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por Maria José Nogueira Pinto
O Plano Nacional de Leitura decidiu encorajar os avós a lerem histórias aos netos. O certo é que avós, netos e histórias são hoje muito diferentes: a maioria dos avós ainda está numa fase activa da vida, as crianças têm o tempo preenchido por actividades várias, as solicitações são muitas e o tempo familiar mais escasso. Os livros infantis sofrem a inevitável concorrência dos desenhos animados, que passam em sessão contínua em diversos canais televisivos: alguns são medonhos e sobressaltados por sons guturais sem propósito ou sentido aparente, revelando um mundo de vencedores e vencidos, de força e astúcia despidas de qualquer virtude ou razão; outros mais não são do que formas indefinidas, num movimento lento com efeitos hipnóticos, e destinam-se certamente a adormecer bebés.
O meu estatuto de avó reiniciou-me na literatura infantil, devolvendo-me os Três Porquinhos, a Carochinha e o João Ratão mais uma razoável porção de fadas boas e más, de princesas e príncipes, de florestas e duendes e um sem-fim de historietas de duvidoso gosto, mais ao jeito dos tempos actuais. Uma infância com livros é muito importante porque cada um de nós é também o que leu e, antes de ler, no princípio de tudo, o que ouviu lido por outros: a essencialidade da natureza humana, o bem e o mal, a inevitabilidade das vicissitudes da vida, da sua finitude e da morte, o medo e a força para a aventura de crescer.
No princípio era o verbo e a palavra foi sempre a chave que abriu todas as coisas. No princípio estavam os contos dos irmãos Grimm, os contos de Perrault, as fábulas de La Fontaine e a escuridão apavorante das ilustrações de Gustave Doré. A minha mãe abominava estas histórias. Lia-nos poesia a eito, e nós repetíamos Régio, Pessoa, Almada, Sophia, ora com voz líquida de lágrimas ora com voz forte de trovão. Por causa de quem, vejo-o hoje, os contos infantis chegaram ao mesmo tempo que os versos ao meu coração e à minha cabeça, assim entrelaçados. "Mãe! Diz essa metade que tu sabes do que é necessário saber, diz essa metade que tu sabes tão bem, para eu pensar a outra metade", escrevia Almada e pedíamos nós.
O que se lê às crianças pode ser um contributo precioso para ajudar a "organizar interiormente uma história contável": apagar o medo, trazê-los do outro lado do espelho, transportá-los para o real, que deste modo é lúdico e estético e próximo. E é também ético e bom. São assim os livros como o Petit Prince, Alice no País das Maravilhas ou A Menina do Mar: durante toda a vida vamos encontrar o coelho e o seu relógio, perceber a importância enganadora de um jogo de espelhos, o gosto pelo insólito, a importância do que é diferente, o valor do cheiro da rosa ou do sabor do vinho.
No Último Suspiro do Mouro, de Rushdie, há uma passagem que descreve os trabalhos pictóricos feitos pelo artista no quarto das crianças. Quando li, percebi que o facto de Rushdie ter sido condenado a uma profunda solidão o levou a ler tudo, incluindo banda desenhada, género em que se tornou especialista. As pinturas murais soltaram-se do âmbito restrito da encomenda feita, e o imaginário infantil, na sua versão mais tranquilizante e tecnicolor, ficou para todo o sempre guardando o sono e os sonhos.
Os tempos são outros, diferentes dos da minha infância e diferentes, também, da infância dos meus filhos. Agora é preciso forçar o momento e o espaço do livro, estabelecer uma cumplicidade que justifique o refazer de rituais tão afastados desta cultura infantil assente em sons de áudio, imagens de vídeo, truques de vozes gravadas e accionadas por minúsculos botões ocultos na contracapa, reproduzindo um imaginário prefabricado que reduz a criança ao mais passivo dos personagens.
Mas se conseguirmos esse tempo e esse espaço rapidamente reconstruímos o ritual: um colo, duas mãos, duas vozes e "papéis pintados de tinta". O efeito, como pude comprovar, é mágico e vale a pena. C
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