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ISABEL LUCAS
Entrevista. Zadie Smith, aos 33 anos, já é uma referência das letras inglesas
Quando saiu este Uma Questão de Beleza, alguém falava da consagração de uma autora. Disse então que não passava de uma principiante e comparou-se a J.M. Coetzee, dizendo que ele sim era um autor. Continua a não se considerar uma autora?
Sou uma autora, mas três livros é um começo quando a medida é a carreira de um escritor. Ao fim de um terceiro livro não se diz de um escritor que ele seja outra coisa que não um iniciante. Para se ser autor é preciso um longo percurso.
E como se vê enquanto autora?
Quando se publica três romances o sentimento é o de completar uma pequena parte de algo, o que é bom. Mas penso em mim sempre como uma aprendiz. É preciso continuar, como uma bordadeira, paciente.
Descreve esse trabalho como o de um operário. Onde entra o talento?
Tem de haver algum talento, mas só isso não garante nada. A maior parte das vezes é só trabalho. Conheço imensos escritores com talento que escrevem maus livros. Se pensarmos em Ian McEwan há vinte anos e o compararmos com Martin Amis ou Julian Barnes, tínhamos a ideia de que era um escritor forte mas sem aquele talento natural que os outros pareciam ter. Ian McEwan é determinado e tem a capacidade de trabalhar arduamente.
No seu caso, os diálogos são o espaço que reserva à invenção...
Aborrece-me ler diálogos como se fosse sempre a mesma pessoa a falar. Todas as partes dos meus livros são muito trabalhadas, levo muito tempo, mas, quando escrevo os diálogos, eles saem imediatos. Tento escrever da forma como as pessoas falam; não fazer o diálogo literariamente, mas realista e para isso é melhor não pensar muito. Eu não penso. Tenho bom ouvido, capto as nuances, sei o modo como certas pessoas falam e escrevo muito depressa sem me preocupar.
Este é um livro centrado numa família, os Belsey, constituída por gente muito diferente e que lhe serve ironizar sobre os dramas, os afectos, o quotidiano. Sobre as famílias escreveu que são todas psicóticas. Porquê?
Uma família é uma coisa muito louca. Em Inglaterra, um livro como este não surpreende porque os ingleses já não têm a fantasia de uma família perfeita. Isso foi destruído há 300 anos. Em Itália isso choca, porque ainda existe a ideia da família como algo sagrado, ainda que lá, como em toda a parte, as famílias sejam tão disfuncionais como as outras. Uma família é muitas coisas. Adoro conhecer pormenores das famílias dos outros e o modo como cada um de nós a certa altura tenta libertar-se delas.
Há aqui também uma paródia à vida académica. Conheceu-a em Inglaterra e depois como professora em Harvard, nos EUA. Há grandes diferenças?
É muito diferente. Em Inglaterra os estudantes, na generalidade, não pagam para andar na universidade; nos EUA pagam muito dinheiro. Isso torna diferente a relação entre alunos e professores. Há um lado consumista. Eles pagam e esperam um serviço. Em Harvard os estudante tratavam-me como uma empregada deles. Pareceu-me um assunto engraçado para falar.
E como se sentiu ao ser tratada como uma empregada pelos seus alunos?
Havia uma coisa que eu não suportava. Ele chamavam-me sempre Zadie, "Hey Zadie!, Let's go, and have a drink". Para mim aquilo era inconcebível. Eu não queria tomar um copo com os meus alunos.
Alguma vez chegou a tomar?
Sim, bem no fim do curso.
O que pensa da expressão "multiculturalismo, que surge quase sempre ligada à sua escrita?
Penso no multiculturalismo como numa mesa ou numa cadeira. Para mim é só um facto. Não creio que tenha de haver um debate. Significa que pessoas de diferentes cores podem viver juntas. A partir do momento em que se inventou o avião nasceu o multiculturalismo. A isso chama-se modernidade. Não vou pensar que uma mesa falhou. Uma mesa é uma mesa. Não é interessante. É um facto da vida.
E continua a fugir sempre que um livro seu é publicado?
Gosto de sair do país. Publicar em Inglaterra é muito duro. Toda a gente fala. Não se pode evitar os comentários. É cansativo. Não tem graça. É mais fácil sair e quando voltar está tudo mais sereno.
O que acha que os leitores esperam de uma entrevista a um escritor?
Faz-me confusão. Parece moda dos últimos 15 anos. Leio essas entrevistas só quando leio um livro e gosto imenso. Quero saber quantos livros escreveu, que temáticas, quero saber se é casado, se tem filhos, quantos... Há uma curiosidade. Sou hipócrita ao recusar falar das minhas pequenas coisas, mas quando dou entrevistas estou no papel do escritor e aí preservo-me.
Não gosta de dar entrevistas?
Hum... Gosto de conversas. Mas as entrevistas não são conversas. É estranho responder a perguntas.
Tem rotina de escrita?
Tentei no avião, hoje, não consegui. Tenho pequenos rituais. Preciso de estar em sossego, não ser interrompida, não estar de mau humor nem ter fome, sentir-me bem e ter chá. Sou escritora a tempo inteiro. Tenho três livros em 12 anos, mas se trabalhasse todos os dias como os escritores deviam... Não tenho nada na gaveta. Nem uma frase. Só faço o trabalho de que preciso e muito esporadicamente.
É obcecada pela primeira frase?
Só pelos primeiros quatro capítulos. Leio-os uma e outra vez. É de loucos. Quando acabei esse livro decidi que, por uns tempos, não iria escrever um romance. O período em que se está a escrever é estupidificante porque a única coisa que se faz é estar com o romance e quando se acaba descobre-se que o mundo existe e continua. Este período entre os romances é o mais feliz para mim. Não sou feliz quando escrevo. Interessante é ter a ideia. Depois quando se escreve é como se fossemos um empregado. O início e o fim são felizes, o meio não. Pareço um zombie.
Não é metódica?
Não. Quem me dera. Mas até ao meio-dia vejo televisão, tento ler, faço ginástica, como. Trabalho das duas às quatro, depois fico cansada e durmo. Tenho de melhorar, e penso que quando tiver filhos isso vai mudar. Quando se tem um filho temos de ser realistas, não se pode deambular. É preciso trabalhar e não andar pela Internet... lá lá lá... Tenho desperdiçado imenso tempo.|
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