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por
SUSETE FRANCISCO
NATACHA CARDOSO - ARQUIVO DN
Primeiro foi o PS a mostrar sinais de preocupação, com o discurso do Governo a chegar-se notoriamente à esquerda. Na passada semana foi o PSD, pela voz de Manuela Ferreira Leite, a vir dizer que o crescimento do PCP e BE é preocupante. As várias sondagens dão os dois partidos em subida - em conjunto atingem níveis próximos ou acima dos 20%. Razão para os dois "grandes" se preocuparem?
"Há sintomas de ser uma alteração estrutural, que veio para ficar", defende Rui Oliveira e Costa, responsável da Eurosondagem, referindo que esta tendência já se fez sentir "em 2007 e tem-se acentuado em 2008". Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais e director do centro de sondagens da Universidade Católica defende que é preciso mais tempo para avaliar, dado que estamos perante uma "tendência que tem cerca de seis meses". Mas este é um cenário "que tem lógica se observarmos o que se passa no panorama político": "O governo do PS tem tomado uma série de medidas que afectam os interesses de grupos sociais e de grupos de cidadãos que podem ser mobilizados pelos partidos mais à esquerda."
Significará isto que o eleitorado que está a reforçar os dois partidos vem do PS? Pedro Magalhães diz que as sondagens não permitem dar uma resposta clara - o que exigiria estudos de painel, pouco utilizados em Portugal. "Mas julgo não estar a cometer nenhum erro se disser que os eleitores que têm reforçado o PCP e o BE - sobretudo o Bloco - são eleitores da ala esquerda do PS", acrescenta. Os mesmos que se desviaram dos candidatos oficiais nas presidenciais e nas autárquicas de Lisboa, para votar em Manuel Alegre e em Helena Roseta.
Já quanto à hipótese de esta deslocação de eleitorado poder fazer mossa à maioria absoluta do PS, o investigador coloca-a em conjunção com outro factor, que poderá vir a revelar-se o mais determinante para os socialistas - "a desmobilização dos seus eleitores para a abstenção". De acordo com o investigador, este fenómeno tende a ter mais impacto do que a deslocação de voto entre partidos. Ainda assim, se a este cenário se acrescentar a "possibilidade de alguns eleitores converterem a insatisfação no PCP e no BE", então o PS tem boas razões para se preocupar.
Também Oliveira e Costa sustenta que o impacto dependerá sempre de uma conjugação de factores. O papel preponderante será do PSD: esta subida tem "menos efeitos para retirar a maioria ao PS do que se houvesse uma subida do PSD". Mas aponta os resultados em que este cenário se tornaria possível - "Para serem estes partidos a tirar a maioria ao PS, o PSD tinha que ficar entre os 32 e os 34%, e a esquerda com um resultado próximo dos 20%. Assim , a maioria absoluta do PS é uma impossibilidade."
Olhando para os resultados das três sondagens que periodicamente se publicam em Portugal (da Universidade Católica, Eurosondagem e Marktest) a tendência de subida à esquerda é consensual. Já o resultado do PS, tendo em comum uma liderança destacada, é mais díspar, sobretudo no que se refere à maioria absoluta.
Um cenário "preocupante"
No PS a subida de comunistas e bloquistas é reconhecida, mas em muitos casos é relativizada. Em muitos, mas não em todos. Vítor Ramalho, nome da ala esquerda do partido, diz que o cenário é preocupante. E acredita mesmo que PCP e BE "vão crescer mais". Porquê? "É uma esquerda reivindicativa e que está no terreno. É fácil explorar as dificuldades das pessoas num momento de crise." E muitas vezes o PS não está lá a fazer o contraponto, explicando aos eleitores as medidas do governo: "O partido está secundarizado em relação ao governo. O partido enfraqueceu, o ideário tornou-se pragmático." Para Vítor Ramalho os socialistas têm de dar primazia ao seu ideário, "retornar à defesa das causas do PS". E dar "prioridade absoluta" ao partido como veículo de transmissão desses valores.|
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