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ANSELMO BORGES

Martini: o outro Papa?

por ANSELMO BORGES  

Quanto ao celibato, o Cardeal Martini afirma que é preciso caminhar no sentido da opção livre

Lembro-me de há anos um professor de Teologia, em Tubinga - encontrava-me lá na altura -, aquando da proibição pelo Vaticano de homilias feitas na Missa por leigos e leigas, ter feito apelo à greve às Missas no Domingo seguinte. Aquando da expulsão do bispo de Nampula, em 1974, os padres, porque a Diocese estava de luto, fizeram greve às celebrações litúrgicas da Semana Santa. Agora, foram padres da República Centro-Africana que anunciaram - depois, fizeram marcha atrás - que, como sinal de respeito e carinho para com o arcebispo de Bangui, P. Pomodino, destituído pelo Vaticano, bem como Fr.-X. Yombandje, Presidente da Conferência Episcopal, por terem mulher e filhos, não celebrariam sacramento algum.

Entretanto, a Cúria Romana apressa-se a estabelecer penas mais severas para os padres que violem a promessa de castidade ou a doutrina oficial.

Independentemente da questão da greve religiosa, é-se hoje convocado para alguns problemas complexos da Igreja institucional, que exigem debate livre, plural e responsável. Entre eles, a questão da democracia interna, da igualdade das mulheres, da sexualidade e, neste domínio, concretamente, da lei do celibato obrigatório para os padres.

Neste contexto, evoco o Cardeal Carlo Martini, biblista eminente, antigo arcebispo de Milão, apontado por muitos como "papabile", no seu último livro. O padre Luigi Verzé encontrou-se com ele de Fevereiro a Abril deste ano, e, das suas conversas, nasceu o livro Siamo tutti nella stessa barca (Estamos todos no mesmo barco), que acaba de ser publicado.

Martini começa por confessar o sofrimento que lhe causa "o facto de ver que a cultura do mundo avança com um passo mais veloz do que o da Igreja oficial". Exemplificando com a biologia, depois de afirmar que o embrião não pode ser considerado "de modo puramente instrumental", também diz que compreende que "se ponha hoje o problema de tantos embriões destinados um dia a morrer congelados e que poderiam ser utilizados para a investigação".

Precisamente quanto ao celibato, reconhecendo que é "uma questão delicadíssima", afirma que é preciso caminhar no sentido da opção livre: "Creio que o celibato é um grande valor, que permanecerá sempre na Igreja: é um sinal evangélico. Mas isto não significa que seja necessário impô-lo a todos. Aliás, nas Igrejas orientais católicas já não é exigido a todos os sacerdotes". Alguns bispos propõem ordenar homens casados com experiência e maturidade. Martini chama a atenção para o perigo do clericalismo, acrescentando: "Estou certo de que haverá sempre muitos que optarão pela via celibatária. Porque os jovens são idealistas e generosos. Mas há no mundo algumas situações particularmente difíceis, especialmente nalguns continentes. Penso que compete aos bispos desses países apresentar estas situações e encontrar soluções".

O cardeal confessa, em comunhão com Verzé, que há múltiplos problemas que mostram uma Igreja "demasiado afastada da realidade". Outro exemplo disso é a sua atitude para com os católicos divorciados e recasados, que se encontram entre "as muitíssimas pessoas que na Igreja sofrem porque se sentem marginalizadas". Evidentemente, é preciso distinguir, pois "não devemos favorecer a leviandade nem a superficialidade, mas promover a fidelidade e a perseverança. No entanto, há alguns que se encontram hoje numa situação irreversível e sem culpa. Talvez tenham contraído novos deveres para com os filhos do segundo casamento, não havendo nenhum motivo para voltar atrás; pelo contrário, esse comportamento não seria adequado. Assumo que a Igreja deve encontrar soluções para estas pessoas".

A eleição dos bispos merece igualmente atenção. É uma questão muito complexa, mas o actual modo de elegê-los "deve ser melhorado". O problema existe e "deve poder fazer-se uma discussão pública sobre o tema".

Martini não é o outro Papa, no quadro de uma cisão na Igreja. Ele exprime a sã multiplicidade de opiniões na Igreja. Como ele próprio diz, "é necessário que a Igreja toda se ponha a reflectir e, guiada pelo Papa, encontre vias de saída".


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4 Comentários


tukakubana

13 Jun 2009, às 19:24 - Portugal - Funchal

É muito bom que pessoas com obra feita e editada na Igreja, comecem a exprimir, publicamente, a sua opinião. É que nem todos têm acesso aos livros do cardeal Martini. Mesmo em Portugal há vozes que vão avisando, opinando, tentando diluir os tabus da Igreja Católica. Pessoas responsáveis, são sempre responsáveis.É melhor a escolha livre do celibato, que vermos Padres em situações dúbias de relacion


humbert

13 Jun 2009, às 13:59 - Portugal

O Homem não é hóspede é até encontrar outra Humanidade o dono da casa.


Francisco Tavares

13 Jun 2009, às 11:45 - Portugal - Setúbal

Totalmente de acordo, caro ex-colega de instituição. É evidente que a diferenciação vai deixando de existir à medida, a homogeneização avança. Outra coisa não podia ser nesta era em todos acedemos à informação e ao conhecimento instantaneamente, em que os mitos e as verdades feitas se desvanecem. Parabéns pelo texto.


Nuno Gomes

13 Jun 2009, às 07:49 - Portugal - Castelo Branco

Com certeza que a Igreja Oficial,guiada pelo Espirito encontrará soluções para estes e outros problemas. Mas todos sabem da leviandade e superficialidade de muitos DITOS católicos com que se servem da Igreja! Veja-se o que acontece nos baptizados,nas primeiras comunhões,nos casamentos e até nos funerais! Encara-se os sacramentos como uma diversão! Isto tem que ser dito!


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