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José Saramago

Corpo de Deus

por José Saramago  

Também lhe chamam Corpus Christi e é "dia de preceito" para os católicos, além de feriado oficial. Todos os fiéis deverão ir à missa (ser "dia de preceito" a tal obriga) para dar testemunho da presença real e substancial de Cristo na hóstia. E nada de pôr-se com dúvidas sobre a divina presença na pastilha ázima como sucedeu a um sacerdote chamado Pedro de Praga, no século XIII, não seja que se repita o tremebundo milagre de ver a hóstia transformar-se em carne e sangue, não simbólicos, mas autênticos, e ter de levar outra vez a sanguinolenta prova em solene procissão para a catedral de Oviedo, como complacentemente no-lo explica Wikipedia, fonte a que neste difícil transe tive de recorrer. O mundo era interessantíssimo naquele tempo. Hoje, o milagre de recuperar a economia e a banca passa por imprimir milhões de dólares a uma velocidade de vertigem e pô-los a circular, preenchendo assim um vazio com outro vazio, ou, por palavras menos arriscadas, substituindo a ausência de valor por um valor meramente suposto que só durará o que durar o consenso que o admitiu.

Mas não era da crise que eu queria escrever. Em todo o caso, como já se vai ver, a menção ao Corpo de Deus não foi gratuita nem simples pretexto para fáceis heresias, como costumam ser as minhas, segundo canónicas e abalizadas opiniões. Há alguns dias, no 28 de Maio para ser mais exacto, um boliviano de 33 anos, de nome Fraans Rilles, emigrante "sem papéis" e sem contrato, que trabalhava numa padaria em Gandia (Espanha), foi vítima de grave acidente, uma máquina de amassar cortou-lhe o braço esquerdo. É certo que os patrões tiveram a caridade de o levar ao hospital, mas deixaram-no a 200 metros da porta com uma recomendação: "Se te perguntam, não digas nada da empresa". Como seria de esperar, os médicos pediram o braço para tentar reimplantá-lo, mas tiveram de desistir da ideia perante o mau estado em que se encontrava. Tinham-no atirado ao lixo.

Afinal, eu não queria escrever sobre o Corpo de Deus. Como é meu costume, uma coisa levou a outra, mas era do Corpo do Homem que eu pretendia realmente falar, esse corpo que, desde a primeira manhã dos tempos, vem sendo maltratado, torturado, despedaçado, humilhado e ofendido na sua mais elementar dignidade física, um corpo a quem agora foi arrancado um braço e a quem foi ordenado que se calasse para não prejudicar a empresa. Espero que os fiéis que hoje acorreram à missa e leram a notícia no jornal tenham tido um pensamento para a carne sofridora e o sangue derramado deste homem. Não peço que o ponham num altar. Só peço que pensem nele e em tantos como ele. Diz-se que todos somos filhos de Deus. Não é verdade, mas com esta falsidade se consolam muitos. Deus não valeu a Fraans Rilles, vítima da máquina de amassar pão e da crueldade da gente sem escrúpulos que explorava a sua força de trabalho. Assim vai o mundo e não haverá outro.


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6 Comentários


joao americo oliveira ramos

14 Jun 2009, às 18:21 - Brazil

José Saramago, a quem amo como escritor e respeito e admiro como homem, tem o direito de ser agnóstico. E não deixa, por isso de ter nossa admiração. Mas incide em erro ao desprezar a crença de muitos, que nem por isso deixam de lhe querer bem. Saiba, amigo, me permita chamá-lo assim, Deus ama a todos os homens, incluindo os agnósticos.


rouxinoldebernardim

14 Jun 2009, às 11:17 - Portugal - Porto

Há que respeitar as crenças dos outros. Qualquer dia farei o« evangelho segundo Sócrates», mas o de Saramago tem o charme discreto de um agnosticismo atento... cmpts


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13 Jun 2009, às 23:32 - Portugal - Porto

Este señorito españolito Saramago, tão humanitário, tão sensível e tão irónico em relação a Jesus Cristo, não é a mesma pessoa que há dias tratou outro ser humano (Silvio Berlusconi) de "vírus" e de "vómito" que "devia ser erradicado"? E o sr. provedor do leitor do DN acha bem? Algumas pessoas gozam de imunidade por serem progressistas e de esquerda, não é?


Pedro Claro

13 Jun 2009, às 19:15 - Portugal - Lisboa

Se, como era sua obrigação, o sr Saramago pagasse o seu IRS em Espanha em vez de andar com truques fiscais, talvez o país que o acolhe e que ele diz tanto adorar tivesse melhores condições de tratar dos seus emigrantes Pedro


Francisco Leite Monteiro

13 Jun 2009, às 16:33 - Portugal - Lisboa

Tantas palavras para, na arrogância da estilística rebuscada, também ela quiçá tremebunda, não sem alguma aleivosia, dizer tão pouco e, intencionalmente ou não, impropriamente designando por “pastilha” a hóstia sagrada, o que não pode deixar de se considerar impróprio e, obviamente, repudiar.


Jorge Manuel Vera de Carvalho

13 Jun 2009, às 10:55 - Netherlands

O que Sr. omite é a defenição de escravatura,que de forma refinada se pratica hoje.Mas o absurdo é que os proventos déssa mão de obra quase grátis, se sustenta e engorda toda a sagráda familia com as contribições dos exploradores.Pois é,o dinheiro não tem cor e pensa eles que compram um lugar no céu como quem compra uma cadeira num qualquer estadio de futebol.Hipócrisia a nova filósofia?



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