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por ANSELMO BORGES
Se há desafio gigantesco para a humanidade, é o de encontrar um modelo económico que alie liberdade e justiça
Eles também nascem. E crescem. Também amam e esperam. São seres humanos como nós. Também sorriem, mas tristes: a alma afunda-se na negrura da impotência, da dor e da tristeza. Tentam trabalhar. Sofrem demais. Morrem cedo, demasiado cedo. De desnutrição, de falta de água e de higiene e de remédios. De fome. Faltou-lhes tudo.
Eles são os pobres. Aos milhões, cada vez mais. E é uma vergonha para a Humanidade que, quando há possibilidade do mínimo para todos, tantos morram ao abandono da fome. E Deus a perguntar, como no princípio a Caim: "O que fizeste do teu irmão?" Como se pode tolerar que ao mesmo tempo que aumenta a riqueza mundial seja cada vez maior o fosso entre os ricos e os pobres, cujo número, com a crise, não cessa de crescer?
São homens e mulheres, aos milhões - muitas crianças -, a quem foi negada a dignidade humana. Este é que é o problema maior da Humanidade, que tem de ter uma solução. Esperamos numa boa solução. Porque, se não for a bem, será a mal. De facto, quem julga que o tempo das revoluções acabou está enganado. Vem aí a revolução dos pobres e desesperados.
Na sua última encíclica, Caritas in Veritate (A caridade na verdade), Bento XVI tentou dizê-lo, mas, segundo alguns, sem a força necessária. Daí, a par do merecido aplauso, as justas críticas ao documento. Que é demasiado longo, num amálgama para todos os gostos, o que é verdade. Que, ao falar a partir de um lugar soberano de pureza moral, ignora a necessária autocrítica da Igreja, o que também é verdade. Que a crítica do mercado e do universo financeiro tinha de ser muito mais severa e concreta. Que é equilibrista e tem míngua de análise crítica e denúncia e anúncio proféticos.
Se há desafio gigantesco para a Humanidade, é o de encontrar um modelo económico que alie liberdade e justiça. De facto, com o comunismo, o que se queria era implantar a justiça, mas o resultado foi uma sociedade sem liberdade nem justiça. Com o capitalismo desenfreado, a liberdade é só para alguns e opressora.
Como acaba de escrever o famoso bispo Pedro Casaldáliga, "impõe-se também uma recusa crítica do suposto 'triunfo' do capitalismo neoliberal. Porque nós, pelo menos, não vemos em lado nenhum esse triunfo, se nos referimos à imensa maioria da Humanidade. Acrescendo que o próprio capitalismo neoliberal triunfante não se sente tão seguro de si, frente às suas contradições internas. Mas, mesmo que esse triunfo do egoísmo estrutural se tivesse dado, seria um fracasso ético da família humana, pois estar-se-ia a evidenciar, mais uma vez, a impossibilidade de uma política e uma economia honestamente fraternas; ter-se-ia imposto outra vez, como única possível, a 'ética dos lobos'".
A encíclica, inesperadamente, refere- -se à necessidade de mais Estado, critica o neoliberalismo e diz que urge uma Autoridade política mundial reconhecida por todos. Mas não houve ousadia profética. Continua a inscrever-se, ainda que o seu fio condutor seja o do desenvolvimento humano integral, no horizonte do desenvolvimento aparentemente sem limites. Como escreveu J. Ignacio Calleja, não se colocou a questão do "decrescimento" como forma de mudar os estilos de vida. Eu próprio há muito tempo me pergunto se não continuamos inconscientemente instalados na ideia de um progresso ilimitado. Mas a pergunta é: é possível um desenvolvimento sem limites num mundo limitado? Por outro lado, não é verdade que se torna cada vez mais claro que o "trabalho" se tornou definitivamente um bem escasso e que é preciso partilhá-lo, com todas as consequências? Cá está o tal "decrescimento".
Afinal, a questão é simples. O presente modelo de desenvolvimento não é universalizável. Quem tiver dúvidas pergunte o que acontecerá, quando, por exemplo, os quase três mil milhões de chineses e indianos quiserem e obtiverem os padrões de vida e consumo ocidentais. A contradição é esta: por um lado, impõe-se promover os pobres, que têm direito ao desenvolvimento, mas, por outro, no quadro do nosso modelo, isso é problemático, porque o planeta não aguenta ecologicamente. Então?
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Ainda a propósito: Desde o tempo ...
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A. Borges deveria apresentar uma ...
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Miranda07
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14 Comentários
03 Ago 2009, às 23:55 - Portugal
Ainda a propósito: Desde o tempo em que os animais falavam até aos nossos dias, passando pelo de La Palice que já sabia disso, a população deste planeta sempre foi inferior à actual. Havia menos pobreza ? Quanto mais remota a época, maior o desafogo económico ? Numa sociedade bem organizada - e é o que falta - cada um produz mais do que consome.
03 Ago 2009, às 18:05 - Portugal
A. Borges deveria apresentar uma redacção da encíclica a seu gosto. Depois a gente escolheria...
02 Ago 2009, às 08:10 - Portugal - Braga
A. Borges teria bem mais interesse se, em vez do populismo habitual, sempre disposto a morder na autoridade e na competência de quem, em tudo, lhe é superior, como é o caso do Papa Bento XVI, evidentemente, dizia eu, em vez de uma leitura enviesada da Encíclica, desse ele mesmo resposta, como Padre que é, e desde o início, à única parte do texto que realmente interessa: "Então?"
