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por Alberto Gonçalves
O PS parece apostado em salvar uma campanha até ver desastrosa mediante a insistência no martírio do candidato
Segunda-feira, 4 de Maio
A vítima Vital
Portugal é como aquelas festas chatíssimas em que só acontece alguma coisa depois de sairmos. Mal aterrei no lado oposto do Atlântico, uma mensagem no telemóvel informava-me que Vital Moreira havia sido agredido e insultado na manifestação da CGTP do 1º de Maio. A festa, portanto, aquecia. Ainda que, inexplicavelmente, os media americanos teimem em ignorar a existência do prof. Vital, tenho seguido o assunto pela Internet e constatado que a festa continuou a aquecer semana afora.
Ao que as escassas visitas aos sites nacionais me permitem apurar, o PS acusa a CGTP e o PCP pela agressão e exige desculpas, a CGTP desculpa os agressores e pede desculpas pela agressão, o PCP acusa o PS por acusar o PCP e, naturalmente, exige desculpas. À revelia da indignação do PS, começou a constar que elementos do Bloco de Esquerda também participaram na folia.
Não vale a pena comentar sujeitos que andam em matilha a insultar o seu semelhante (ou, literalmente, ex-semelhante). Quem insulta sozinho pelo menos possui outra dignidade (e, admito, outras hipóteses de detenção policial ou internamento psiquiátrico). Vale notar a imediata evocação da Marinha Grande feita pelo prof. Vital logo no momento do incidente.
O episódio das agressões a Mário Soares naquela localidade, em 1985, fundou uma crença irrevogável entre os agentes do país político: candidato que leve uns sopapos em campanha tem a eleição garantidamente ganha. Apesar da rima, duvido. A ideia, assaz cristã, de que o sacrifício é indicador de virtude aos olhos do eleitorado parte de dois pressupostos discutíveis: o primeiro é que o êxito de Soares após os sopapos não se deveu a uma série de factores circunstanciais e irrepetíveis; o segundo é que o eleitorado é estúpido.
O PS acredita furiosamente em ambos e parece apostado em salvar uma campanha até ver desastrosa mediante a insistência no martírio do candidato, o qual, graças aos borrifos e ofensas, elevou dentro da sua cabeça o estatuto superior que se atribui desde a nomeação. Eleitoralmente, o PS lá saberá o que faz. Moralmente, o PS não sabe o que diz, e, a propósito de balbúrdias públicas, não lhe fica bem queixar--se em demasia do "ódio" dos comunistas. Como se verificou há cinco anos, em Matosinhos, o amor dos socialistas pelo antecessor do prof. Vital teve consequências um bocadinho mais trágicas do que um fato molhado e o ego cheio.
Um sabonete
Acho absurdo comparar Barack Obama a um qualquer ídolo pop. É verdade que alguns ídolos pop também dão o nome, o rosto ou os slogans a peças de roupa, chocolates, canecas, porta-chaves, pastilhas elásticas, guarda-chuvas, ímanes de frigorífico, postais e bonecos de peluche. Mas muito poucos, ou nenhuns, têm secções de livrarias que lhes são exclusivamente dedicadas, os jornais que noticiam os seus feitos emoldurados nas lojas e lugar cativo e diário na capa das principais publicações americanas. Pelo menos em Nova Iorque, Obama é uma indústria ou nas recentes palavras da secretária da Casa Branca para os Assuntos Sociais, "a melhor marca do mundo" (extasiada, a senhora equivaleu Obama ao sabão Dove).
De facto, não me lembro de a cidade ser tão reverencial a um inquilino da Casa Branca, mesmo que democrata, mesmo que Clinton. Sou do tempo em que apenas os quiosques de Greenwich Village comercializavam cartazes e T-shirts com George W. Bush, embora invariavelmente o representassem como um tonto ou um perigoso manipulador (o paradoxo parecia escapar aos comerciantes e ao público). As representações do actual presidente oscilam entre a profunda admiração e o delírio destemperado. Se as (elevadas) taxas de aprovação de que Obama beneficia ao fim de cem dias não o distinguem da maioria dos seus antecessores em idêntico período, a intensidade dessa aprovação roça o religioso.
O religioso e, para os visitantes que não foram tocados pela crença, o ridículo. Afinal, tirando as sucessivas gaffes, as medidas típicas do frenesim "estatizante" que contamina a Terra desde a crise financeira e uma retórica nos negócios estrangeiros aparentemente refrescante e eventualmente irresponsável, o homem ainda não fez o que justificasse o lema da campanha e mudasse, supõe-se que no bom sentido, a América. O que não significa que a amabilíssima imprensa de que beneficia não tente provar o contrário.
