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Anselmo Borges

A tentação do cristianismo

por Anselmo Borges  

Deus em Cristo "ocupa-se de cada um em pessoa e pessoalmente" e dá-lhe a vida eterna, na ressurreição (...)

Na França, talvez o país europeu mais laico, não há receio de debater, ao mais alto nível e publicamente, com a participação de alguns dos filósofos hoje mais influentes, a questão da religião e, concretamente, do cristianismo. Assim, realizou-se na Sorbonne, em 2008, um debate sobre o tema em epígrafe, de que resultou um livro, acabado de editar, com o mesmo título: La tentation du christianisme.

É que - lê-se na introdução - não se pode esquecer que "a religião foi durante muito tempo a nossa cultura e continua a sê-lo, mesmo sem darmos por isso. Sem uma reapropriação lúcida e esclarecida dessa herança, é grande o risco de ver ressurgir os demónios do passado": os fundamentalismos e "um materialismo hiperbólico".

A filosofia leva consigo três perguntas fundamentais, como disse Kant: Que posso saber?, que devo fazer?, que me é permitido esperar? No fundo, o que as atravessa é a questão do Homem e do sentido da existência. Há uma teoria, que responde à pergunta pela realidade global enquanto lugar onde se joga a existência humana. Há uma ética, que pergunta pelas regras do jogo. A terceira pergunta tem a ver com a finalidade do jogo e a salvação: o quê ou quem nos salva da finitude e do temor da morte?

Segundo Luc Ferry, antigo ministro da Educação da França, para perceber como é que o cristianismo se tornou chave da cultura ocidental, não há como compará-lo com a filosofia grega e, nomeadamente, o estoicismo, no quadro das três interrogações apontadas. De facto, o cristianismo operou uma revolução nos três aspectos: teórico, ético e soteriológico.

Em primeiro lugar, uma revolução no plano da teoria. Na perspectiva grega, o cosmos é theion, isto é, divino, e também Lógos, "lógico", racional, derivando daí a ética: o bem, para os estóicos, era a justeza, isto é, estar ajustado à ordem do cosmos.

Na perspectiva cristã, o Lógos divino encarna numa figura humana, Jesus, como diz o Evangelho segundo São João: "No princípio era o Lógos, o Lógos era Deus e o Lógos fez-se carne (Homem)". Deparamo-nos então com uma dupla revolução, ontológica e epistemológica: "O ser supremo, o divino, deixa de ser uma estrutura anónima e cega para tornar-se uma pessoa; o modo de apreensão ou de conhecimento do divino já não é essencialmente a razão, mas a fé." É fundamentalmente com a fé-confiança que se vai ao encontro das pessoas.

Daqui, deriva uma revolução ética. A cosmologia grega implicava um mundo hierarquizado e aristocrático, confundindo-se a dignidade moral com os talentos naturais. O cristianismo apresenta o escândalo de um Deus encarnado numa figura humana frágil e, agora, o valor moral já não provém dos dons naturais, mas da liberdade: pense-se na famosa parábola dos talentos - afinal, o decisivo não são os talentos recebidos, mas o que deles se faz. Assim, a infinita dignidade da pessoa humana e a igualdade radical de todos vieram ao mundo pelo cristianismo e "todas as morais democráticas, sem excepção, são directamente suas herdeiras".

Finalmente, uma revolução soteriológica. Se o divino já se não confunde com a estrutura cega e anónima do mundo, mas encarnou, identificando-se com uma pessoa concreta, a salvação muda de sentido, tornando-se uma promessa e um compromisso de Cristo, de uma pessoa com outras pessoas, portanto, "um assunto de intersubjectividade, não de mundanidade". Deus em Cristo "ocupa-se de cada um em pessoa e pessoalmente" e dá-lhe a vida eterna, na ressurreição: "Poder reviver e reencontrar depois da morte os que amamos - vamos reencontrar a pessoa amada com o rosto do amor. A promessa é, evidentemente, grandiosa. É aqui que se encontra o coração do coração da tentação cristã, da sedução que o cristianismo exercerá sobre os homens."

Luc Ferrry não crê, porque "é demasiado belo para ser verdade". Outros, porém, acreditaram e acreditam, precisamente porque o cristianismo mostra a sua verdade na sua correspondência com o dinamismo mais fundo do ser humano. Cabe a cada um decidir.


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11 Comentários


Aurora Madruga

01 Set 2009, às 23:38 - Portugal - Lisboa

Os meus parabéns ao sr utente, tem um sentido de humor brilhante! Devíamos ser capazes de discordar sem insultar ou diminuir... no final de contas, cada um decide por si e responsabiliza-se pelas decisões que toma, individualmente. A ideia é partilhar opiniões, não é convencer ninguém!


Nuno Gomes

31 Ago 2009, às 19:44 - Portugal - Castelo Branco

Muito bem escrita esta crónica,parabéns! Verdade se diga:há uma tentativa por parte da cultura dominante actual,o querer reduzir o cristianismo a um conjunto de ideias "antiquádas e obscúrantistas".Se não saírmos do nosso eguismo e índividualismo,jamais descobriremos a verdadeira dimensão do cristianismo."Abrí as portas a Cristo!" já proclamava João Paulo II.


tinderstick

31 Ago 2009, às 02:45 - Portugal - Coimbra

parece impossível como a verdade e o contraditório continuam a ser desconfortáveis e a fazer mossa....


MariaeMaria

30 Ago 2009, às 23:07 - Portugal - Porto

Parece impossível como, perante um texto desta magnitude, haja Especialistas, GG's, Tindersticks e quejandos com comentários a despropósito, que em nada enriquecem o debate. Gostaria de ler comentários à altura das crónicas de AB, Então sim, valeria a pena.


tinderstick

30 Ago 2009, às 03:48 - Portugal - Coimbra

Utente: Deixo-lhe uma frase de AB : "nós morremos e ardeu!".... assim se vê a hipocrisia destes paladinos da moral, espiritualidade e vida eterna....


tinderstick

30 Ago 2009, às 03:44 - Portugal - Coimbra

O Especialista foi à "coisa"... E deve colocar-se também a questão: se nunca nos tivessem falado de Cristo, não conseguiríamos nós fazer a nossa vida? Parece-me que, ao longo dos séculos, Deus esteve a mais, nada trouxe a mais, somente a menos...


Utente

30 Ago 2009, às 00:26 - Portugal

Já vi, GG, que não consegue encontrar posição capaz...


Great Gatsby

29 Ago 2009, às 20:33 - Portugal

E de joelhos, então, é mesmo impossível pensar...


Utente

29 Ago 2009, às 19:13 - Portugal

De facto, de cabeça para baixo é difícil pensar bem...


Especialista

29 Ago 2009, às 14:16 - Portugal - Lisboa

Com o devido respeito eu pergunto como é possivel falar em vida eterna e ressurreição da carne num tempo em que se sabe que vivemos rotativamente a uma velocidade de 19 Kilómetros por segundo caminhando para uma outra Galáxia, vivendo quase que permanentemente de cabeça para baixo... Como é possivel haver ainda disposição para falar de tais coisas como se de realidades se tratassem?


Utente

29 Ago 2009, às 12:31 - Portugal

Gostei muito. Síntese clara, profunda e bem estruturada. Felicitações.


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