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GRAÇA HENRIQUES, em Caracas
"Tetina, já provaste queijo português? É uma maravilha..." Tetina, diminuitivo de Olga Cecília Azoaje, é ministra do Turismo da Venezuela e a oportunidade da pergunta, a deitar por terra todas as regras protocolares, é-lhe dirigida pelo seu Presidente Hugo Chávez.
Sem nesga de formalismos, com uma sala cheia de ministros e empresários constantemente a rir, o presidente da Venezuela forçou a antecipação para ontem das assinaturas dos acordos económicos e institucionais para poder estar presente e "vincular-se".
A ministra Tetina estava sentada na assistência e foi apenas um dos membros do Governo Chávez que, numa cerimónia que deixaria de cabelos em pé qualquer chefe de protocolo, era interpelada com graças do Presidente. Durante hora e meia, Chávez tornou o que poderia ser uma entediante e formal assinatura de acordos num autêntico "show" de palavras.
Sócrates, visivelmente cansado, permanecia calado ao seu lado, batendo palmas quando Chávez pedia aplausos para quem tinha acabado de firmar um acordo. Ou quando Chávez, o mestre de cerimónias, que chamava ministros e empresários e dava a assinar os documentos, explicava os procedimentos: "Estou a copiar o protocolo sandinista, de Daniel Ortega". Aí Sócrates não se conteve: "Presidente, estás haciendo muy bien!"
"Petróleo por esparguete!" O presidente Venezuela chamava assim mais uma empresa - neste caso a Cerealis - para a assinatura de outro acordo. Estes acordos terão por garantia de pagamento o pettróleo que Caracas fornecerá à GALP, a uma média de 30 mil barris diários. O valor de 10 mil barris diários reverterá a favor do fundo numa conta da CGD, através da qual serão pagos os bens que a Venezuela elegeu como prioritários: produtos alimentares, como o leite em pó e as massas, medicamentos e reparação naval.
E Chávez vai metendo conversa, dirigindo-se à plateia. Fazendo esperar mais uma assinatura. Tratando por Manuel, o ministro da Economia portuguesa Manuel Pinho; por tu, o "amigo Sócrates". "Sócrates é um socialista e o socialismo deve ser concreto. O maior erro do socialismo foi a utopia." Ironizando, aproveitou para mandar um recado aos que lhe chamam ditador, lembrando as palavras do seu homólogo brasileiro. "A Venezuela sofre de excesso de democracia. Chávez faz eleições todos os anos, e quando não há inventam-nas." Mas uma oportunidade para pedir palmas, agora para Lula da Silva.
Monstro comunicante, entre piadas falou de coisas sérias: disse que a assinatura dos acordos é a concretização de vontades de entre-ajuda dos dois países - a Venezuela ajuda a minimizar as deficiências energéticas do País, Portugal ajuda os venezuelanos "a serem melhor alimentados".
Sócrates não saiu do Palácio Miraflores sem saber que Chávez queria pagar uma dívida de amizade com o povo português (vivem no país 600 mil emigrantes) e considera "ter chegado a hora de pôr as relações políticas e económicas à altura das relações de humildade e fraternidade entre os dois povos". | A jornalista viaja em avião fretado pelo Governo português
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