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João César das Neves

Deseducação sexual

por João César das Neves  

Aeducação sexual é indispensável na formação de todos. Por isso, as escolas devem interessar-se pelo tema e dar aulas sérias e formativas. Há anos que a questão é discutida nos meios didácticos e políticos e o Parlamento tem analisado sucessivos projectos de lei. Apesar disso, a educação sexual não melhorou nem se prevê que melhore nas próximas décadas em Portugal. Os responsáveis só complicam um assunto que não precisa de ajuda para ser difícil.

A educação política também é essencial e as escolas devem incluí-la. Mas que pensaria se esses programas lectivos fossem baseados nos projectos de um partido minoritário e extremista, por exemplo o Bloco de Esquerda? Que acharia se na escola as crianças e jovens aprendessem que "a energia deve ser pública" (porque não o pão?), que no meio da crise se deve adoptar a semana de 35 horas e palermices semelhantes? Para não falar na ditadura do proletariado e revolução permanente, escondidas nas suas raízes maoístas e trotskistas. Seria um terrível abuso do sistema educativo.

É exactamente essa infâmia que tem sido cometida nos últimos anos no campo da educação sexual escolar. Um grupo de iluminados, defendendo fanaticamente posições extremistas que assumem como únicas razoáveis, tem capturado o ensino impondo essas ideias como "educação sexual". Ideias que, por acaso, são opostas às da maioria das famílias portuguesas, que esses especialistas desprezam como conservadora e tacanha, pretendendo iluminá-la do alto da sua ciência.

De forma sub-reptícia nos corredores do ministério ou abertamente nos debates políticos, tem-se assistido a intensa campanha para coagir a sociedade a seguir alguns princípios, autodenominados de progressistas, justos e livres. Esses princípios são aqueles a que a sociedade até há pouco chamava "porcalhões". As aulas devem mostrar órgãos sexuais às crianças e explicar os detalhes de carícias, coito e contracepção. A masturbação é natural, o impulso sexual deve ser promovido, se praticado com segurança, e há perfeita equivalência entre todas as opções sexuais. Pudor, castidade e matrimónio são disparates.

Já deve ter reparado que no nosso tempo existe uma intensa controvérsia acerca das questões da família e do sexo. Aspectos consensuais há milénios são momentaneamente polémicos e vivemos enorme confusão de valores e critérios. Isso não nos deve escandalizar, porque todas as gerações têm os seus debates fundamentais. Se vivêssemos há uns séculos, ver-nos-íamos envolvidos em discussões, hoje abstrusas, acerca do sistema político, empresarial ou religioso. Aliás são os mesmos activistas revolucionários que, órfãos dessas antigas lutas político-económicas, vêm agora atacar a instituição familiar com a fúria dos velhos combates laborais. A alcova substituiu a empresa e o direito à greve foi trocado pelo direito ao deboche. Os esquerdistas andam agora paradoxalmente aliados a marialvas e proxenetas.

Em consequência, o Governo, incapaz de resolver desemprego e falências, preocupa- -se com a facilitação do divórcio dos casais e a promoção do casamento de homossexuais. Os ministros, que fizeram explodir o défice, subsidiam abortos e querem distribuir preservativos gratuitos nas escolas. O mais incrível é não se darem conta do ridículo. As gerações futuras vão rir à grande com a tolice dos nossos políticos que pateticamente se encarniçam a regular o baixo-ventre.

Devemos terçar armas nas lutas do momento mas sem temer pelos valores vitais. Em breve, as posições extremistas contra o matrimónio e a castidade, hoje julgadas indiscutíveis e gritadas com fúria, serão tão cómicas e obsoletas como são as ideias económicas do Bloco de Esquerda, tão respeitadas há 50 anos (altura em que também o PS as defendia). As tolices acabam sempre vencidas. O mal são as vítimas que criam entretanto.

Felizmente, não são os partidos, deputados e especialistas em educação que dão aulas, mas os professores. Professores que em geral têm filhos e amam a família. O mundo é sempre melhor que a caricatura legal.


