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Alberto Gonçalves

Santos e profeta

por Alberto Gonçalves  

Segunda-feira, 29 de Junho. O ministro das Finanças encontrou "os sinais de que estaremos, porventura, a chegar ao fim desta crise". Tomada como propaganda rasteira, a frase foi demolida em público pela oposição, por comentadores e por peritos que não vêem motivos para tamanho optimismo.

Se calhar, não procuraram bem. Se calhar, limitaram-se a contemplar a pífia subida dos indicadores de confiança divulgados pelo INE, que desde Abril saltaram do apocalíptico para o apenas catastrófico. Mas é possível que, dada a responsabilidade do seu cargo, Teixeira dos Santos disponha de informações adicionais. Nada o impede de imitar os sábios antigos e, por exemplo, ler o futuro nas entranhas das aves e bichos em geral. Eu próprio reli há dias uma perdiz com perspectivas muito estimulantes para a nossa economia.

Depois, ninguém notou a extraordinária modéstia do ministro, que evitou atribuir ao Governo qualquer mérito pelo presuntivo fim da crise. Se acabar, a crise acaba "porventura", ou seja, por acaso, sorte, fortuna. Aliás, não poderia ser de outra forma, visto que o Governo ainda está por lançar os grandes investimentos públicos que iriam resolver a crise. Entretanto, eis que a crise ameaça resolver-se por si, ou porventura, o que em princípio dispensa os investimentos, não é? Não exactamente. Rigoroso, o dr. Teixeira dos Santos mencionou o "fim desta crise": a próxima, pelo menos para nós, começa já a seguir.

Felizmente, ou não fossem as crises "oportunidades únicas para reformar o sistema", isto nas palavras do ministro, que, se o sistema não o reformar a ele próprio antes, terá inúmeras oportunidades pela frente.

Terça-feira, 30 de Junho
Madoff e outras fraudes

O caso Madoff simboliza a malignidade do capitalismo? Nem tanto. Afinal, o esquema de pirâmide de Bernard Madoff era equivalente ao que os nossos sucessivos governos usam na Segurança Social, um arranjinho sustentado (?) em verbas hipotéticas, especulação, risco, promessas e muitas mentiras. Existem diferenças? Sem dúvida. A primeira é que, ao contrário da Segurança Social, os clientes de Madoff investiam voluntariamente (embora com conhecimento de causa variável). A segunda é que, ao contrário da Segurança Social, a pirâmide de Madoff já implodiu. A terceira é que, ao contrário dos políticos caseiros que legalizaram e perpetuam a Segurança Social que temos, Madoff foi preso, julgado e condenado a 150 anos de prisão.

A propósito, e entre parêntesis, é interessante reparar na deriva castigadora que vai por aí, com gente que costuma relativizar a culpa de assassinos e que descrê nas capacidades redentoras das cadeias a celebrar a eternidade a que o financeiro americano se viu condenado. Pelos vistos, as objecções de princípio à prisão perpétua (e à pena capital?) possuem limites, nos quais os "ricos", por oposição aos criminosos "pobres", combatentes "ideológicos" e etc., não cabem.

Ainda entre parêntesis, também convirá notar que os méritos atribuídos a Obama na punição "exemplar" de Madoff são um nadinha exagerados, sobretudo se tivermos em conta que o punido financiava até há poucos meses o Partido Democrata e que os alertas para as respectivas fraudes remontavam, no mínimo, a 2005.

Fora de parêntesis, vale a pena contar a história de Ian Thiermann, um californiano de 90 anos e reformado há 25 que perdeu as poupanças de uma vida (mais de quinhentos mil euros) nas trafulhices de Madoff. Descontadas estas, Thiermann provavelmente sabia do "jogo" que esse tipo de investimento representava. Talvez por isso, talvez por carácter, não se queixou a ninguém, incluindo ao Estado: pediu, e conseguiu, emprego numa mercearia da sua cidade, onde trabalha 30 horas por semana a dez dólares por hora. Claro que o episódio é triste. Mas é, igualmente, a prova de que a decência e o esforço individual estão mais próximos do que pretendem certas fraudes do tempo, algumas bem maiores que a de Madoff.

