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por João César das Neves
Passa este ano o cinquentenário de um dos acontecimentos mais influentes do nosso tempo. Foi a 25 de Janeiro de 1959 que o papa João XXIII, eleito há menos de três meses, anunciou a convocação de "um concílio geral para a Igreja universal". Perto do Pentecostes, que nesse ano caiu a 17 de Maio, o pontífice formulou a esperança que o futuro concílio viesse a ser "um novo Pentecostes" para a Igreja.
Inaugurado a 11 de Outubro de 1962, após longa preparação, o Concílio Vaticano II foi encerrado a 7 de Dezembro de 1965. As suas quatro sessões ocuparam apenas 280 dias, escassas 40 semanas, mas os resultados foram magníficos, tal como o entusiasmo que o anúncio de João XXIII criou por todo o mundo.
A movimentação global que gerou e a sublime qualidade dos textos que produziu chegam para o marcar como um dos grandes momentos da história humana. Mas o mais importante são os seus efeitos, que vão sentir-se durante séculos. A Igreja Católica mudou nesses poucos meses mais do que alguém podia imaginar há 50 anos. Transformou os seus ritos e organização, purificou e avivou o conteúdo, com frutos que ainda hoje estão longe de estar totalmente revelados. Nem o Papa que o intuiu podia prever uma coisa assim.
Após 200 anos de perseguições, a Igreja tinha-se tornado defensiva, fechada, quase abafada. João XXIII pretendeu abrir as janelas e deixar entrar o ar. O que se fez foi muito mais, uma verdadeira repintura e redecoração de todo o edifício eclesial. É verdade que os anos do Concílio foram também conturbados e dolorosos. Não faltaram os que, em vez da renovação do mobiliário, pretendiam fazer obras radicais na construção da Igreja e até uma mudança de instalações, sem se darem contra da terrível traição que isso representaria.
A Igreja não é o conjunto dos seguidores dos ensinamentos de Cristo, morto há 2000 anos. É o corpo daqueles que convivem diariamente com Jesus, vivo e ressuscitado, que acompanha o seu povo a cada passo. Deste modo, a renovação católica nunca pode ser uma reinterpretação de textos antigos à luz da cultura contemporânea, mas uma fidelidade acrescida a uma Pessoa que permanece. Os santos, mas também os pecadores, são o testemunho vivo dessa Presença.
A Igreja reformou-se, as críticas permaneceram. Porque o Cristianismo não é uma lista ajustável de valores, de onde se escolhe um punhado para uso pessoal. É "nascer do Alto" (Jo 3, 3 e 7). Nem os cristãos nem os Papas podem modificar aquilo que receberam. Apenas pretendem torná-lo mais puro e fiel, eliminando as opiniões que se foram infiltrando na doutrina. A grande tentação, que se sentiu forte nesses anos, é substituir o Espírito pelo palpite pessoal e confundir actualização da linguagem com mudança na Palavra.
Qualquer concílio da história da Igreja só ganha sentido numa dualidade com o pontificado que o leva à plenitude. Tal como Trento só se entende com S. Pio V, eleito mais de dois anos depois do fim do grande concílio, foi com João Paulo II que o Vaticano II atingiu a sua perfeição. O magistério daquele Papa que nos incitou a não ter medo de abrir as portas a Cristo é que nos explicou o verdadeiro sentido e as múltiplas dimensões desse ensinamento. Foram os intensos e profundos 26 anos desse pontificado que, depois das intuições do grande João XXIII e do rigor do grande Paulo VI, criaram a Igreja conciliar. Bento XVI preside a uma Igreja que vive e respira o Concílio. Isso foi patente há pouco num outro Cinquentenário.
O santuário de Cristo-Rei, em Almada, foi inaugurado no dia de Pentecostes de 1959. No passado dia 17 de Maio, a multidão que acorreu às celebrações comemorativas era semelhante à que tinha estado presente na inauguração, cinco décadas antes. Desta vez não se pode aplicar a justificação que os críticos costumam apresentar. Um movimento daqueles já não é explicável pela boçalidade e ignorância do povo ou pela subserviência tacanha ao poder instalado. Só pode ser aquela Presença que tantos se recusam a ver, apesar da estátua de 28 metros.
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