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Memórias do que eu fiz quando andei na guerra

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EURICO DE BARROS, em Cannes  

No ano passado, uma das sensações do Festival de Cannes foi uma longa-metragem de animação para adultos, Persépolis, da autora iraniana de banda desenhada Marjane Satrapi e do francês Vincent Paronnaud, adaptada dos livros daquela sobre a sua infância e juventude durante o regime do Xá do Irão, e depois sob a revolução fundamentalista e no exílio na Europa. Persépolis (entretanto já exibido em Portugal) saiu da Croisette com o Prémio do Júri e foi nomeado para o Óscar de Melhor Longa-Metragem Animada.

Este ano, a DreamWorks vai mostrar em Cannes, fora de competição, a sua nova longa animada, Kung Fu Panda, sobre animais praticantes de artes marciais. Mas a animação de que já se fala, inclusivamente para um prémio no palmarés final, é Waltz With Bashir, do israelita Ari Folman. O filme passou ontem em competição e, tal como Persépolis, é uma obra autobiográfica de contornos políticos muito vivos, e não tem absolutamente nada a ver com o que Hollywood produz para o mercado.

Em 1982, Ari Folman estava a fazer o seu serviço militar no exército israelita, combatendo na primeira guerra do Líbano, e testemunhou os massacres nos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Chatila, da autoria das milícias falangistas libanesas, coordenadas, enquadradas e protegidas pelos israelitas. Esse episódio sangrento apagou-se-lhe da memória, e anos mais tarde, ao dar-se conta desse vazio, o realizador decidiu transformar num filme de animação o processo de recuperação dessas memórias trágicas, feito à base de conversas com antigos camaradas de armas, do depoimento de um famoso jornalista de televisão que cobria a guerra no Líbano, e de uma psiquiatra. Os quatro agitados anos de trabalho na fita fizeram-no perceber que sofria de stress pós-traumático desde os tempos da tropa.

Rodado primeiro em vídeo como se fosse um filme de imagem real com a canónica hora e meia, e depois tratado como uma animação, utilizando quer métodos clássicos, quer tecnologia avançada (a exemplo de Waking Life e A Scanner Darkly, de Richard Linklater, com os quais é claramente aparentado), Waltz With Bashir é de certeza o primeiro filme animado que se apresenta, ao mesmo tempo, como a crónica de um processo de terapia pessoal, como uma denúncia política - no caso, do belicismo e do terrorismo de Estado israelita -, e como a tradução artística do estado de espírito que nesta altura é partilhado por muita gente em Israel.

Folman chama ao seu filme "um documentário de animação", e o facto de ter preterido a imagem real pela animada, faz com que Waltz With Bashir ganhe e explore toda uma dimensão assombrada, irreal, sobretudo nas cenas de combate, e de uma outra expressão visual quer ao tema das memórias difusas e baralhadas, quer aos flashbacks semi-fantasmagóricos com que a personagem regressa ao Líbano arrasado pela guerra de há 25 anos.

Ari Folman disse em Cannes que não fazia a menor ideia de como é que os espectadores em Israel iam reagir ao filme. Mas o que lhe importa é que os seus filhos, os primeiros destinatários de Waltz With Bashir, o vejam quando crescerem e os ajudem a fazer "as escolhas correctas. Ou seja, a não participarem em nenhuma guerra".

Na competição passou ainda Leonera, do argentino Pablo Trapero (autor de Familia Rodante, editado em DVD em Portugal), um naco de realismo duro e áspero sobre uma mulher (Martina Gusman, casada com o realizador) acusada de assassínio que dá à luz na cadeia, e não quer abdicar da custódia da criança para a preocupada avó. Gusman faz um papelão (até muda fisicamente ao longo do filme) e Trapero consegue que o final "feliz" não comprometa tudo o que filmou até aí. |


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