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por Ferreira Fernandes
P or razões estranhas (tenho passado o meu tempo na jardinagem) não dei pela ascensão de Stephen Gately, da boy band irlandesa Boyzone. Agora, nesta época de pousio outonal (já só se semeiam favas, que não aprecio), pude dar-me conta da polémica à volta de Gately. Há dez anos, ele saiu do armário -precisando de desarmar as confissões de um guarda-costas que ia revelar tudo, o vocalista tomou a iniciativa de dizer ao tablóide Sun: "Sou gay e estou apaixonado." E, agora, Gately apareceu morto em Maiorca. "Causas naturais", disse a polícia. A polémica começa aí, comigo já atento.
A colunista do jornal Daily Mail Jan Moir escreveu, grosso modo: quais causas naturais, qual quê, ele morreu de ser gay! A tese - grosso modo, insisto - era que qualquer gay, mais cedo ou mais tarde, aparece morto em Maiorca. Há muitos anos, um dos melhores jornalistas portugueses que conheci, Manuel Beça Múrias, titulou no semanário O Jornal: "Morreu de ser português." Falava de Joaquim Agostinho, cuja morte estava bem espelhada naquele título agudíssimo: o ciclista caiu, bateu com a cabeça no empedrado, saiu-lhe sangue pelo ouvido e, em vez de o transportarem de imediato para um hospital, levaram-no para uma pensão... para descansar - enfim, morreu de ser português. Claro que era uma generalização - muitos portugueses, também vítimas de acidentes, eram bem tratados.
O texto de Jan Moir era também uma generalização, dizia: todos os gays têm uma vida sexual promíscua, estão metidos em droga e, portanto, aparecerem mortos está-lhes no sangue. Mas o texto de Moir era um intencionado insulto - enquanto o título de Múrias era uma amargura assumida. A inglesa era contra um grupo de pessoas naturalmente feridas, que mais não seja por haver colunistas homofóbicos à Jan Moir - enquanto o título de Múrias preocupava-se com os portugueses. Mas quero lembrar outra coisa que afasta o vicioso texto do Daily Mail do magnífico título de O Jornal: no tempo deste não existia o Twitter. Não fosse isso, poderiam ter um destino comum.
Existisse o Twitter em 1984 e um grupo de tresledores militantes era capaz de fazer uma campanha porque achava que o título de O Jornal insultava os portugueses; e era capaz de aterrorizar os anunciantes, obrigando-os a boicotar o jornal caso Múrias não fosse despedido. Em Inglaterra, o Twitter conseguiu já a retirada de publicidade ao Daily Mail e está a caminho de calar Jan Moir. Se querem que vos diga, neste caso, não se perdia grande coisa. Mas não é esse o ponto. O ponto é que essas campanhas são democracia de rebanho: marram. Como se explica que haja uma petição para que uma cidadã brasileira, por causa de umas piadolas, seja considerada pelo Parlamento persona non grata em Portugal (ontem havia mais de 3800 assinaturas)?
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7 Comentários
19 Out 2009, às 01:47 - Canada
Vivo fora do meu País ha muitos anos.Porém,continuo e continuarei a ser um fanático do meu País.Numa análise fria do que a senhora disse e da forma como cuspio,excedeu-se um pouco.Continue Sr. Ferreira o Sr. é honesto e em muitas situações partilho a sua opinião.
18 Out 2009, às 22:37 - Portugal
Eu, se me dão licença, gosto das crónicas do Alberto Gonçalves e dos brasileiros/as.
18 Out 2009, às 20:06 - Portugal
Mas há males que vêem por bem. Talvez agora os escarradores se coíbam de escarrar nos passeios e os admiradores de Salazar de escarrar na democracia. E talvez também passem a comprar-se agora menos daquelas mixórdias que são as telenovelas brasileiras. É pena é que tenha sido uma brasileira a conseguir tantos beneficios cívicos para os portugueses e logo com um video jocoso!
18 Out 2009, às 13:41 - Portugal
(cont.) Todos sabemos que os brasileiros não fazem boa ideia de nós e todos sabemos que nós não fazemos boa ideia deles, embora por razões diferentes. Não é grave. O que é grave é mostrar as razões porque não gostam de nós, como se nós não tivessemos razões para não gostar deles. É o antigo refrão. "Diz o roto ao nú: porque não te vestes tu?"
18 Out 2009, às 13:36 - Portugal
O Parlamento não pode deliberar um disparate desses porque abriria um precedente de consequências ridiculas. Mas isso não significa que o movimento não tenha a sua razão de ser. Também não gostei de ver a brazuca (daquelas que, por mais que façam, têm sempre um ar ligeiramente ordinário), a falar de nós de cima da burra, como se fôsse uma intelectual (cont.)
joao americo oliveira ramos
18 Out 2009, às 12:48 - Brazil
Há um falar e dois entenderes. O título inteligente e sensível de Manuel Beça Múrias o texto, também inteligente, mas preconceituoso de Jan Moir e a falta de graça igual ao tamanho da falta de inteligência e talento da atriz brasileira são misturados num mesmo tacho. E basta aparecer uma lista que um enorme bando a assina de pronto. Há até quem goste da crônica de Alberto Gonçalves
DELFIM GOMES
18 Out 2009, às 10:07 - Portugal - Lisboa
Totalmente de acordo.Mas quero ser mais directo,qualificando essa "democracia" de -carneirada. Patriotas da treta, abaixo !
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