Há dias, uma reportagem do New York Times pretendia revelar indícios de alteração nas relações raciais. Sem excepções, os pretos e os brancos entrevistados pelo diário confessavam sentir-se "mais próximos" uns dos outros. Coisas pequeninas: o aceno antes inexistente entre colegas de trabalho de etnias diferentes, o convite inédito ao vizinho para um churrasco de fim-de-semana, etc. A explicação é evidente: os brancos perceberam-se capazes de votar num "deles", os pretos perceberam-se elegíveis. Um tanto espantados, encontraram simultânea e mutuamente o que aqui se chama chão comum numa matéria vital, isto é, distinta do desporto e da cultura popular.
Óptimo. Ainda que eu não conheça país tão "integrado" quanto os EUA, até os EUA precisam de sarar as feridas herdadas de séculos de esclavagismo e de décadas de afirmação "identitária". A questão é: o que têm as acções de Obama a ver com isto? Obviamente, nada. Que se note, a sua principal influência resulta da mais aleatória das características, a cor da pele. Por este caminho, o melhor legado que o sacrossanto presidente se arrisca a deixar é, apenas, a respectiva imagem. Bate certo: com o "merchandising" que a vende, com o público que a adora e com aquilo que se espera de um político realmente moderno. No contexto, "moderno" não é um elogio.
Sexta-feira, 8 de Maio
A de alarme
Primeiro era o verbo, ou, no caso, o nome. A gripe, que não podia ser "mexicana" para não ofender os mexicanos, também não podia ser "suína" para não ofender os judeus, os muçulmanos, os vegetarianos e, presumo, os próprios suínos. Arranjou-se então a letrinha "A", baptismo anódino que até ao momento não ofendeu ninguém.
Agora, o problema é o modo. Leio que um jornalista checo acabou despedido da televisão onde trabalhava após publicar (no seu "blogue" privado) uma filmagem dele e de alguns colegas a grunhirem quando interrogados sobre a peça jornalística que estavam a tratar. Com certeza, os patrões do infeliz tomaram a brincadeira por um desrespeito a uma doença que aparentemente merece a solenidade sombria que se costuma dedicar ao Holocausto.
E nem o Holocausto serve de comparação, visto que já foi alvo de galhofa na literatura, no teatro, na televisão e no cinema (se quiserem dou exemplos). Sem consequências ou proibições. A gripe suína, perdão, a gripe A, é de outra grandeza. A Organização Mun- dial de Saúde estima que a calamidade atinja dois milhares de milhões de pessoas. Por enquanto, atingiu 3440, pelo que só faltam 1.999.996.560. Em Portugal, conjecturam-se 75 mil mortos. Só faltam 75 mil.
Mesmo presuntivos, os números da tragédia impõem enorme respeito, um respeito proporcional ao alvoroço que as instituições de saúde e os media criam em seu redor. Se calhar, e a fim de evitar a blasfémia, o ideal é adoptar luto prévio e nem sequer mencionar a gripe, princípio que, aqui em Nova Iorque, passei a seguir escrupulosamente: sempre que falei nos respectivos perigos aos cidadãos comuns, estes desatavam a rir ou olhavam-me como se fosse maluco. Provavelmente, parecia.
Sábado, 9 de Maio
O que é que esta gente fuma?
Começo por avisar que defendo a liberdade de cada um em fumar marijuana. Aliás, defendo a liberdade individual em matérias tão distintas quanto a ingestão de terebintina, o salto de pontes sem pára-quedas e a roleta russa. Logo que não haja prejuízo de terceiros, parece-me justo que as pessoas façam o que lhes apetecer.
Já não tenho a certeza se as marchas colectivas a pedir a legalização das drogas ditas leves não acarretam prejuízos para o transeunte comum, e tenho a certeza de que as marchas são intrinsecamente cómicas. Sobretudo pelos argumentos que sobraram aos manifestantes, agora que o consumo de cannabis está despenalizado: o uso da marijuana para fins medicinais, a sua aplicação nas energias renováveis, a redução do narcotráfico, o estigma associado aos fumadores, etc.
Será preconceito meu, mas custa-me acreditar que a saúde, o ambiente, o banditismo internacional e a discriminação social constituam as principais preocupações da rapaziada dos batuques e cabelos rastafari. No fundo, a rapaziada apenas aprecia um bom protesto, o qual, mesmo que não se perceba contra o quê, sempre junta todos os anos as centenas de "activistas" que desfilam nas maiores cidades nacionais. E só não junta largos milhares porque os hábitos dos "activistas" impedem muitos de fixar a hora, o ponto de encontro e o percurso dos desfiles. É por isso que, de vez em quando, alguns são vistos a desfilar sozinhos em datas e lugares imprevistos. Se encontrarem um deles, aproveitem para lhe louvar o esforço em prol do progresso terapêutico, energético ou lá o que é. C
Marques
O PS tem memória curta e esqueceu ...
