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por José Saramago
Continuemos. No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um informe sobre a "produção animal em granjas industriais, onde se chamava a atenção para o grave perigo de que a contínua circulação de vírus, característica das enormes varas ou rebanhos, aumentasse as possibilidades de aparecimento de novos vírus por processos de mutação ou de recombinação que poderiam gerar vírus mais eficientes na transmissão entre humanos".
A comissão alertou também para o facto de que o uso promíscuo de antibióticos nas factorias porcinas - mais barato que em ambientes humanos - estava proporcionando o auge de infecções estafilocóquicas resistentes, ao mesmo tempo que as descargas residuais geravam manifestações de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou milhares de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).
Qualquer melhoria na ecologia deste novo agente patogénico teria que enfrentar-se ao monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e ganadeiros, como Smithfield Farms (suíno e vacum) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática das suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas umas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento dos investigadores que cooperaram com a comissão. Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como o gigante avícola Charoen Pokphand, radicado em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre o seu papel na propagação da gripe aviária no Sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do surto da gripe suína esbarre contra a pétrea muralha da indústria do porco. Isso não quer dizer que não venha a encontrar--se nunca um dedo acusador: já corre na imprensa mexicana o rumor de um epicentro da gripe situado numa gigantesca filial de Smithfield no estado de Veracruz. Mas o mais importante é o bosque, não as árvores: a fracassada estratégia antipandémica da Organização Mundial de Saúde, o progressivo deterioramento da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industralizada e ecologicamente sem discernimento.
Como se observa, os contágios são muito mais complicados que entrar um vírus presumivelmente mortal nos pulmões de um cidadão apanhado na teia dos interesses materiais e da falta de escrúpulos das grandes empresas. Tudo está contagiando tudo. A primeira morte, há longo tempo, foi a da honradez. Mas poderá, realmente, pedir-se honradez a uma transnacional? Quem nos acode?
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1 Comentário
30 Abr 2009, às 11:19 - Portugal - Porto
Mas o que foi a nossa locutora radiofónica preferida, a D. Cândida, fazer a Londres, meu Deus?! Será que foi servir de “anjo da guarda”? Mas “anjo da guarda” de quem? Do procurador encarregue do processo que, apesar de ser crescidinho, precisava de alguém que lhe servisse de guia em Londres? Ou será que a D. Cândida foi antes servir de “anjo da guarda” ao “engenheiro” Sócrates, agora que o amigo íntimo Lopes da Mota que controlava tudo no tacho do Eurojust na Holanda se expôs demasiado e tem por isso de ficar um pouco mais na sombra?... E já agora, esta delegação que integra a nata da nossa magistratura também vai investigar a empresa “holding” MECASO, constituída pela mãe do Menino de Ouro do PS, já depois dos seus 70 anos, em pareceria com um cidadão inglês que dá pelo bonito nome de Matt Merzougui?
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