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Leonídio Paulo Ferreira

Salário mínimo já não chega para bica do meio da manhã

por Leonídio Paulo Ferreira  

Temos um dos maiores fossos sociais da Europa. Não admira. As pensões são baixas e o salário mínimo é escandaloso.

Saiu à pressa de casa, tomou uma meia-de-leite e uma sandes de fiambre no café da esquina, veio de carro até Lisboa, deixou umas moedas no parquímetro e bebeu a bica do meio da manhã antes de passar os olhos por este jornal? Então é um português privilegiado. Não ganha de certeza o salário mínimo, esses escandalosos 450 euros negociados entre o Governo, o patronato e os sindicatos. Dá apenas 15 euros por dia e no momento em que, já estacionado o automóvel, comprou o DN esfumaram-se por completo. E o pior é que as pessoas, mesmo que tomem o pequeno-almoço em casa e viajem de transportes públicos, precisam de muito mais para viver com dignidade. Afinal, há a casa para pagar, a comida, a roupa e também os livros para os miúdos, despesa sazonal que deixa as famílias em stress.

Um aumento para 475 euros é impossível, diziam há dias as confederações do turismo e da indústria. A desculpa é velha, que a produtividade dos portugueses é baixa e que é preciso manter a competitividade das empresas. E a crise fornece agora um novo argumento, mais rebuscado: "Preferimos combater o desemprego a aumentar os salários." O problema é que a crise pode ou não ser passageira, mas as contas por pagar chegam todos os meses e para os mais de 300 mil portugueses que ganham só 450 euros (brutos!) as complexidades macroeconómicas são uma realidade incompreensível. Sobretudo quando lêem notícias que revelam que os administradores-executivos das 20 maiores empresas cotadas na Bolsa de Lisboa ganharam em média 810 mil euros em 2008, qualquer coisa como 130 vezes aquilo que ganhou um trabalhador com salário mínimo. E o equivalente a toda uma vida de trabalho de alguém que receba 1500 euros mensais. Mesmo assim, os gestores das empresas do PSI-20 registaram uma ligeira quebra de rendimentos, como que a adivinharem já uma necessidade de moralização que tem porta-vozes em Portugal, como os ministros Teixeira dos Santos e Vieira da Silva, e campeões lá fora, caso de Nicolas Sarkozy ou Barack Obama. Nos Estados Unidos, em 2007, um CEO ganhava em média 364 vezes mais que um trabalhador (10,8 milhões de dólares contra 29 500), abaixo do recorde de 525 vezes em 2000, mas bem mais que o diferencial de 71 vezes que existia em 1989, o ano da queda do Muro de Berlim

Portugal tem um fosso social (índice Gini) que nos coloca na 29.ª posição mundial, atrás de países como Chipre ou Coreia do Sul. Isso é explicado pelas fracas pensões, mas também pelo salário mínimo, o mais baixo dos países da Zona Euro com excepção da Eslováquia (que aderiu à moeda única em Janeiro). A proliferação de produtos de baixo custo importados da Ásia, desde brinquedos a roupa, permitiu, porém, a ilusão de poder de compra a quem ganha mal. E o crédito fácil fez a outra parte, ajudando as famílias a viverem acima das posses. Mas o problema de fundo mantém-se e ameaça agravar-se: as desigualdades. O salário mínimo nasceu um mês e dois dias depois da Revolução de 25 de Abril de 1974 com a melhor das intenções: garantir a dignidade de quem trabalha. Era então de 3300 escudos (16,5 euros) e se tivesse acompanhado a inflação seria hoje de uns 580 euros, segundo João Loureiro, da Faculdade de Economia do Porto, citado pela TSF. Talvez desse ainda para a tal bica.


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