Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


Anselmo Borges

Ela é a tenaz

por Anselmo Borges  

'Ela' é a morte. Se já não se pensa nela, não é por já não ser problema. É o contrário: de tal modo é o único problema...

Ela é o abismo sem fim e sem fundo. Diante dela, todas as palavras se apagam e o silêncio é todo. Houve um tempo em que ela conviveu naturalmente com os homens e estes com ela: era quase familiar. Agora, tornou-se tabu. Até alguns amigos meus me dizem que não fale nem escreva sobre ela, porque as pessoas não gostam. É preferível ignorá-la. Cada um fará com ela, só, como puder.               
De qualquer forma, é dela que também nasce a filosofia, como disseram os grandes. Sem ela, talvez também não houvesse religião nem religiões. Se hoje o pensamento é débil e a religião navega em vago consolo sentimental, a razão é que ela foi afastada  da meditação dos homens. De facto, em luta com ela, é-se obrigado a ir sempre mais fundo e mais longe. Porque ela é o impensável que obriga a pensar, impossibilitando a vulgaridade falaz e oca da sofreguidão da imediatidade do aqui e agora.                       
                                                         
Ela é a morte. Se já não se pensa nela, não é por já não ser problema. É o contrário: de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julga omnipotente não tem solução que a única solução é não falar dela e fazer dela tabu.

O filósofo Max Scheler já tinha chamado a atenção para isso, no início do século XX. Se cada vez menos o Homem europeu acredita na sobrevivência, é porque "já não vive face a face com a morte", mas do seu recalcamento. Este Homem já não frui de Deus e a natureza também já não é a terra natal acolhedora, provocando admiração e espanto, mas apenas o espaço do seu domínio. Para o Homem moderno, pensar é calcular e dominar e, assim, como vive como se não tivesse de morrer, isto é, como já não sabe que tem de morrer a sua própria morte, quando ela aparece, só lhe pode aparecer como catástrofe. Para o Homem tradicional, a morte constituía um poder formador e director, que dava configuração e sentido à vida. Agora, vive-se no dia-a-dia, até que de repente, estranhamente, "já não há mais um novo dia". 

No quadro de um mundo matematizado e calculável, as qualidades, as formas e os valores de ordem moral, porque não calculáveis, são remetidos para o domínio do subjectivo, do arbitrário e até da irrealidade. Diante da morte não há cálculo possível. Fica-se atenazado: impossível pensar que tudo acaba ali, impossível pensar um depois e um além. Mas, sem eternidade, o que vale ainda, o que tem realmente valor? Se tudo desembocar no nada, ainda há, pensando até ao fundo e ao fim, diferença real e última entre bem e mal, verdade e mentira, justiça e injustiça?

Mesmo assim, nestes dias, no mundo cristão, é-se convidado a lembrar um crucificado. Jesus morreu na cruz como blasfemo religioso - pôs em causa a religião dos interesses - e subversivo social - ameaçou a ordem estabelecida da injustiça. Testemunhou até ao fim a verdade, a justiça e o amor.

Com a sua morte, aparentemente foi o fim. Mas, aos poucos, os discípulos voltaram a reunir-se e testemunharam que ele, o crucificado, está vivo em Deus. E foi essa fé, testemunhada até ao martírio, que mudou o mundo.

Como disse em 1964, num diálogo com Theodor Adorno, o filósofo ateu religioso Ernst Bloch - esse que esperava que a última música a ouvir não fossem as pazadas de terra na sepultura -, "o cristianismo, na concorrência com outros profetas da imortalidade e da sobrevivência, venceu em grande parte graças à proclamação de Cristo: 'Eu sou a Ressurreição e a Vida'. Não propriamente através do Sermão da Montanha. No século primeiro depois do acontecimento do Gólgota, a ressurreição foi referida ao Gólgota de uma forma inteiramente pessoal, de tal modo que pelo baptismo na morte de Cristo se experiência a ressurreição com ele. Imperava então um desespero apaixonado, que hoje nos parece incompreensível e representa um acentuado contraste com a nossa indiferença. Mas nada impede que dentro de cinquenta ou cem anos (porque não dentro de cinco?) volte essa neurose ou psicose de angústia da morte, de tipo metafísico, com a pergunta radical: para quê o esforço da nossa existência, se morremos completamente, vamos para a cova e, em última instância, não nos resta nada?


