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por João César das Neves
Oestado da Justiça gera grave preocupação em todos os diagnósticos da situação portuguesa. Esses diagnósticos têm razão mas, em geral, falham o alvo.
A censura começa por ser mais severa que a realidade. Os nossos tribunais não são suspeitos de corrupção, displicência ou enviezamento. Apenas lentidão. Não temos uma justiça distorcida, mas demorada. Esse atraso é muito nocivo, mas não devastador. Além disso muitas críticas provêm de alguns processos mediáticos que correram muito mal. Mas os casos que interessam os jornais não retractam fielmente o conjunto judiciário. Como de costume, as queixas e lamentos lusos ultrapassam as falhas reais.
Apesar disso há fortes razões de preocupação, mas por motivos diferentes dos geralmente invocados. Pode falar-se de ineficiência nos procedimentos, interferências políticas e bloqueios corporativos, mas todas essas explicações não só são demasiado fracas para justificar a situação, mas existiam já em épocas passadas sem as falhas actuais. O problema está noutro lado como o revelam factos curiosos.
É frequente um tribunal recém-inaugurado fechar as portas por inundação de processos. A sociedade abusa do mecanismo judicial e conflitos antes resolúveis em família ou por conversas acabam na barra. Sinal equivalente vem da usurpa-ção dos media, blogs e discussões de ca-fé, que assumem poderes de juiz. A opi-nião pública habituou-se a condenar displicentemente e sem apelo, com base em análises vagas, testemunhos parciais, deliberação apressada.
A Justiça é o sector mais ligado ao estado da civilização, à atitude social básica. Por aí passam as patologias de uma época, revelam-se os desequilíbrios e clivagens da personalidade colectiva. É nos traços profundos da nossa identidade que devemos procurar as origens dos bloqueios. A sociedade está desconfiada, queixosa, quezilenta. Aí se encontra a causa real dos males. O atraso judicial é mero sintoma da depressão nacional.
Há muito que forças poderosas estão abertamente empenhadas em desmantelar as tradicionais colunas da moral nacional. Discursos políticos e desenhos animados, relatórios de peritos, revistas da moda e programas humorísticos desdenham da ética e propõem a transgressão sem vergonha. Em nome da liberdade, progresso e dinamismo atacam-se os valores que nos orientam há séculos. A religião é obsoleta, a família tacanha, a ética ridícula. Por interesses comerciais, fidelidades ideológicas ou simples divertimento mediático é costume hoje, não só desprezar a honestidade e seriedade, mas exaltar o atrevimento e a rebeldia. Não admira a crise na Justiça.
Os valores continuam respeitados na vida pessoal dos cidadãos e nos pronunciamentos oficiais, até porque é impossível viver sem eles. Mas isso passa-se à margem da cultura dominante, que recomenda arbitrariedade e atrevimento. Aí poucos princípios são sagrados, fora da ecologia, tabaco e trânsito. Pode dizer-se que os nossos antepassados eram mesquinhos e as suas regras abafadas, mas nós substituímo-las pela confusão, desmantelando as referências em nome da autonomia. Se ninguém sabe qual a Justiça que tem de seguir, é normal que a Justiça não funcione.
Pior ainda, quando a ética recua avança a lei. Subsistimos no meio de um indescritível matagal regulamentar, numa inimaginável profusão de decretos e portarias. Tudo é regulado ao pormenor e vigiado por multidão de fiscais e polícias que domina cada aspecto da vida. Não confiamos nos vizinhos e por isso amarramo-nos a todos com leis. Esta enxurrada legal revela a tolice e delírio de um sistema doente, mas não envergonha governantes e legisladores. Como pode a Justiça funcionar?
Há 1500 anos um bispo africano descreveu bem a atitude básica da nossa vida pública: "Os homens sem esperança, quanto menos preocupados estão com os seus pecados, tanto mais curiosos são sobre os pecados alheios. Não procuram corrigir, mas criticar. E, como não podem escusar- -se a si mesmos, estão sempre prontos para acusar os outros." (S. Agostinho, Sermão 19, 2 CCL 41, 252). C
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10 Comentários
23 Jul 2009, às 15:30 - Portugal - Braga
O problema da justiça está na falta de juízes e no facto de haver juízes sem juízo! Mas a reflexão está quase óptima!
21 Jul 2009, às 18:39 - Portugal
Não pode sequer conceber-se o que seja Justiça sem referência a valores. Se quem legisla não crê em valores estáveis, é claro que as normas jurídicas passam a ser um amontoado desconexo e oscilante de regulamentos.
20 Jul 2009, às 23:46 - Brazil
Começou tão bem ! Não consigo entender por que se perdeu. Os problemas que estão apontados na Justiça são corretos. Ocorrem em quase todos os países. A maioria deles decorre do excesso de ações e da pouca estrutura da Justiça. Estão sendo feitas tentativas, com relativo sucesso, optando~se por Tribunais que se encarreguem das pequenas causas, com um rito sumário.
20 Jul 2009, às 19:01 - Portugal - Castelo Branco
De facto o apodrecimento da justiça estará muito ligado à podridão da cultura dominante actual,disso restarão poucas dúvidas.Esperemos que este lastímável estado da justiça portuguesa melhore na próxima legislatura.Que a justiça seja una! Tanto para os póbres como para ricos! Assim seja.
20 Jul 2009, às 14:58 - Portugal - Lisboa
Falar da Inquisição e da pedofilia dentro da Igreja Católica Apostólica Romana é Pecado. O que a Igreja Católica realmente gosta é de falar do Sexo dos outros. Quer definir uma «Moral Nacional» em que proibirá tudo excepto aquilo que ela sancionar. Depois transformar a «Moral Nacional» em Código Civil e Penal...Carlos Odegaard, Sintra
Lina Rocha
20 Jul 2009, às 14:55 - Portugal - Coimbra
A própria representação da Justiça – uma mulher de olhos vendados, com a balança numa mão e às vezes, na outra a espada – sugere inoperância. Se está cega pela venda, como pode ver o peso das razões nos pratos da balança ou brandir a espada punitiva sem mutilar um inocente? E com ambas as mãos ocupadas, como pode ser célere? Uma venda nos olhos!? A Justiça precisa é dos olhos bem abertos!!!
Henrique Coutinho
20 Jul 2009, às 13:11 - Portugal - Lisboa
O Estado pode emitir leis para minar a Ética e os valores tradicionais. Mas a degenerescência social só avança quando a Família recua e se recusa a assumir as suas responsabilidades em estruturar a Educação (não confundir com Instrução) das futuras gerações que nos hão de suceder. Se o Homem não forma o Homem qualquer religião é inútil. O autor, notoriamente católico, não concordará.Mas a vida sim
Great Gatsby
20 Jul 2009, às 13:06 - Portugal
Talvez o vetusto Dr. João das Regras para ministro da justiça, Egas Moniz para as finanças e o Le Penn para a cultura, não?
vguerra
20 Jul 2009, às 12:32 - Portugal - Lisboa
Certamente que se os tribunais fôssem como as da inquisição ,tudo seria mais fácil.E os condenados iriam de TGV para o "céu"..
20 Jul 2009, às 10:37 - Portugal - Lisboa
O que é a «moral nacional»? A da Igreja Católica Apostólica Romana, que está sempre a pensar no Sexo dos outros? Carlos Odegaard, Sintra
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