Quinta-feira, 2 de Julho
Irão, contras e prós

Desde que os ocidentais desistiram de combater Ahmadinejad através da Internet, a minha fonte de informação acerca do Irão é o Avante! Também não informa muito, mas ao menos diverte, sobretudo se tentarmos decifrar a posição do PCP sobre a situação local.

Vejamos. Por um lado, chama ao regime "despótico"; por outro, sugere que as eleições foram legítimas. Por um lado, aplaude o povo que contesta "pacífica mas energicamente o líder espiritual Khamenei e os seus fantoches no Governo"; por outro, insinua que as manifestações são instigadas "pelos americanos". Por um lado, subscreve o modo como os manifestantes venceram "o medo e a repressão" e exigem "liberdade e democracia"; por outro, cita com preocupação um "plano da CIA" para "desestabilizar e eventualmente derrubar" os aiatolas. Por um lado, condena a polícia que mata e espanca os que criticam Ahmadinejad; por outro, lembra a censura dos media anglo- -americanos ao "apoio popular" e os "gigantescos comícios" de que Ahmadinejad beneficia. Por um lado, considera os protestos populares uma "oportunidade que não se pode desperdiçar na contestação a um regime despótico, que internamente promoveu privatizações em sectores essenciais"; por outro, louva a capacidade de o regime se opor ao "capital multinacional e os seus serventuários nos governos das principais potências". Etc.

Se bem percebo, o PCP distingue dois tipos de regimes: os que oprimem as próprias populações (os bons ou toleráveis) e os que não oprimem (os irremediavelmente maus). Se bem percebo, não é novidade, embora nunca tivesse sido assumida com uma esquizofrenia tão lúcida.

Sábado, 4 de Julho
Depois da faena dá-se a volta à arena

Já se disse demasiado sobre o gesto tauromáquico (digamos) de Manuel Pinho, sobre a pressa de Francisco Louçã em enfiar a carapuça (digamos) dirigida a Bernardino Soares e sobre a urgência suicida de um Governo que, se não beneficiasse de dois meses de praia e langor pelo meio, dificilmente chegaria a Setembro. De resto, não era necessário o debate do estado da Nação para mostrar o estado actual dos sujeitos que mandam nela, e quanto à "vergonha" da insólita imagem ter chegado à imprensa internacional, hesito entre o que será menos embaraçoso de justificar a um estrangeiro civilizado: os cornos que o dr. Pinho mostrou ao deputado comunista ou o facto de possuirmos deputados comunistas.

Por mim, achei a entrevista do ex-ministro à SIC Notícias mais reveladora que a lide parlamentar do ministro. Em vinte minutos de conversa teoricamente destinada a exibir arrependimento, o dr. Pinho soltou o "lado humano" e exibiu o curioso espécime que tutela a nossa Economia desde 2005.

O dr. Pinho, que "resolveu" o "negócio" das minas de Aljustrel cinco minutos antes de o anunciar às câmaras de televisão, "sente" que "deu algo de volta a um país" que "adora". Defende que "o português" é "gente muito boa". "Admira imensíssimo" o eng. Sócrates. Fora de Portugal, admira imenso o Presidente Lula, visto que fazem anos com um dia de diferença e este ano "apagaram as velas juntos". Queixa- -se do sistema nacional de saúde, e lembra que a operação aos olhos de uma familiar "correu pessimamente" e a Ordem dos Médicos nunca lhe respondeu a uma carta, a ele, que "foi ministro durante quatro anos e meio". Tem "muito orgulho em ter participado num governo que fez reformas extremamente importantes" e que quis "rasgar algumas situações". Refere quatro reformas "fantásticas": a Segurança Social ("um acto de grande generosidade deste governo"); o ensino ("os miúdos que têm aulas durante todo o dia, que têm aqueles computadores, o inglês, isso tudo…"); as leis laborais ("houve o bom senso de criar um mercado de trabalho mais flexível"); e, "passe a imodéstia", as energias renováveis, cuja importância explicou detalhadamente: "É através das energias renováveis que Portugal é mais admirado a nível internacional." Porquê? Porque "o grande desafio que temos neste século é a questão das 'alterações climáticas', e se nada se fizer até ao fim do século a temperatura média do planeta aumenta seis graus". Jura? E? "É catastrófico, os nossos bisnetos vão ter de emigrar para outro planeta."

Evidentemente, há muito que o dr. Pinho não vive neste.


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