém o acreditaria. De resto, apreciei o artigo, melhor os artigos. Inteligentes, sólidos e independentes (cont.)
19 Set 2009, às 14:38 - Portugal
"....reconheci sempre em Cavaco Silva uma autoridade moral..." Porquê? Pela atitude crispada, pelo ar de que todos lhe devem dinheiro e ninguém lhe paga? O que é que ele fez realmente que lhe confira essa autoridade? "...e agora não sei que pensar." Compreendo, em certa medida. É mau demais que a primeira figura do estado seja apenas um intriguista desastrado...(cont.)
Interventor
19 Set 2009, às 14:24 - Portugal
O interesse nacional exige um PR de outra envergadura, pelo que deve demitir-se. Não é com estes silêncios, aliás ardilosos, que se propugna a estabilidade institucional. Marcelino foi objectivo e certeiro.
joao americo oliveira ramos
19 Set 2009, às 14:23 - Brazil
Belíssimo artigo. Algumas considerações : Corrupção vem do latim "corrumpere" e significa estragar, decompor. É um agente de decomposição das instituições públicas. A corrupção do espírito público mina a confiança das pessoas nas instituições democráticas. Atingem políticos que praticam ações ou omissões que violam normas jurídicas, a perseguir interesses ou vantagens particulares
Indigitado
19 Set 2009, às 14:19 - Portugal - Braga
O autor faz o diagóstico correcto da situação. Contra tudo o que eu sempre pensei, é iniludível que temos um PR que não dignifica o seu cargo. Perdeu a confiança dos cidadãos lúcidos e bem informados.
joaquim A. Franco Galego
19 Set 2009, às 12:21 - Portugal - Portalegre
O Senhor Presidente não dizendo disse, quero dizer, ampliou as suspeitas sobre tudo e todos. É um estranho silêncio dum politico ( Senhor Presidente da República) que de vez em quando pretendendo ficar acima da vulgar querela política, não só nela fica envolvido e não ficando acima, é até provável que fique abaixo, isto é por baixo. O Senhor Presidente semeou, aguardemos a colheita.
LuisManuelLourenco
19 Set 2009, às 11:34 - Portugal - Lisboa
Uma palavra apenas. Parabens.
Bruder
19 Set 2009, às 10:59 - Portugal - Leiria
Frontal, directo, corajoso.Uma bufada de ar fresco nesta suinicultura fétida, onde algum jornalismo português parece afocinhar.Três opções ; ou se processa o jornalista, se demite o Governo, ou se exonera o Presidente da República. Bruder
19 Set 2009, às 10:51 - Portugal - Leiria
Duas frases que resumem, e são graves, neste assunto ; " De forma irresponsável, permitiu mesmo que se acendesse a fogueira da dúvida. ".E, a segunda ; "Enquanto não negar responsabilidades pessoais no comportamento do seu colaborador de 20 anos, o PR é suspeito de acusar sem provas, de lançar a instabilidade no País." Conclusão :ou se exonera o Presidente, ou demite o Governo.Irresponsáveis !
santric
19 Set 2009, às 10:03 - Portugal - Lisboa
Duvido muito, muito das intenções do D. Notícias.
rouxinoldebernardim
19 Set 2009, às 08:38 - Portugal - Porto
É muito grave o comportamento do PR: insinua, age na sombra, não manda investigar (há muito que urgia tal decisão), provoca instabilidade, deixa antever cenários futuros que não auguram nada de bom. Enffim, toda a gente vê o que está subjacente: à falta de trunfos, com o desgaste do PSD e a erosão nas sondagens ali vai mais uma acha para a fogueira. Triste figura, pobre figura a deste PR ...
G_M
19 Set 2009, às 03:56 - Portugal - Setúbal
Tenho "inveja" de não ter escrito este artigo. Se me permitir, assino tanbém por baixo (simbolicamente claro). Muito obrigado
carlos bento
19 Set 2009, às 03:16 - United States
Em tempos, Sampaio fez cair o governo, "pelas razoes que os portugueses conheciam" . Cavaco Silva ja' teve mil e uma razoes plausiveis para o fazer e continua quedo e quase mudo. Se voltarmos a ter uma segunda era Socrates, a culpa nao sera' minha, mas mereco, por ter tido a pouca sorte de nascer em Portugal. Afinal nao foi por acaso que tivemos quase 50 anos de ditadura!
Comissão de inquérito, e já
1 Num Estado de Direito democrático, as comissões de inquérito parlamentares são o lugar de excelência para esclarecer todas as dúvidas que ganhem uma relevância política acima do normal.
João Marcelino
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