ImprimirImprimirEnviar por EmailEnviar por Email
EstatísticasEstatísticasPartilharPartilhar

 
ULTIMOS COMENTÁRIOS

tinderstick

Para além de ter sorrido com a ...

há 220 dias, 8 horas e 56 minutos

Nuno Gomes

Exelente texto filosófico! A sociedade ...

há 220 dias, 14 horas e 34 minutos


Alberto Gonçalves

Quinta-feira, 19 de Novembro Além de redonda, a bola é totalitária

Ferreira Fernandes

Lembro o 5 de Novembro de 2009. Nesse dia, um pombal, perdão um jornal - isto de debicadores de milho desnorteia-me -, um jornal que não nomeio porque todos mergulharam como pombos para painço no empedrado...

Pedro Marques Lopes

É o fim, é o fim, berram os novos revolucionários. As instituições estão irremediavelmente desacreditadas: a justiça é uma farsa, o Governo serve para os do partido no poder se governarem, a Assembleia...


Porquê duas taxas sobre a mesma coisa?
Contador de água

Porquê duas taxas sobre a mesma coisa?

por Miguel Nunes Gonçalves

O DN está aberto à participação dos leitores. Use o email jornalismodecidadao@dn.pt para publicar online os seus artigos, fotos ou videos. Publique os seus SMS usando o número 96 100 200

Ver mais


COMENTÁRIOS
ÁREA RESERVADA

Login


Nome de Utilizador: 

 

Password: 

  Entrar

2 Comentários


tinderstick

15 Abr 2009, às 22:35 - Portugal - Coimbra

Para além de ter sorrido com a expressão "filósofo ateu religioso...", deliciosa e apenas possível a líricos e retóricos, constato que continuam os padres a insistir para que se pense na morte, e menos na vida e no prazer existencial do fruir da mesma. Assim, continua bem actual o Nietzsche quando chamava aos padres "os pregadores da morte", o domínio do povo pelo medo dela e do deus inexistente.


Nuno Gomes

15 Abr 2009, às 16:57 - Portugal - Castelo Branco

Exelente texto filosófico! A sociedade ocidental actual que se diz ser contra qualquer tabú,tem de facto um e bem grande grande:a morte. "destruidora de sonhos e planos,mas tambem grande mestra da vida" dizia alguem. Ela é o grande contraste da vida para quem não pensa nela e não colhe as suas lições de "Grande Doutora",como lhe chamavam os místicos de outros séculos.


Anselmo Borges

A sobrevivência da civilização

por Anselmo Borges

 

Leszek Kolakowski morreu no dia 17 de Julho último, em Oxford. Era pouco conhecido entre nós, mas foi um filósofo ilustre. Nasceu em Radom (Polónia), em 1927. Partidário de um "marxismo humanista", foi...


Ver Mais



Especiais

Recuar
Avançar
PUBLICIDADE


RSS


PATROCÍNIO
sondagem

Inquérito DN

Decisão do PGR significa o fim do processo 'Face Oculta' para José Sócrates?

Sim
Não
Votar  Ver Resultados




Desporto

Todas as notícias

Todas as notícias

Cartaz

PLANO GERAL

PLANO GERAL

Portugal

Facebook

Facebook

Televisão

Guia TV

Guia TV

Portugal

Twitter

Twitter




Diário de Notícias, 2009 © Todos os direitos reservados | Termos de Uso e Política de Privacidade | Ficha Técnica | Publicidade | Contactos