há 194 dias, 14 horas e 33 minutos
Maria Conceicao Brasil
Desde o início do conhecimento ...
há 195 dias, 12 horas e 15 minutos
Pedro Claro
AG é um dos comentarista mais ...
há 195 dias, 15 horas e 3 minutos
N Marques
A única prova dos malefícios catastróficos ...
há 196 dias, 1 hora e 41 minutos
isabel castro
Porque não saiu o meu comentário? ...
há 196 dias, 5 horas e 19 minutos
Além de redonda, a bola é totalitária
Alberto Gonçalves
Até agora, tínhamos uma campanha negra contra o primeiro-ministro por quinzena, média aceitável e a que nos habituáramos.
Resolvido O Caso do Microfone Direccionado
Ferreira Fernandes
Lembro o 5 de Novembro de 2009. Nesse dia, um pombal, perdão um jornal - isto de debicadores de milho desnorteia-me -, um jornal que não nomeio porque todos mergulharam como pombos para painço no empedrado...
O admirável mundo dos novos revolucionários
Pedro Marques Lopes
É o fim, é o fim, berram os novos revolucionários. As instituições estão irremediavelmente desacreditadas: a justiça é uma farsa, o Governo serve para os do partido no poder se governarem, a Assembleia...
por Miguel Nunes Gonçalves
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11 Comentários
12 Mai 2009, às 11:58 - Portugal - Porto
O PS tem memória curta e esqueceu as agressões a F. Assis em Felgueiras e o pior ainda em Matosinhos. Não consta que tenha pedido desculpas aos portugueses. Também não pediu desculpas aos familiares das vitimas de Castelo de Paiva. Também li que e cito de cor " Um bando de arruaceiros agrediu Vital Moreira". Somos realmente um povo de “brandos costumes”. Os arruaceiros também.
11 Mai 2009, às 14:16 - Portugal
Desde o início do conhecimento dos candidatos às Europeias que se percebeu que o PS cometia um grave erro trazendo para a ribalta Vital Moreira. Sempre que ele aparece parece-me ver alguém que está tão deslocado na "festa" e que, por isso mesmo parece estar a gritar: "tirem-me daqui. Maria da Conceição Brasil
11 Mai 2009, às 11:28 - Portugal - Lisboa
AG é um dos comentarista mais lúcidos da imprensa portuguesa. É certament o mais implacável a desmistificar o grande logro chamado Bloco de Esquerda. Temos que lhe estar gratos.
11 Mai 2009, às 00:50 - Portugal - Leiria
A única prova dos malefícios catastróficos da tal gripe é o desejo incontido da comunicação social, particularmente da estações de TV, de que tais malefícios ocorram rapidamente e em força.
10 Mai 2009, às 21:13 - Portugal
Porque não saiu o meu comentário? Erro técnico?
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10 Mai 2009, às 18:24 - Portugal - Porto
António Barreto, artigo de opinião no Público, Janeiro de 2008: "Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu Governo. O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas. Temos de reconhecer: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação? Acordo? Só se for medo…"
10 Mai 2009, às 17:25 - Portugal
Ainda bem que AG regressou da pausa!! O país precisa de opiniões assim...
Paulo Azevedo
10 Mai 2009, às 14:43 - Portugal
Palavras para quê? De antologia principalmente o texto sobre a marcha da marijuana.
Nascimento
10 Mai 2009, às 14:15 - Portugal - Leiria
Sobre V. Moreira: O PS está a pagar pelo erro que cometeu, ao indicá-lo como cabeça de lista para as Europeias! Ele é um bom professor de Direito, mas creio que reformado! É mais um "tacho"! Para o lugar que, foi escolhido, não tem perfil A sua campanha tem sido um autêntico fiasco Quem não se lembra dele na A.R., em que se mostrou um anti-europeita extemista? O povo tem memória!
Luzmarinha
10 Mai 2009, às 12:58 - Portugal - Braga
Não sei o que Alberto Gonçalves fuma, nem sei que sabonete usa para ter a mente sempre limpinha. Sei que é vital para a democracia que haja cronistas como ele que não se fazem de vítimas.
Simbad
10 Mai 2009, às 11:01 - Portugal - Coimbra
Ainda por aqui anda, senhor Gonçalves?! Deixei de o ler,mas desta vez abri uma excepção.É que pensei ir-nos falar da frequência de alguma cadeirita de sociologia.Afinal,era só para nos dizer que andou de avião. Correu bem o baptismo de voo?
Estado de coma
Uma redundância chamada Pedro
Os casamenteiros
Saramago não incomoda nada
Uma noite em seis alíneas
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