02 Ago 2009, às 02:38 - Portugal - Coimbra
ah ah... a preocupação deste senhor ( e da Igreja)não é a miséria dos pobres, é eles revoltarem-se e acabarem com certos privilégios da burguesia a que ele pertence; a tal encíclica pretende "mais Estado", e logo, a continuidade da Igreja também, elo de ligação entre o Povo e o Estado ( Estado confessional); se o trabalho é "escasso", o progresso nao pode ser limitado, porque cria trabalho. Então?
02 Ago 2009, às 00:46 - Portugal - Santarém
seria bem melhor, se em muitas partes do mundo,fosse premitido a liberdade de pelo menos ter acesso a uma alimentação para que a fome não matasse.Porque primeiro o alimento depois o desenvolvimento humano.Para quando a ordem mundial,independente e livre,para introduzir verdade, justiça e paz,e sem medo de olhar o próximo,e com vontade de o proteger sem daí tirar dividendos?
02 Ago 2009, às 00:33 - Portugal - Santarém
os pobres de facto estão a aumentar. O mundo existe para todos.O nosso desejo é viver em liberdade. Quando existir outro sistema mais justo,haverá tantos ricos que uns são menos e outros mais ricos.O grande problema é que quem governa uma nação ou outra coisa qualquer, não está para servir, que deveria ser a primeira função.
Nuno Calvet
01 Ago 2009, às 21:45 - Portugal
Perdão Sr. Dr. Anselmo Borges: de longe o maior, o mais dramático e terrível desafio para a humanidade é fazer parar a subida vertiginosa do aquecimento global. Se assim não acontecer, dentro de poucas décadas morrerão muitos milhões de pessoas e o planeta ficará à beira de grandes catástrofes.
joao americo oliveira ramos
01 Ago 2009, às 20:03 - Brazil
A minha escolha : O caminho da Encíclica. A outra: a) totalitarismo – "nada deve haver acima do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado"; b) nacionalismo – "a nação é a mais alta forma de sociedade que a raça humana pôde criar"; c) militarismo – "a luta é a origem de todas as coisas, a guerra exalta e enobrece o homem e regenera os povos ociosos e decadentes". O que você escolhe?
01 Ago 2009, às 19:56 - Brazil
A escolha de Sofia ! Isto é o que nos propõe o autor do artigo : Ou se eleva os pobres a dignidade a que têm direito e morremos todos ou deixamo-los na miséria para morrerem logo O nazismo afirmava :O objetivo do Estado é a manutenção e a promoção de comunidade de seres física e espiritualmente iguais.Os que não sirvam a esse objetivo serão eliminados. Eu prefiro a "Caritas in Veritate". E você ?
01 Ago 2009, às 16:03 - Brazil
O Papa não foi ousado ou nós todos é que somos hipócritas ? A natureza não perdoa ! A solução virá sim. Nós a escolheremos para o bem ou para o mal. Não esqueçamos que Deus, que nos dá tudo, nos deu também (principalmente) o livre arbítrio. E não cabe e nem faz justiça à cultura e à sensibilidade do articulista, a pergunta indecente, formulada por ele no final do artigo. Que horror!
Great Gatsby
01 Ago 2009, às 14:18 - Portugal
Talvez controle demográfico, não? Se não chega para todos, porquê fazer mais que nascem condenados à fome, ao desemprego e à guerra? Mas, isto seria o domínio do racional na Terra, o futuro tomado nas mãos pelo Homem, a supressão de deus, afinal - uma coisa que a igreja jamais tolerará... A encíclica não podia ir mais longe porque mais longe já não há deus possível, senão a razão!
Henrique Coutinho
01 Ago 2009, às 09:12 - Portugal - Lisboa
Então ? Então se o planeta é finito e ecologicamente não aguenta uma ginada na Economia apenas nos resta regressar a um modo de vida mais simples sem o sindroma do Consumismo e taxar fortemente os ricos para se poder distribuir entre os mais pobres o que pressupõe políticos honestos para não dizer virtuosos. Quantos séculos nos esperam até o Homem compreender que, por vezes, o supérrfluo é crime ?
Nuno Gomes
01 Ago 2009, às 09:00 - Portugal - Castelo Branco
Os governos do Ocidente chegaram inesperadamente a uma encuzilhada.Até que ponto,a partir de agora,se poderá continuar nas políticas que têm vindo a ser praticadas nos ultimos 200 anos? Eis que surgem quatro gigantes: China,India,Brazil e a Críse. Agora ou se pratica política a sério ou então o planeta Terra estará em maus lençóis.
01 Ago 2009, às 08:35 - Portugal - Castelo Branco
De facto,haver o tal "crescimento económico" em todos os recantos do planeta,torna-se insustentável para o mesmo planeta.E o desenvolvimento? Será que terá pernas para andar se a política ocidental contínuar a comportar-se como até aqui? (sim porque, não se nota vontade política de mudar.Veja-se por exemplo o comodísmo político europeu.)
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