Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


Baptista-Bastos

"…Mas as crianças, Senhor…"

por Baptista-Bastos  

A sociedade portuguesa perdeu, há muito, a noção de valores e tripudiou sobre as regras de convivência. Lenta mas inexorável uma endemia de dissolução alastrou, de tal forma, que põe em causa a própria razão do ser individual. Abandonámos um conceito de destino e desinteressámo-nos da ideia de futuro, se alguma vez a ambos tivemos. Antero e Oliveira Martins disseram que não. Causticámo-los com o ferrete de cépticos. Desprezámo-los quando devíamos tê-los estudado. A República animou-nos, mas a festa durou pouco. Meio século de cantochão, bota cardada, medos vários, foram as insígnias das nossas obediências. No Abril antigo, o bandolim pareceu tocar a nossa música. Pregámos um susto às bem-pensâncias, andámos a lavar as ruas, a oferecer à pátria um dia de salário e a gritar um estribilho que fora funesto no Chile: "O povo unido jamais será vencido!" Pois sim!

Fui um daqueles que deitou foguetes. E ainda me resta uma pequena fagulha, apesar de o desemprego correr a galope, de os nossos velhos morrerem nos jardins, e de termos atingido, agora, a abjecção com o que fazemos aos nossos miúdos: abandonamo-los, enchemo-los de miséria, de fome e de morte por extinção moral.

Anteontem, os jornais alargaram-se em notícias sobre estes sacrilégios. Porque há pais que abandonam os filhos? Que desespero incontido pode levar alguém a deixar uma criança à bússola do acaso? E que bizarro mecanismo mental encaminha progenitores a não dar de comer aos seus miúdos, mas a adquirir-lhes roupas de marca? Pensemos duas vezes.

A família tem cada vez mais dificuldade em se representar. Mas foi a família que se não opôs às imposições de uma sociedade, cuja inconsistência transformou o secundário em primordial. O desprezo pelos miúdos conduz a conflitos profundos com as suas personalidades. Porém, o Estado abandonou os pais, e os pais deixaram de se interessar, no essencial, pelos filhos. O círculo ainda não encerrou. E as notícias a que me refiro advertem da existência de uma compressão da época e de um mal da alma, resumidos nesta frase medonha: "Não tenho tempo a perder."

Não temos tempo a perder com quem? Com os nossos filhos? Com os outros? Connosco próprios? Estamos a encurtar tudo (a vida, o amor, a amizade, o ócio) com melancólica leviandade. "Às duas por três nascemos/às duas por três morremos/e a vida?/não a vivemos" - ensinou Alexandre O'Neill. Nunca ouvimos os poetas.

Não há unidade nem absoluto possível se não conseguirmos travar a marcha de um sistema doente, cuja natureza se opõe à partilha, e tem destruído e aniquilado o melhor dos nossos sentimentos e emoções.


ImprimirImprimirEnviar por EmailEnviar por Email
EstatísticasEstatísticasPartilharPartilhar

 
ULTIMOS COMENTÁRIOS

JSMadeira

Mais um dia aziago, mais uma vez ...

há 218 dias, 22 horas e 48 minutos

FAFA

No dia da morte de José Gomes ...

há 219 dias, 1 hora e 13 minutos

joao americo oliveira ramos

Não é a sociedade portuguesa que ...

há 221 dias, 12 horas e 52 minutos

joao americo oliveira ramos

Não é a sociedade portuguesa que ...

há 221 dias, 12 horas e 58 minutos

Deolinda Duarte Faria

Considero B-B o melhor cronista ...

há 221 dias, 14 horas e 41 minutos


João César das Neves

Quando a esquerda se torna estabelecida, burguesa, dominante, quem é realmente revolucionário?

Ferreira Fernandes

O partido do venezuelano Hugo Chávez está de congresso. Um congresso à medida de Chávez: este faz discursos de horas e o congresso vai até 2010. A Venezuela é curta para tanto tamanho. Daí que Chávez tenha...

Leonídio Paulo Ferreira

Existem corruptos em Portugal, mas não somos um país de corruptos. Evitemos entrar em pânico.


O DN está aberto à participação dos leitores. Use o email jornalismodecidadao@dn.pt para publicar online os seus artigos, fotos ou videos. Publique os seus SMS usando o número 96 100 200

Ver mais


COMENTÁRIOS
ÁREA RESERVADA

Login


Nome de Utilizador: 

 

Password: 

  Entrar

11 Comentários


JSMadeira

18 Abr 2009, às 10:56 - Portugal - Lisboa

Mais um dia aziago, mais uma vez o mesmo erro, mais uma vez a dor, o mesmo sangue; necessário é lembrarmo-nos todos os dias que temos de fazer esse caminho, que parece sempre igual. Pelo menos isto: lembrá-lo todos os dias e tenta-lo. Amanhã, primeiro objectivo, recordar o que tentàmos hoje.


