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José Saramago

Laicismo

por José Saramago  

Anda acesa a questão do laicismo, a meu ver em termos não muito claros, porquanto parece querer ignorar-se a questão fundamental que subjaz ao debate: crer ou não crer na existência de um deus que, não só terá criado o universo e portanto a espécie humana, como virá a ser, no fim dos tempos, o juiz dos nossos cometimentos na terra, premiando as boas acções com a admissão num paraíso em que os eleitos contemplarão a face do Senhor durante toda a eternidade, enquanto, também por toda a eternidade, os culpados de acções más arderão no inextinguível fogo do inferno. Esse juízo final não será fácil, nem para deus nem para os que vão ter de prestar contas, pois não se conhece um único caso de alguém que, em vida, tenha cometido exclusivamente boas acções ou más acções. O próprio do homem é a inconstância nos propósitos e nos actos, sempre a contradizerem-se de uma hora para a outra. No meio de tudo isto, o laicismo aparece-me mais como uma posição política determinada mas prudente que como a emanação de uma convicção profunda da não existência de deus e portanto da impertinência lógica das instituições e dos instrumentos que pretendem impor o contrário à consciência da gente. Discute-se o laicismo porque, no fundo, se teme discutir o ateísmo. O interessante do caso, porém, é que a Igreja Católica, na sua velha tradição de fazer o mal e a caramunha, anda por aí a queixar-se de ver vítima de um suposto laicismo "agressivo", nova categoria que lhe permite insurgir-se contra o todo fingindo atacar apenas a parte. A duplicidade sempre foi inseparável das tácticas e das estratégias diplomáticas e doutrinais da cúria romana.

Seria de agradecer que a Igreja Católica Apostólica Romana deixasse de meter-se naquilo que não lhe diz respeito, isto é, a vida civil e a vida privada das pessoas. Não devemos, porém, surpreender-nos. À Igreja Católica importa pouco ou nada o destino das almas, o seu objectivo sempre foi controlar os corpos, e o laicismo é a primeira porta por onde começam a escapar-lhe esses corpos, e de caminho os espíritos, já que uns não vão sem os outros aonde quer que seja. A questão do laicismo não passa, portanto, de uma primeira escaramuça. A autêntica confrontação chegará quando finalmente se opuserem crença e descrença, indo esta à luta com o seu verdadeiro nome: ateísmo. O mais são jogos de palavras.


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3 Comentários


Nuno Gomes

04 Jun 2009, às 19:32 - Portugal - Castelo Branco

Parece-me que Saramago quer permanecer íncrédulo até ao fim dos seus dias.Cada um sabe de sí.Num tempo,em que até a própria ciência já não descarta a "possíbilidade da existência dum Ser Criador",aí temos Saramago no seu conhecido ateísmo puro e duro.Mais um grande queixoso da Igreja!Mas esta,está na vanguarda do bem-fazer pela humanidade! E o ateísmo? Qual é a sua vanguarda?


Marco Oliveira

04 Jun 2009, às 11:01 - Portugal - Lisboa

Um ateísmo que se limita a rejeitar crenças religiosas patéticas, será sempre um ateísmo patético. É por isso que Saramago nunca chegará aos calcanhares de Richard Dawkins


Marco Oliveira

04 Jun 2009, às 11:00 - Portugal - Lisboa

Neste texto, experimente-se substituir a expressão “Igreja Católica” por “Partido Comunista”, "Deus" por "Comité Central", “Ateísmo” por “Liberdade” e “Laicismo” por “Democracia”. Então encontraremos os verdadeiros medos de J.Saramago.



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