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O ESPECTRO DA FOME

por

Mário Soares  

1 . De repente, quase inesperadamente, quando nos nossos ouvidos incautos ainda ecoavam as promessas do início do século, subscritas por todos os Chefes de Estado do Planeta, da imediata necessidade da luta contra a pobreza à escala global -, onde isso já vai?! - um espectro seriíssimo abala o mundo: a fome, uma realidade premente que começa a afectar muitos milhões de seres humanos, em mais de 30 países de África, Ásia e América Latina, susceptível de provocar revoltas, conflitos, motins, massacres, nunca vistos. E, curiosamente, os alertas, angustiados, não vêm só de teóricos ou de revolucionários. Chegam-nos de instituições consideradas "respeitáveis", como: o FMI (Fundo Monetário Internacional, de má memória), o Banco Mundial, a OMC (Or- ganização Mundial do Comércio), a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o PAM (Programa Alimentar Mundial). Porquê? Porque desde há alguns meses os preços dos géneros alimentares de primeira necessidade (trigo, milho, centeio, arroz, leite, carne, ovos, legumes, etc.) estão a subir em flecha, por razões de escassez, de algum proteccionismo dos países produtores e também - obviamente - por especulação.

Quando a crise financeira-bolsista, do imobiliário, a queda do dólar, como moeda internacional de referência, o aumento do preço do petróleo e do gás, e também a recessão económica, que toca à América do Norte (desemprego, agravamento do custo de vida, mal-estar social), está a alargar-se à União Europeia. É uma questão de tempo. Nada poderia ser pior. Contudo, as dificuldades crescem todos os dias e, com elas, os conflitos sociais e políticos. Inevitavelmente. Sem que os especialistas mais reputados - e os governantes - apresentem políticas coerentes capazes de responder às múltiplas crises que afectam o mundo...

A situação dificílima que chegou com pés de lã e todos os dias se agrava aproxima-se da grande crise do capitalismo de 1929. A globalização neoliberal desacreditou-se, sem remédio. O hegemonismo da hiperpotência dominante tornou-se uma miragem. O mundo voltou a ser multilateral. As dificuldades tocam a todos, em maior ou menor grau, embora os países mais pobres sejam os primeiros a sofrer. Chegará à Europa, não tenhamos dúvidas. Não pensemos que Portugal será uma excepção... Não será. Apesar dos esforços positivos do Governo para evitar os desgastes. Teremos de voltar rapidamente e em força a uma agricultura intensiva, aproveitando todos os bocados de terra cultivável que nos restam, das auto-estradas, do betão, da especulação imobiliária, sem qualquer razão de ser. E de voltar também a planos sociais de emergência, eficazes, que cheguem aos mais carecidos. No momento em que estamos - atenção - só excepcionalmente os privados nos poderão valer. É para o Estado Social e participativo que todos se voltarão. Como sempre acontece na hora da verdade.

2.Uma nota positiva. Barack Obama aí está, a caminho de vencer Hillary Clinton e já a pensar no duelo vitorioso contra o republicano John Mc- Cain. Hillary é ainda - parece - favorita na Virgínia e em Porto Rico, onde Obama evitou fazer campanha. Mas os jogos, julgam os observadores, estão feitos. Obama está muito à frente nos Estados votantes e mesmo nos superdelegados, embora nestes com curta vantagem. Pela primeira vez. E o que conta agora é o dinamismo que está criado, entre a juventude, os intelectuais, os cientistas e tudo o que conta na América pioneira e inovadora. É bem preciso, em tempo de crise e de intenso mal-estar.

3.Dois livros importantes. No curto espaço de poucos meses, saíram, em Portugal, dois livros, extremamente interessantes, para o conhecimento da história contemporânea portuguesa após a Revolução dos Cravos: o que estava em jogo e as suas consequências possíveis. Ambos, com uma informação rigorosa, reflectindo as visões necessariamente opostas, soviética e americana, das duas superpotências rivais, nesse tempo, relativamente à Revolução portuguesa de 1974-1975. Curiosamente, a Revolução foi completamente inesperada - e constituiu mesmo uma surpresa - para ambas. Os livros editados por Temas e Debates e Alêtheia Editores têm por autores o russo Sergei Yastrzhembskiy, que esteve vários meses em Portugal, nesse período, e pelo jornalista português Nuno Simas, que teve acesso - e transcreve - aos documentos secretos americanos, agora desclassificados, desse período. Intitulam-se respectivamente: Mário Soares e a Democracia Portuguesa, Vistos da Rússia; e Portugal Classificado - Documentos Secretos Norte-Americanos (1974-1975).

Pelo seu rigor e novidade - e porque no fundo se completam, apesar de escritos de ângulos e perspectivas opostas - vale a pena lê-los, com atenção, para um melhor conhecimento do que foi a Revolução e o período conturbado do PREC, bem como do que esteve em jogo e dos riscos que então se correram...

4.Zapatero. O Rei de Espanha, D. Juan Carlos, saiu da sua habitual reserva e confiou ao Magazine de El Mundo um retrato conciso mas altamente expressivo do Presidente do Governo, José Luís Rodriguez Zapatero. "É um homem muito honesto. Muito directo. Não divaga. E é um ser humano íntegro." Nos tempos tão difíceis que correm, trata-se de um elogio excepcional e, quanto a mim, altamente merecido. Por isso, entendi dever registá-lo nesta modesta coluna. |


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