FAFA

18 Abr 2009, às 08:31 - Portugal - Porto

No dia da morte de José Gomes Ferreira (já lá vão muitos anos), eu e o senhor tivemos uma pequena "desavença" numa escola de Torres Vedras. Na altura, estava em início de carreira e a minha atitude não foi compreendida na forma correcta. Passados todos estes anos continuo a gostar do que escreve, pois o seu discurso textual não se "moldou" aos interesses jornalísticos da actualidade.


joao americo oliveira ramos

15 Abr 2009, às 20:52 - Brazil

Não é a sociedade portuguesa que está falida. O mundo é que está doente . Abandonamos todos os princípios morais em troca do nosso bem estar . Os outros que se lixem . O antigo poema dizia - Oh tu que vens de longe, oh tu que vens cansado, Entra que nesta casa encontrarás abrigo- Hoje soa brega,não? Que Deus nos ilumine .


joao americo oliveira ramos

15 Abr 2009, às 20:46 - Brazil

Não é a sociedade portuguesa que está falida. O mundo é que está doente . Abandonamos todos os princípios morais em troca do nosso bem estar . Os outros que se lixem . O antigo poema dizia - Oh tu que vens de longe, oh tu que vens cansado, Entra que nesta casa encontrarás abrigo . Hoje este tipo de verso é chamado de brega . Tudo que não representar vantagem não tem valor algum .


Deolinda Duarte Faria

15 Abr 2009, às 19:03 - Portugal - Braga

Considero B-B o melhor cronista de todos os jornais. Os assuntos da actualidade, na sua prosa poética, vão directos à alma e ficam lá a chocalhar a nossa tendência para o comodismo, para o deixa andar, pois não é nada comigo...


a.marques

15 Abr 2009, às 17:25 - Portugal

costumamos alinhar em todos os foguetórios.na próxima festa venha ela de onde vier lá estaremos. deitamos os foguetes, apanhemos as canas. mas os evoluídos senhor?


AmeijoaFresca

15 Abr 2009, às 11:57 - Portugal - Faro

Lenta mas inexorável -- uma dissolução endémica alastrou, -- com tanta política deplorável -- o bem-estar social berrou! ----- O bandolim tocou -- uma música de esperança, -- mas, para a história ficou -- essa vã lembrança! ----- O mexilhão esperançoso -- por um futuro mais risonho, -- com este socialismo embaraçoso -- o pensamento fica bisonho!


Catia_Farias

15 Abr 2009, às 10:44 - Portugal - Porto

O articulista toma a parte pelo todo para puxar à emoção, à sensação. Enfim, um estilo. Talvez caído em desuso...


deneb

15 Abr 2009, às 10:36 - Portugal - Setúbal

Afinal entre gente de bem, há sempre qualquer coisa em comum. Embora quase sempre as opiniões de BB estejam nos 180 graus(mais ou menos 10%)das minhas, eu teria muita honra em assinar este artigo. Salvo um pequeno erro de construção de uma frase... É pena que quem tão mal tem mandado nesta terra não perceba nada do que BB escreveu.


AmeijoaFresca

15 Abr 2009, às 10:34 - Portugal - Faro

Com o regime doente -- destruindo as sãs emoções, -- a partilha é coisa ausente -- causando tremendas devastações! ----- A noção de valores sociais -- há muito encontra-se perdida, -- nos confins existenciais -- de uma revolução iludida. ----- O mexilhão tripudiado -- pelas regras de convivência, -- neste país extasiado -- pela mais abjecta subserviência!


Maria Conceicao Brasil

15 Abr 2009, às 10:19 - Portugal

A desvalorização do homem e a supervalorização do possuir levaram os países e as sociedades a um vazio de projectos e a um desinteresse pela instituição família com repercussões terríveis para as crianças e os jovens e, por acréscimo, a uma hipoteca do futuro que se vislumbra sem côr e,quem sabe...,sem vida. Assino em baixo o texto do escritor BB MConceição Brasil *Profª Maria Conceição Brasil


Baptista-Bastos

A sociedade do ódio

por Baptista-Bastos

 

A sociedade dos homens, tal como a conhecemos e no-la ensinaram, desmorona-se, ou, pelo menos, os seus modos de construção estão a ser seriamente abalados. Nada resiste às novas imposições de outras identidades...


Ver Mais



Especiais

Recuar
Avançar
PUBLICIDADE


RSS


PATROCÍNIO
sondagem

Inquérito DN

Se tivesse possibilidades económicas compraria uma viagem ao espaço?

Sim
Não
Votar  Ver Resultados




Desporto

Todas as notícias

Todas as notícias

Cartaz

PLANO GERAL

PLANO GERAL

Portugal

Facebook

Facebook

Televisão

Guia TV

Guia TV

Portugal

Twitter

Twitter




Diário de Notícias, 2009 © Todos os direitos reservados | Termos de Uso e Política de Privacidade | Ficha Técnica | Publicidade | Contactos