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ANSELMO BORGES

Que se entende por saúde?

por ANSELMO BORGES  

Houve também quem propusesse o ideal de saúde como o estado de bem-estar para poder trabalhar e gozar

Submetida à racionalidade instrumental, a sociedade moderna criou a ilusão da omnipotência e da possibilidade da eliminação de todo o mal. Foi este projecto de domínio total que viciou a própria concepção de saúde. A OMS propôs a seguinte definição: "A saúde é um estado de bem-estar completo, físico, espiritual e social, e não apenas a ausência de doença e enfermidades." Houve também quem propusesse o ideal de saúde como o estado de bem-estar para poder trabalhar e gozar.

A esta concepção está subjacente o ideal de uma sociedade perfeita e sem conflitos, de uma vida sem dor e sem sofrimento, e até a utopia de uma existência sem morte. Mas este culto idolátrico da saúde enquanto "estado" de bem-estar total não só implica uma sobrecarga incomportável para a medicina como marginaliza a pessoa na sua experiência inevitável de finitude e corre o perigo de acabar por excluir socialmente os doentes, os velhos e moribundos. Não será por acaso que esta definição de saúde não menciona a morte, que, neste, modelo, só pode ser sofrida como fracasso sem sentido.

Assim, frente a uma concepção exclusivamente objectiva de saúde, muitos, sem excluir, evidentemente, o ideal de bem-estar completo, fazem, com razão, apelo também à atitude subjectiva e pessoal do Homem. Neste sentido, Jürgen Moltmann escreveu que a saúde designa o processo de adaptação, a capacidade de reagir às mudanças do meio, de envelhecer, de curar-se, de ir em paz ao encontro da morte. "A saúde não é a ausência de perturbações, a saúde é a força de viver com elas", "a força de viver humanamente".

Esta força de existir humanamente implica a capacidade de viver e encontrar sentido tanto na alegria como no sofrimento, de dizer um sim decidido à alegria de viver, que não exclui a aptidão para integrar o sofrimento e a própria morte. Só uma existência com sentido, isto é, uma vida amante e amada poderá reconciliar-se e encontrar sentido para a morte.

A força da existência autenticamente humana saúda os benefícios incontáveis da medicina moderna e contemporânea, mas não esquece que o acto médico é, antes de tudo, um pacto de aliança, baseado na confiança, entre dois seres humanos - o médico e o doente. Não se trata de um mero encontro entre um técnico especialista (o médico), de um lado, e uma máquina desarranjada (o corpo do doente), do outro. De facto, o Homem não está cindido em corpo e alma, como pensou Descartes, na origem da modernidade, e para quem o corpo não era, em última análise, senão uma máquina, como os animais não passavam de máquinas.

Neste pacto, o doente, que continua a ser um ser humano integral, na unidade tensa e viva de inconsciente, consciente, corpóreo, afectivo, psíquico, espiritual, espera certamente do médico e dos profissionais de saúde em geral competência científica e técnica, mas que também não esqueçam a sua própria humanidade integral. Assim, a uma medicina que, dados os seus prodígios desde o século XIX, corre o risco da unidimensionalidade científico-técnica, é necessário lembrar o princípio da humanitariedade, segundo o axioma ético-médico: "salus aegroti suprema lex" (a lei suprema é a saúde, também no sentido de 'salvação', do doente).

Isso é dito aliás na própria palavra saúde, no seu étimo. Saúde vem do latim salute, que significa simultaneamente saúde e salvação.

Neste contexto de saúde em sentido holístico - lembrar que nas línguas anglo--saxónicas, saúde (health, em inglês, em conexão com holy - santo -, e, em alemão, heilen - curar -, em conexão com heilig - santo - e heil - são; também em português, há ligação entre são e santo, de tal modo que se diz, por exemplo, São João, para dizer que o santo só pode ser um ser humano pleno e íntegro) remete para the whole (o todo) -, e, conhecendo-se hoje, segundo dados científicos, a influência da religião e da espiritualidade na cura e na saúde, não se percebe o atraso hesitante na legislação governamental em ordem à admissão de ministros dos diferentes cultos na assistência religiosa dos doentes. É normal que se exija que sejam pessoas capazes e com formação adequada.


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6 Comentários


Luis Cagica

31 Mai 2009, às 12:07 - Portugal - Faro

A DPOC (Doença Pulmonar Obstruriva Crónica) é provocada a 80% pelo consumo de tabaco, provocando uma das maiores causas de morte no nosso País. É uma doença altamente incapacitante e penalizadora para o doente e para os seus familiares. Ao contrário de outras doenças crónicas, os medicamentos não são grátis e poucos têm genéricos. O Oxigénio que é o essencial como factor de tratamento e suporte de vida, além de não ser comparticipado em alguns Sistemas de Saúde (ADSE, por ex.) não é distribuído em muitas Regiões do País. É um escandalo !!! O Estado que obtém Milhões com os Impostos provenientes do tabaco, pouco ou nada investe no tratamento e acompanhamento desta doença. As Reformas por Invalidez Absoluta são altamente penalizantes para quem é portadar deste flagelo. Os lobbies das taqueiras continuam a funcionar menosprezando e contrariando todas as políticas de Saúde Pública que possam existir. O Estado não faz contas ao que se perde em absentismo e internamentos hospitalares frequentes. Espero vivamente que o dia de hoje sirva para alertar consciências. POR FAVOR, DEIXEM-NOS RESPIRAR !!!!!


rodrigo de triana

30 Mai 2009, às 16:04 - Portugal - Setúbal

Ó saúde a nossa! Quando os profissionais de saúde praticam o aborto livre nos hospitais com o nosso dinheiro de contribuintes e se preparam agora para praticar também com o nosso dinheiro de contribuintes a eutanásia, será que ainda podemos falar de «saúde»??? Não será antes assitência técnica ou reparação física???


MariaeMaria

30 Mai 2009, às 12:35 - Portugal - Porto

No comentário que enviei, por lapso, escrevi Ministro em vez de Ministra da Saúde. Aliás, tendo pensado melhor, a crítica do último parágrafo parece que se dirige ao Governo enquanto tal. E muito bem!


MariaeMaria

30 Mai 2009, às 12:10 - Portugal - Porto

Mais uma excelente crónica! Muito justa e oportuna a crítica ao Ministro da Saúde no último parágrafo.


Francisco Tavares

30 Mai 2009, às 11:05 - Portugal - Setúbal

O que eu penso, meu caro Anselmo, é que, de facto, não nos devemos resignar à doença, pensando que estar doentes é a vontade de Deus, como sabe a Igreja veiculou essa ideia. Nós não ficamos velhos por uma qualquer fatalidade. Nós envelhecemos por causa das doenças. Por isso, é natural a luta do homem pela sua erradicação. O cancro, por exemplo, pode ser erradicado, tem que ser erradicado.


Nuno Gomes

30 Mai 2009, às 09:43 - Portugal - Castelo Branco

Estou de acordo consigo nesta sua crónica; o mundo contemporâneo habitoou-se a olhar para a saúde,muitas vezes duma forma errada.O atraso hesitante do Governo,para haver assitência religiosa nos hóspitais,só revela um certo laicismo e cínismo por parte dos actuais governantes.


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