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por Maria José Nogueira Pinto
Há muito que somos convocados para um olhar sem escamas capaz de ver o novo em todos os seus aspectos, causas e efeitos, para poder refundar o colectivo, refazer novas ancoragens, abrir e consolidar, manter e inovar, permanecer e mudar, rever o amigo e o inimigo. Em busca de uma nova ordem planetária para substituir a que ruiu quando toda a mudança confluiu num padrão insustentável de abandono de um mínimo ético, e as estruturas internacionais entraram na obsolescência, revelando-se incapazes de lidar com situações que vertiginosamente cruzam o planeta, se apropriam do nosso quotidiano, minam a nossa esperança.
É por isso que vou ouvir Maalouf. Chego tarde, uma multidão invadiu os espaços da Fundação Gulbenkian e o público transbordou para o exterior do grande anfiteatro. Um protocolo amável e eficientemente silencioso senta-me num lugar a que manifestamente não tenho direito. Dou conta que me esqueci algures da minha pasta que contém a minha vida, procuro na carteira um papel e algo que escreva e fico imóvel, segurando um mísero cartão já rabiscado e uma bic roída. Espero que Maalouf ajude a sistematizar as percepções que intimidam e as mudanças que ameaçam, um exercício de reflexão valioso para essa "discussão permanente" que se impõe.
Fala-nos sobre o esgotamento da civilização e de uma civilização global em formação, do valor da identidade comum só possível com o reforço das expressões culturais específicas, do núcleo de princípios fundamentais que, por o serem, são património colectivo, da questão da pertença e a da coexistência, da importância do "cuidar", da dignidade cultural, do conhecimento e da divulgação, do formar da opinião versus a adopção passiva do que está fabricado e disponível. Afirma a convicção de que as aspirações dos homens estão em todo o lado, se manifestam em todo mundo, são inerentes à condição humana e que as novas realidades não chegam com instruções de uso.
A encíclica Caritas in Veritate trata, numa outra dimensão, precisamente deste mundo assolado por ventos de mudança, angustiado e sem norte. Da razão e da fé, da ética na economia, de um progresso com verdade, de uma sociedade que não use o homem mas se edifique à medida da sua dignidade e vocação. E também da necessidade de criar uma nova ordem internacional que inove para agregar e integrar valores fundamentais cuja negação está na origem de todas as crises que nos afligem.
Releio Maria de Lourdes Pintasilgo cujo pensamento se caracterizou sempre por uma inquietação prospectiva que não raras vezes lhe colou uma imagem de visionária e irrealista: "Perspectivar o século XXI na lógica dos anteriores é uma espantosa cegueira face à interpretação da história", "A democracia precisa de raízes que nasçam do solo deste mundo mudado", "A passagem de um milénio a outro só é viável, psicologicamente suportável se deixarmos abertas as portas desse desconhecido (…) Talvez mais do que a passagem de uma qualquer outra época histórica, a palavra- -chave que exprime esse desconhecido é a espantosa transição que se manifesta a todos os níveis da nossa vida colectiva".
E não resisto a dar um salto ao Condomínio da Terra de Paulo Magalhães, no qual uma nova concepção jurídica do planeta, uma nova ordem é igualmente reclamada. É mais do que uma utopia positiva pois, como se sabe, utopia significa "em lugar nenhum" e esta visão arrojada de organizar uma vizinhança global visa a sobrevivência do planeta, a única herança que a espécie humana recebe e de que cada geração é, por isso, fiel depositária. Face à anunciada "colisão maciça e sem precedentes entre a nossa civilização e a Terra" também aqui se manifesta um desconcerto civilizacional e a desadequação das estruturas tradicionais que sustentam o edifício jurídico de uma ordem internacional incapaz de gerir as grandes transformações e escorar em valores a necessária transformação cultural.
Como, quando e com quem iremos refazer esta Casa Comum, é o que resta saber.
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