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ANSELMO BORGES

Que disse o Papa a Deus?

por ANSELMO BORGES  

Apesar das críticas de judeus e palestinianos mais radicais, a viagem de Bento XVI foi considerada um êxito

No Médio Oriente, os judeus pedem a Javé, os cristãos pedem a Deus, os muçulmanos pedem a Alá. Perante a contradição dos pedidos, o que faz Deus? Ele, que é o mesmo para todos, sem acepção de pessoas, só pode exigir a todos respeito mútuo, garantia dos direitos humanos, uma paz justa.

Na sua visita, difícil e mesmo arriscada, à Jordânia, a Israel e aos Territórios Palestinianos, que pediu Bento XVI a Deus? Dobrou uma folha com o seu "segredo", que meteu numa frincha do Muro das Lamentações: "Deus de todos os tempos, na minha visita a Jerusalém, cidade da paz, casa espiritual de judeus, cristãos e muçulmanos, coloco perante ti as alegrias, as esperanças, as aspirações, as provas, os sofrimentos e as dificuldades de todos os povos do mundo. Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob, escuta os gritos dos aflitos, dos angustiados, dos deserdados. Envia a paz à Terra Santa, ao Médio Oriente e a toda a família humana."

É lá que o cristianismo tem as suas raízes. Mas o dogma, a história, a política dividiram os cristãos - coptas, nestorianos, arménios, católicos de rito latino e oriental, ortodoxos -, de tal modo que ainda hoje se assiste até a confrontos físicos por causa dos "Lugares Santos". O Papa apelou ao diálogo ecuménico, pois a divisão é " um escândalo".

Na constatação do êxodo dos cristãos - o seu número tem-se tornado cada vez mais diminuto nas últimas décadas -, pediu aos Governos que garantam o direito da liberdade religiosa, que é "mais que a liberdade de culto", e aos cristãos, tentados pela emigração, exortou-os a que "tenham coragem de ser fiéis a Cristo", permanecendo ali, "difundindo a sua mensagem de paz e unidade".

Com o mal-estar provocado pelo discurso de Ratisbona em fundo, entrou em duas mesquitas - em Amã, a Mesquita al-Hussein bin Talal e, em Jerusalém, a Cúpula do Rochedo -, manifestou o seu "profundo respeito" pelo islão, preveniu para o perigo da "manipulação ideológica da religião": ela "desfigura-se quando é obrigada a pôr-se ao serviço da ignorância e do preconceito, do desprezo, da violência", e exortou os muçulmanos a superar os conflitos do passado e empreender o caminho de um "diálogo sincero" entre religiões. Judeus, cristãos e muçulmanos acreditam no mesmo Deus e têm Abraão como pai comum.

Com o erro do levantamento da excomunhão ao bispo negacionista Wil- liamson em fundo, condenou o anti-semitismo, qualificando-o de "repugnante" e "totalmente inaceitável". No Memorial Yad Vashem de Jerusalém, lembrou as vítimas da Shoah (Holocausto): "Que nunca mais um semelhante horror possa desonrar a Humanidade. Que nunca se esqueça os nomes destas vítimas, que os seus sofrimentos jamais sejam negados, esquecidos ou diminuídos."

Muitos duvidavam, mas ousou condenar, de modo claro, o muro da Cisjordânia, construído por Israel ao longo de quase 800 quilómetros: "Num mundo em que as fronteiras estão cada vez mais abertas ao comércio, às viagens, à mobilidade das pessoas, aos intercâmbios culturais, é trágico ver que ainda se continua a levantar muros."

E, segundo o plano aprovado pela ONU, em 1947, defendeu a existência de dois Estados: o reconhecimento do Estado de Israel dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas e o direito dos palestinianos a uma pátria soberana e independente. "Que a solução dos dois Estados se torne uma realidade!"

Apesar das críticas de judeus e palestinianos mais radicais, a viagem foi considerada um êxito pela maioria dos analistas.

Regressado a casa, Bento XVI terá dito a Deus que fez o que tinha podido, segundo a sua consciência e a dignidade; que fizesse Ele, agora, o resto. Deus terá respondido, lembrando um ditado, julgo que belga, que gosta de ajudar aqueles que O ajudam a Ele.