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14 Comentários


elogiodaderrota

28 Mai 2009, às 09:53 - Portugal

O comentário merecido ao texto do Professor aqui: http://ermidas.blogspot.com/2009/05/scientia-sexualis-e-joao-cesar-das.html


juvenalcavaleiro

27 Mai 2009, às 18:58 - Portugal - Porto

Mais uma vez parabéns pelo seu artigo. Vem na linha do que em si é habitual. O desnorte no PS é tanto, o mêdo do Bloco é enorme. Os socialistas têm medo de lhes fazer frente. E então fazem-lhe o frete.


trabassos

27 Mai 2009, às 14:27 - Portugal - Braga

Não conheço em concreto qualquer programa partidário sobre a educação sexual. Sobre os preservativos, acho um disparate – de algum sítio há-de vir o dinheiro para os pagar. A questão é muito delicada e não deveríamos enveredar por termos baixos para classificar a opinião de quem quer que seja. No entanto, por algum lado se há-de começar. Já agora, o autor desta crónica (mais os princípios «que a sociedade até há pouco chamava "porcalhões"») podia(m) expressar aqui a forma como deveria ser feita a educação sexual nas nossas escolas. (A boa crítica deve apontar um problema, e soluções para o mesmo). Abraço.


Agridoce

27 Mai 2009, às 12:27 - Portugal - Lisboa

Eu acho uma oportunidade ler estes textos, que não devia ser desperdiçada! É que daqui a uns anos (poucos) este discurso estará em museus para as pessoas lerem e saberem como era "aqui à atrasado"... Está tão completamente fora do seu tempo que se torna ridiculo!


Descarrilado

27 Mai 2009, às 08:46 - Portugal - Porto

Mas afinal quem é mais extremista?


Luzmarinha

26 Mai 2009, às 21:20 - Portugal - Braga

«A educação política também é essencial e as escolas devem incluí-la.»_JCN Bem obsevado!


Justiniano

26 Mai 2009, às 14:26 - Portugal - Lisboa

Castidade, Castidade, Castidade é preciso!


Nuno Gomes

25 Mai 2009, às 20:02 - Portugal - Castelo Branco

Não são as crianças e os adolescentes que têm a maior culpa neste medonho estado de coisas,mas sim os educadores.É toda uma cultura rídicula que se instalou,como era de esperar,também em Portugal.Os srs."especialistas" em educação não sugerem ética na sexualidade;moral,nem falar,porque têm tédio deste termo. A política há-de mudar.As pessoas têm essa esperança.


joao americo oliveira ramos

25 Mai 2009, às 17:59 - Brazil

A educação sexual nas escolas é realmente um assunto importante . Mas politizar uma matéria que deveria estar restrita apenas à área da educação, nos parece tão perigoso quanto a sua discussão pública. Os especialistas na matéria devem sentir-se seguros das medidas a serem tomadas e livres para propô-las sem preconceitos nem pressões de palpiteiros e de desinformados.


trabassos

25 Mai 2009, às 14:36 - Portugal - Braga

Não conheço em concreto qualquer programa partidário sobre a educação sexual. Sobre os preservativos, acho um disparate – de algum sítio há-de vir o dinheiro para os pagar. A questão é muito delicada e não deveríamos enveredar por termos baixos para classificar a opinião de quem quer que seja. No entanto, por algum lado se há-de começar. Já agora, o autor desta crónica (mais os princípios «que a sociedade até há pouco chamava "porcalhões"») podia(m) expressar aqui a forma como deveria ser feita a educação sexual nas nossas escolas. (A boa crítica deve apontar um problema, e soluções para o mesmo). Abraço.


J Rodrigues

25 Mai 2009, às 12:50 - Portugal - Lisboa

Caro professor gosto SEMPRE de ler as suas opiniões, embora algumas, como hoje, pequem pelo exagero e pela generalização. E a propósito, os ministros (actuais) não fizeram explodir o défice, mas sim, reduziram-no e o PS não existia há 50 anos atrás, segundo julgo.


luzinha

25 Mai 2009, às 09:34 - Portugal - Braga

"Felizmente, não são os partidos, deputados e especialistas em educação que dão aulas, mas os professores." JCN Gostei! Parabéns, Professor!


Odegaard

25 Mai 2009, às 09:24 - Portugal - Lisboa

Sobre a forma exacta como se educa sexualmente alguém não sei. Mas será que as pessoas só devem fazer sexo para fazer bebés, como diz a Igreja? A Igreja católica deve saber muito de sexo, pela amostra dos colégios católicos na Irlanda onde ao longo de décadas as crianças eram violadas pelos padres. E qual será a educação «política» da Igreja? Carlos Odegaard, Sintra


Ricardo Ferreira

25 Mai 2009, às 05:47 - Portugal - Lisboa

" As tolices acabam sempre vencidas. O mal são as vítimas que criam entretanto." As "ideias" sobre a sexualidade que a Igreja impôs à sociedade durante séculos são uma tolice. O João César das Neves é uma das vítimas. As aulas de educação sexual, onde não se dirá que a masturbação faz crescer pelos nas mãos, são o sinal de que estas tolices estão a ser vencidas.



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