Passei recentemente pela Síria, Jordânia, Israel e Territórios Palestinianos e pude perceber melhor que o caminho da paz é dificílimo, exigindo um trabalho hercúleo. Mas, como disse Ernst Bloch, a partir de uma palavra enigmática de Heraclito: "Quem não espera o inesperado não o encontrará."


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7 Comentários


Nuno Gomes

24 Mai 2009, às 03:03 - Portugal - Castelo Branco

Como de costume,não podiam faltar comentários odiosos á Igreja. Fala-se agora dos abusos na Irlanda. A história da Igreja é feita de santos e de pecadores.É de facto um doloroso espinho para a Igreja estes casos.Mas há por aí gentinha que se enpenha mais em apontar os erros da Igreja do que as suas virtudes.Srs.trabassos e tinderstick julgam a Igreja? Rezem também por Ela !


tinderstick

23 Mai 2009, às 16:36 - Portugal - Coimbra

d)... autocarros bombistas italianos ou de um país vizinho, lhe entrasse portas adentro e liquidasse centenas e centenas de pessoas.... e) quanto ao Ernst Bloch, não ha dúvida, um "filósofo ateu religioso" (A.Borges dixit) formado nas escolas retóricas, pois então.


tinderstick

23 Mai 2009, às 16:34 - Portugal - Coimbra

b) ...uma mesquita; c) já vai sendo rotina os Papas manifestarem pesar pelo holocausto, e outros crimes contra a Humanidade, mas a verdade é qiue tentaram a todo o custo que o relatório sobre abusos sexuais a menores por padres na Irlanda nao fosse divulgado; d) quanto á questão do muro erguiido pelos judeus, e de o Papa considerar trágico, gostava de saber que faria o Vaticano, se todos os dias


tinderstick

23 Mai 2009, às 16:30 - Portugal - Coimbra

E voliá: a) isso de deus exigir respeito, paz justa e outros clichés é conversa fiada, uma visão teológica medieval; aliás, nas aulas que lecciona , este senhor afirma que o "deus popular" é coisa de menos, o que conta é o "deus culto"; b) isso de o Papa dizer ter um "profundo respeito" pelo Islão entra em contradição com o FACTO de o mesmo não se ter dignado a descalçar-se aquando da visita a


joao americo oliveira ramos

23 Mai 2009, às 15:24 - Brazil

Bento XVI propõe o perdão. Pediu a judeus, muçulmanos e cristãos que "promovam uma cultura de reconciliação e paz, mesmo que este processo possa ser muito difícil e doloroso e seja qual for o peso das memórias do passado". "Não deve haver lugar nessas muralhas para estreiteza, discriminação, violência e injustiça", disse o papa. Será que ele não está ajudando a Deus ?


Nuno Gomes

23 Mai 2009, às 08:50 - Portugal - Castelo Branco

As duas grandes vírtudes deste papa,humildade e coragem,juntando-as à sua grande sapiência,fazem dele um líder espíritual à altura dos tempos que correm.


trabassos

23 Mai 2009, às 07:19 - Portugal - Braga

«No Médio Oriente, os judeus pedem a Javé, os cristãos pedem a Deus, os muçulmanos pedem a Alá. Perante a contradição dos pedidos, o que faz Deus?» E porque não: o que faz Javé?; ou, Alá? «Ele, que é o mesmo para todos», Ele quem? Deus (ou Javé ou Alá) é um Homem? Onde está? O Papa fala com Ele? Só o Papa… e mais ninguém? «Mas o dogma, a história, a política dividiram os cristãos (…)». Quem mais que os católicos (e todas as religiões) se escondem atrás dos dogmas e dos santos e dividem os cristãos? Não haverá diálogo ecuménico enquanto as religiões continuarem a ser um negócio; Cristo não se pavoneava de papamóvel nem usava guarda-costas. Exmo. Sr. Anselmo Borges, deixo-lhe uma sugestão para próximos artigos: «Cerca de duas mil crianças foram vítimas de abusos sexuais na Irlanda por parte de pessoas ligadas à Igreja Católica.» É só mais um que veio ao de cima. A Igreja católica devia pensar seriamente na educação sexual dos padres e outros responsáveis. Tem aqui muito que escrever. As viagens do Papa são folclore. Abraço.


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